domingo, 30 de novembro de 2025

Assisti ao filme O Agente Secreto mais uma vez, já que o filme é um verdadeiro puzzle e convoca-nos a sermos o próprio "agente secreto" a deslindar a narrativa. O que trago aqui contém spoiler, portanto, quem ainda não assistiu ao filme, não acompanhe essas impressões ou será confiscado do prazer de ser surpreendido. O que eu precisava entender melhor era a conexão entre a perna encontrada na barriga do tubarão e a lenda urbana da perna cabeluda. A princípio parece que são ambos apenas elementos fantásticos do anedotário local sem uma implicação direta com os crimes da ditadura, mas um olhar mais atento deixará claro que não o são. São elementos concatenados que esclarecem a trama. A perna encontrada na barriga do tubarão nada mais é do que a perna do estudante de agronomia, acusado de comunista e que estava desaparecido, segundo notícia de jornal comentada pelo delegado. Ocorre que foi o próprio delegado, alcunhado de "painho", e o grupo de policiais civis comandado por ele, que mataram o jovem universitário e jogaram-no ao mar, prática trivial tal como mostrada no filme. O que não contavam era que o tubarão comesse a perna do corpo da vítima, gerando, assim, ao menos, um pedaço do corpo de delito. Daí a preocupação dos policiais em irem ao IML e, através de suborno, trocarem a perna do estudante por uma pata de cabra. Ato contínuo lançaram a perna ao rio. A perna, por sua vez, foi parar nas margens do Capibaribe e, a partir desse evento, começaram os ataques da perna cabeluda, ou seja, os ataques das forças militares e policiais! Cada vez que se noticiava um ataque da perna cabeluda, na verdade, estava-se noticiando a morte ou o desaparecimento de alguém que estava sendo perseguido pelas forças de Estado, tal como ocorrera com o aluno de agronomia. Sendo o tubarão uma metáfora para essas forças predatórias. Não sem razão, o menino, filho do professor, era obcecado pelo tubarão, esse que devoraria tanto a sua mãe quanto o seu pai, já que ela também foi assassinada pelos predadores da ditadura. O cartaz do filme em inglês aqui postado ilustra bem essa percepção. E se o filho diz ter esquecido o pai, é na barriga do tubarão que ele trabalha (no prédio onde assistiu ao filme), devolvendo-lhe a vida através das transfusões de sangue.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sobre o filme O AGENTE SECRETO (Contém spoiler) Importante o diretor Kleber Mendonça Filho ter lançado um olhar sobre a ditadura em uma outra perspectiva: A da promiscuidade entre o setor público e o setor privado. E o quanto esse "player" empresarial estava implicado não apenas com a dinâmica do "milagre econômico", mas com as práticas de toda sorte de violências, incluindo assassinatos, durante os anos de chumbo, a fim de fazerem valer os seus interesses econômicos e financeiros. Nessa toada, ampliou o olhar sobre a perseguição às Universidades. Por detrás de uma "simples" caça a professores comunistas, poderia estar um projeto deliberado de colocar abaixo toda e qualquer pesquisa que comprometesse o esquema montado entre empresas públicas, no filme, a Eletrobrás, e indústrias privadas que tinham participação nessas empresas. Se a tecnologia a ser desenvolvida, e que comprometesse o grande esquema, estivesse em Universidades fora do Centro-Sul do país, a artilharia apontada para os seus departamentos seria ainda mais pesada. Afinal, ao Nordeste apenas é autorizada a exportação de paus-de-arara, o que nada mais é do que a mesma lógica praticada pelos países centrais quando o Brasil "ousa" desenvolver tecnologia. No filme há dois Centros da UFPE que são focados: O de oceanografia e o de engenharia elétrica. Kleber mostra o quanto a Universidade é um ator presente e atuante na sociedade local. A oceanografia, na análise dos reiterados ataques de tubarões (em angulação com o realismo fantástico do anedotário local que tem a "Perna cabeluda" como síntese), e o de engenharia elétrica que, de tão avançado, está ameaçando os interesses e as fraudes da Eletrobrás e das empresas privadas ligadas a ela (uma metáfora dos tubarões). Mais adiante percebemos que, também, o Metrô de São Paulo integra essa promiscuidade entre o regime militar e o setor privado. Uma crítica à nossa herança social contagiada por regimes autoritários, atualizando ao avesso tragédias como a de Miguelzinho e a de sua mãe, Mirtes, entrecortado com o permanente elogio do diretor às salas de cinema de rua, fazem do Agente Secreto aquele filme que, mais do que estar em cartaz no Cine São Luís durante a exibição da narrativa, espiona-nos sem cessar enquanto se desenrola a nossa trama escatológica e críptica , cheia de sem respostas, portanto, ainda mal-dita.