sábado, 21 de fevereiro de 2026

Ala das Baianas

A Ala das Baianas nas Escolas de Samba não são uma homenagem aleatória, mas uma honra a um pressuposto fundamental para que o samba prosperasse. Foram as tias baianas, mães de santo que haviam vindo da Bahia após a abolição da escravatura, que trouxeram para o Rio de Janeiro a tradição das rodas de samba e as promoviam em seus terreiros. Ainda que a execução do samba fosse criminalizada, os sambistas perseguidos e os seus instrumentos apreendidos, as casas das tias baianas eram território neutro, não perturbado pela polícia, uma vez que elas também atuavam como curandeiras, tendo uma das suas pioneiras, tia Ciata, curado o então presidente, Venceslau Brás, de uma grave enfermidade. Essa incolumidade possibilitou que no terreiro de tia Ciata, um casarão que recebia Donga, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres, dentre outros, fosse composto o primeiro samba que viria a ser fonogravado: "Pelo Telefone". As tias baianas, durante o dia, trabalhavam como quituteiras, trajadas com seus turbantes, vestidos brancos, colares e pulseiras, dispondo os seus tabuleiros ao redor da Praça Onze, região onde também moravam, área que ficou conhecida como "Pequena África". Portanto, a Ala das Baianas, cuja matriarca é tia Ciata, é uma homenagem às mulheres sem as quais nenhuma outra Ala de uma Escola de Samba existiria.

O Samba Redentor

No feriado momesco terminei, com saudades, de ler as crônicas de Júlia Lopes de Almeida. Com saudades porque ler esses textos é sentir como se estivesse testemunhando os fatos por ela relatados em tempo real. Fechar as suas 400 páginas é viver a experiência de uma viagem instantânea de volta a 114 anos no futuro. Ainda discorrerei bastante sobre o precioso conteúdo dessas páginas, inclusive, sobre a força desse gênero literário que nos transpõe, como nenhum outro, ao tempo de sua narrativa, haja vista a sua própria etimologia. E como estamos ainda nos estertores do carnaval, um tema abordado recorrentemente por Júlia é a profunda tristeza e "ingênita melancolia" do povo brasileiro, que faz de nós "um povo de suicidas" e feminicidas "meninos que matam as namoradas com ferocidade e escândalo". Para Júlia, essa melancolia é uma herança das "angustiosas senzalas africanas, tristes até quando dançam em seus soturnos batuques". Uma herança do escravagismo, enfim. Em uma outra crônica de 1910, a autora aduz que para forçar o carioca a rir "é preciso inventar um novo gênero de cócegas". E ouso dizer que esse gênero surgiria pra toda a luz e seria gravado em fonograma 6 anos depois, em 1916, por um artista de nome, Donga, e que se chamava "samba". O samba ou "semba" que nasceu nas rodas de batuque nas senzalas das fazendas na Bahia e que, para além de uma dança, era um culto sagrado. O samba que foi trazido pelos negros libertos após a abolição, para a então capital federal, mas que foi nela perseguido e proibido, sendo tocado e dançado, estritamente, nos terreiros sob a proteção das tias baianas. O samba que era choro e era lamento e que apesar do sofrimento do povo negro, uma vez conquistada a liberdade, desabrochou em riso. O samba que, finalmente, deixou de ser motivo de prisão e passou a ser caminho para a consagração com os desfiles das primeiras escolas já na década de 1930. O samba das favelas que foi pra Hollywood com Ary Barroso e Carmen Miranda nos anos 40, que se tornou bossa nova capitaneada por Tom Jobim nos anos 50 e que foi a base para uma sofisticada MPB a partir dos anos 60. O samba, esse "novo gênero de cócegas", nascido da dor das senzalas, cuja vingança foi transformar o povo brasileiro em um largo sorriso pra o mundo. Curiosidades: O samba deixou de ser caso de polícia, sendo descriminalizado, em inícios da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Vargas, no afã de implementar políticas nacionalistas e forjar uma identidade para a Nação, estimulou e apoiou que o samba, de crime de vadiagem, passasse a ser uma expressão da cultura popular. Vargas, então, regulamentou as Escolas de Samba e apoiou os seus primeiros desfiles. A oficialização do samba era, também, uma forma de colocá-lo, para além da tutela, sob o controle estatal. Algumas outras curiosidades: Além de ser proibido por Lei e reprimido pela polícia, o samba sofria forte preconceito das classes médias por todo o Brasil. Em Recife, essa intolerância passou a ser amainada quando Gilberto Freyre que vivia no bairro de Apipucos passou a subir a ladeira do Monteiro para visitar os terreiros de candomblé onde havia as rodas de samba no Alto de Santa Isabel. O buchicho era grande: "Gilberto Freyre está visitando os terreiros para ver o samba!". Aos poucos, outros intelectuais o acompanharam e o ritmo, pouco a pouco, passou a ser tolerado e foi popularizado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Barão do Rio Branco

Se a França teve Napoleão que conquistou a Europa empunhando armas, para depois perdê-la, o Brasil teve o Barão de Rio Branco que conquistou 900.000 km2 para o território nacional sem um único disparo, e o melhor, área que está consolidada no mapa do país até os dias de hoje. Se o grande feito de Rio Branco foi fazer do Brasil o que hoje é o Brasil, não deveríamos estranhar a comoção popular que causou a sua agonia e a sua morte ocorrida no dia 10 de fevereiro de 1912 e noticiado o seu funeral no Jornal O Paiz do Rio de Janeiro no dia 13 de fevereiro, ou seja, há exatos 114 anos. E aqui, novamente, faço uma analogia com os franceses: Se em Paris, milhares de pessoas foram às ruas fazer o cortejo do enterro de Victor Hugo, diferente não foi durante o sepultamento do Barão do Rio Branco no Rio de Janeiro. Tendo sido Ministro das Relações Exteriores, Rio Branco substituiu a guerra pela diplomacia ao resolver a questão do Acre com a Bolívia, criando-se, assim o Estado do Acre, ao vencer o litígio com a França, garantindo a soberania brasileira sobre uma vasta área ao norte do Amapá, ao conseguir arbitragem favorável ao Brasil na questão das Missões contra a Argentina e ao solucionar outras questões territoriais com o Peru, a Colômbia e demais países vizinhos. Se hoje, o Direito Internacional Público no Brasil pode parecer despiciendo (pelo menos até o advento Trump) é porque há mais de cem anos, Rio Branco consolidou o nosso mapa nacional e pacificou a nossa região ao adotar o panamericanismo. No entanto, estando consumado o sepultamento do Chanceler, uma nova questão foi posta à mesa e que não mais contaria com a diplomacia de Rio Branco para a sua resolução: Um dia após a sua Missa de Sétimo Dia, era o domingo de Carnaval, o que fazer então se a pátria estava enlutada, manter ou não os festejos carnavalescos? O Governo Federal, houve por bem transferir o Carnaval para o mês de abril. Já o povo brasileiro que havia pranteado Rio Branco, argumentou que o Carnaval não é uma festa Nacional e sim uma festa da Igreja Católica, não havendo como alterar o calendário litúrgico-cristão. O que ocorreu, então? No domingo de Carnaval o povo foi às ruas resfatelar-se e naquele ano houve dois Carnavais. Nem Rio Branco teria resolvido melhor essa controvérsia! 😃.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA - A PRIMEIRA ESCRITORA PROFISSIONAL DO BRASIL As mulheres protagonizam a história e algumas são celebradas em seu tempo, mas muito poucas se livram de serem invisibilizadas. Uma delas, que urge resgatarmos é JÚLIA LOPES DE ALMEIDA (1862-1934), uma de nossas mais prolíficas escritoras e considerada como sendo a primeira escritora profissional do Brasil. Júlia escreveu romances, crônicas e poemas, além de ter sido uma voz social ativa e eloquente pela República, pela abolição dos escravizados e pelos direitos das mulheres. Assumidamente feminista, trabalhou como redatora de revistas e jornais como O Paiz. Seus romances eram realistas beirando o naturalismo. Tendo participado ativamente junto a Machado de Assis e Joaquim Nabuco das ações para que fosse criada a Academia Brasileira de Letras, o seu nome constou da lista inicial dos 40 acadêmicos fundadores, mas foi logo extirpado em favor de seu esposo, Filinto de Almeida. A justificativa era a de que a Academia seguiria o modelo francês que apenas permitiria acadêmicos, ou seja, homens. Começava-se aí o projeto de invisibilização da escritora para a posteridade. Detalhe: Em seus estatutos, a Academia Francesa não vedava a eleição de escritoras, embora só viesse a eleger uma delas em 1980, a incontornável Marguerite Yourcenar. Filinto de Almeida, o esposo da escritora Júlia Lopes de Almeida, durante todo o exercício de sua imortalidade na Academia Brasileira de Letras, logo, o resto de sua vida, foi alcunhado de "acadêmico consorte". Pelo menos, isso...
E TOM JOBIM JOGOU A ÚLTIMA PÁ DE CAL SOBRE A MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA... Ao menos, é o que inferimos na saborosa leitura das crônicas de Júlia Lopes de Almeida para o jornal carioca O Paiz, publicadas entre os anos de 1908 e 1912. Explico-me! Diversamente do que ficou para a posteridade, a música clássica no Brasil não se restringe às composições de Carlos Gomes e de Heitor Villa-Lobos. É muito mais vasta! Elpídio Pereira, Henrique Mesquita e Alberto Nepomuceno são apenas três nomes cintilantes em uma plêiade de Maestros brasileiros com pródigas obras nas quais constam música de câmara, orquestral, óperas, sinfonias, missas, dentre tantas outras a perder de vista. O Instituto Nacional de Música era um celeiro de novos prodígios não apenas na execução, mas na criação a cada "saison". Então, porque concluo que o nosso amado Tom Jobim colocou a última pá de cal nessa festa? Porque Tom, junto a outros gênios musicais brasileiros foram cultivados na música clássica e atravessados por uma música popular de tradição local na qual estavam engendradas as músicas negras e indígenas. Lundus, maxixes e já no século XX, o chorinho e o samba foram, pouco a pouco, construindo algo novo, singular e de beleza única sobre a base clássica e vice-versa: as músicas de base popular negra e indígena foram atravessadas por harmonias da música clássica. Nesse movimento, eu, pessoalmente, enxergo um triunvirato de gênios revolucionários da música brasileira, sem desprezar os demais que fortemente contribuíram para o fenômeno: PIXINGUINHA, ARY BARROSO E TOM JOBIM. Sendo que este último, na junção perfeita entre o clássico e o popular, mudou a música no Brasil para sempre, aposentando a produção de música clássica (que ainda existe, mas não caracteriza a música brasileira) e influenciando tudo o que viria depois e que recebeu o nome de "MPB". Essa que é reconhecida como uma das melhores músicas do mundo e no mundo. A esse triunvirato decisivo que pôs no chão a tradição clássica no Brasil, poderíamos acrescentar o nosso amantíssimo LUIZ GONZAGA. E agora lhes pergunto: Para onde caminha, atualmente, a formação musical dos músicos brasileiros e a nossa genial MPB?

domingo, 18 de janeiro de 2026

Jane Catulle Mendès

E como sói há de ocorrer, muitas das mulheres que protagonizam a história caem no total apagamento como é o caso da poeta e feminista francesa, JANE CATULLE MENDÈS, que, simplesmente, foi quem batizou o Rio de Janeiro com o epíteto de CIDADE MARAVILHOSA! Estou finalizando a leitura do livro de Rafael Sento Sé que faz esse resgate e estou deliciando-me a cada página! A brilhante e estonteante crítica dramatúrgica e poeta, Jane Catulle Mendès, foi uma espécie de Madame Bovary que deu certo, sendo ela, inclusive, amiga de Flaubert e de tantos outros que frequentavam o seu Salon em Paris, como Sarah Bernh
ardt, sua comadre. Uma vez, tragicamente, viúva, veio à América do Sul para uma turnê de Conferências, espécie de evento muito popular durante a Belle Époque. O projeto era o de aqui ficar por três semanas, que foram ao fim, multiplicadas por três. O livro nos transporta para a vida em uma cidade que havia há bem pouco tempo deixado o epíteto de "Túmulo dos Estrangeiros", em razão das recorrentes epidemias de febre amarela que massacravam a sua população e ceifava a vida de uma expressiva parte de seus visitantes, e começava a acender suas luzes. O giro Copérnico se dera com as reformas de Pereira Passos, o Haussmann dos trópicos e a sua política do "bota abaixo", que transformara a antiga Rio mortífera e insalubre em uma cidade reluzente com bulevares como a Avenida Central (posterior Rio Branco e na qual era proibido caminhar descalço) e prédios-monumento de arquitetura francesa tais como o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Palácio Monroe. É nessa reinaugurada Rio de Janeiro que a poeta feminista desembarca e se encanta. Além de ser uma crônica da sociedade carioca em inícios do século XX, o livro discorre a quantas andava o feminismo na França e no Brasil, ambos capitaneados por mulheres da alta sociedade. Jane Catulle Mendès era, também, jornalista em um jornal dirigido pela pioneira feminista, Marguerite Durand, "La Fronde" e em uma revista de nome "Femina", ambos geridos e escritos, exclusivamente, por mulheres. O autor fala da tentativa das intelectuais cariocas em fundarem uma revista nos mesmos moldes, e foi com grande alegria que li o parágrafo no qual ele informa que o projeto prosperara apenas no Recife com a revista, O Lyrio, dirigida por Amélia Beviláqua e por minha tia-bisavó, Edwiges de Sá Pereira. Pois bem, uma vez de volta à Paris, Jane Mendès passa a proferir uma série de conferências sobre a cultura e a literatura brasileira, irradiando nomes como os de Júlia Lopes de Almeida e Laurinda Santos Lobo, que se tornaram suas amigas, e os de Olavo Bilac e de Machado de Assis. Ato contínuo, publica um livro de poemas intitulado La Ville Marveilleuse: Rio de Janeiro. O livro foi dado à estampa em 1913, quase uma década antes que Olegário Mariano publicasse o seu livro de poemas "Cidade Maravilhosa" e duas décadas antes que fosse encenado o espetáculo musical "Cidade Maravilhosa" produzido por Aracy Côrtes. Mas, claro, que a origem do epíteto por ter sido conferido por uma mulher, culta e bela ainda por cima, passaria a ser invisibilizado. Em terras brasileiras, Jane Catulle Mendès, não se livrou de ser detratada por alguns homens proeminentes que seguiam a cartilha do jornalista de prestígio, Figueiredo Pimentel, que dizia, escrevia e publicava frases tal qual: "Apreciamos uma mulher instruída, mas não sábia, precieuse ridicule (bobinha); e temos horror às mulheres que escrevem, as bas -bleu". À cada difamação publicada contra a poeta, Jane Catulle Mendès, responderia com assertividade e elegância, não sem terminar o seu texto com um "que aceite os meus melhores cumprimentos". Estando no Rio de Janeiro, Jane Catulle Mendès, vociferava "Ah, terra boa! Resumo todas as minhas impressões nesta exclamação, que repito cem vezes por dia". Sobre a autoria do epíteto "Cidade Maravilhosa" conferida ao Rio de Janeiro por Jane Catulle Mendès, finalizaríamos, tomando de empréstimo as palavras da própria autora: "Eu vos peço, Monsieur, que restabeleça a verdade publicando a minha carta e que aceite os meus melhores cumprimentos".

domingo, 30 de novembro de 2025

Assisti ao filme O Agente Secreto mais uma vez, já que o filme é um verdadeiro puzzle e convoca-nos a sermos o próprio "agente secreto" a deslindar a narrativa. O que trago aqui contém spoiler, portanto, quem ainda não assistiu ao filme, não acompanhe essas impressões ou será confiscado do prazer de ser surpreendido. O que eu precisava entender melhor era a conexão entre a perna encontrada na barriga do tubarão e a lenda urbana da perna cabeluda. A princípio parece que são ambos apenas elementos fantásticos do anedotário local sem uma implicação direta com os crimes da ditadura, mas um olhar mais atento deixará claro que não o são. São elementos concatenados que esclarecem a trama. A perna encontrada na barriga do tubarão nada mais é do que a perna do estudante de agronomia, acusado de comunista e que estava desaparecido, segundo notícia de jornal comentada pelo delegado. Ocorre que foi o próprio delegado, alcunhado de "painho", e o grupo de policiais civis comandado por ele, que mataram o jovem universitário e jogaram-no ao mar, prática trivial tal como mostrada no filme. O que não contavam era que o tubarão comesse a perna do corpo da vítima, gerando, assim, ao menos, um pedaço do corpo de delito. Daí a preocupação dos policiais em irem ao IML e, através de suborno, trocarem a perna do estudante por uma pata de cabra. Ato contínuo lançaram a perna ao rio. A perna, por sua vez, foi parar nas margens do Capibaribe e, a partir desse evento, começaram os ataques da perna cabeluda, ou seja, os ataques das forças militares e policiais! Cada vez que se noticiava um ataque da perna cabeluda, na verdade, estava-se noticiando a morte ou o desaparecimento de alguém que estava sendo perseguido pelas forças de Estado, tal como ocorrera com o aluno de agronomia. Sendo o tubarão uma metáfora para essas forças predatórias. Não sem razão, o menino, filho do professor, era obcecado pelo tubarão, esse que devoraria tanto a sua mãe quanto o seu pai, já que ela também foi assassinada pelos predadores da ditadura. O cartaz do filme em inglês aqui postado ilustra bem essa percepção. E se o filho diz ter esquecido o pai, é na barriga do tubarão que ele trabalha (no prédio onde assistiu ao filme), devolvendo-lhe a vida através das transfusões de sangue.