sábado, 28 de fevereiro de 2026

Júlia Lopes de Almeida e Edwiges de Sá Pereira

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA e EDWIGES DE SÁ PEREIRA : DUAS VOZES ATIVAS NA BELLE ÉPOQUE BRASILEIRA Não há um só dia, nesse mês de fevereiro, no qual eu não leia, ao menos, três crônicas da robusta produção da escritora Júlia Lopes de Almeida para o jornal carioca O Paiz entre 1908 e 1912. É um deleite deparar-se com o inesperado dos temas tratados pela jornalista, uma cronista urbana que longe de escrever sobre os temas permitidos para as mulheres de seu tempo tais quais os afazeres domésticos, os sonhos românticos de moçoilas casadoiras, as modas e as rezas, falava sobre políticas públicas na educação e na saúde, transporte urbano, violência policial, arborização, feminicídio, criminalidade e exclusão social. E, claro, sobre música, dramaturgia, livros e as artes em geral. Nas crônicas de Júlia assomam-se pouco a pouco os problemas com os quais o Brasil pós-monarquia e pós-escravidão teve que lidar até hoje e que só recrudesceram. Uma verdadeira ontologia do presente, enfim. Imaginem, então, a minha alegria em ser surpreendida, até agora, por duas vezes, nas citações que a autora faz sobre a minha tia-bisavó Edwiges de Sá Pereira! Tia Edwiges, à época, com 26 anos de idade, já era professora da Escola Normal e, como também jornalista, assinava uma coluna semanal no Jornal Pequeno do Recife na qual debatia os desafios de seu tempo. O que me regozija profundamente é como essas duas mulheres em inícios do século XX, quando sequer havia sido promulgado o nosso primeiro Código Civil e que, após casadas, não podiam nem trabalhar, nem abrir uma conta bancária, nem prestar uma queixa na delegacia sem a autorização de seus maridos, estavam tão ativas no espaço público e discutindo sobre os problemas e os negócios públicos! Em tempos nos quais as notícias não eram veiculadas instantaneamente, as jornalistas e intelectuais liam-se e reverberavam os reclames umas das outras. E viajavam muito! Júlia Lopes, carioca, era casada com um português de mentalidade emancipada e rodava o mundo. Já tia Edwiges, pernambucana, que vivia deslizando pelos mares do sul com seus trabalhos e pesquisas nunca se casou. Compreende-se.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A REVOLTA DA CHIBATA

"GLÓRIA A TODAS AS LUTAS INGLÓRIAS QUE ATRAVÉS DA NOSSA HISTÓRIA NÃO ESQUECEMOS JAMAIS..." Ler as crônicas de Júlia Lopes de Almeida é quase como estemunhar fatos pulsantes da história do Brasil em tempo real. Acontecimentos que abalaram a incipiente e trepidante República brasileira no alvorecer do século XX e que desafiaram, não apenas as instituições, mas a paz nacional. Se uma boa parte das rupturas na formação do país foram concertadas pelas elites, seja a independência, seja a abolição da escravatura, seja o golpe militar que levou à proclamação da República, a chamada REVOLTA da CHIBATA de 1910, um movimento de marinheiros, em sua franca maioria, pretos e pardos, liderados pelo, também marinheiro, João Cândido, desmentiu o que ainda se podia acreditar acerca da docilidade e conformismo dos negros brasileiros. Sabemos que a Lei Áurea aboliu a condição jurídica de escravizados, alçando os libertos ao status de pessoas, no entanto, muito pouco ou quase nada aboliu em torno da exclusão social e das práticas de violência infringidas ao povo negro. Os marinheiros integrantes das Forças Armadas, de maioria negra, como o dissemos, rebelaram-se contra os castigos cruéis que sofriam de seus superiores brancos nos mesmos moldes daqueles de quando eram escravizados: Sendo chicoteados publicamente aos olhos de seus companheiros. Para exigirem o fim das iniquidades, posicionaram os três, então, mais modernos navios de guerra brasileiros com os seus canhões voltados para a Baía da Guanabara e ameaçaram reduzir a cidade do Rio de Janeiro a pó. Durante três dias, a capital federal esteve conflagrada e houve confronto e houve desespero e houve mortes.Até que o líder da rebelião, que viria a ser alcunhado de "Almirante Negro", foi preso e logo após, a fim de evitar-se uma escalada bélica incontornável, anistiado junto aos demais amotinados. Ademais, foram extintos os castigos corporais. Foi essa a estratégia do parlamento e do Presidente da República, à época, Hermes da Fonseca. No entanto, a anistia era uma farsa, pois, um sem número de revoltosos foi assassinado ou enviado para trabalhos forçados no cultivo de borracha no Norte do país. Sendo que, desses últimos, muitos foram lançados ao mar, não chegando aos seus destinos. Barbáries que se perpetuam, que atrasaram e atrasam o Brasil a chegar ao seu destino de, finalmente, ser uma Nação...

O Caso de Rute: Conto de Júlia Lopes de Almeida

OS CONTOS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA E O ESTUPRO INCESTUOSO DE VULNERÁVEIS Mais do que falar sobre uma literatura de mulheres é urgente falar sobre qual literatura é "permitida" às mulheres. Uma literatura autorizada não apenas como leitura, mas, sobretudo, enquanto escrita. Afinal, sobre o que pode falar, pesquisar e escrever as mulheres? Os tabus e interdições se baseiam em, para além de uma aventada manutenção de pureza, pudor e inocência femininas, na preservação de um espaço de taras e perversões masculinas no qual os homens, historicamente, tiveram o controle sobre os corpos das mulheres e exerceram seus poderes. Ousar discorrer, analisar e dissecar assédios e abusos sexuais, penetrando nesses espaços, é desafiar a perpetuação das desigualdades, das violências e da masculinidade hegemônica. Em tempos de relatórios Epstein e de tribunais cujas decisões em casos de estupro fazem Têmis arrancar a venda de seus olhos, indago-me sobre o quanto as mulheres, que são as maiores vítimas desses crimes e disparates, estiveram permitidas a não apenas relatarem, mas fabularem em torno dessas agressões, simbolizando-as literariamente. Em fins do século XIX e inícios do séc. XX, enquanto Machado de Assis em Dom Casmurro, lançava a pergunta irrespondível sobre se Capitu traíra ou não Bentinho, Júlia Lopes de Almeida em seu conto "O Caso de Rute", narrava sobre uma menina-moça que fora reiteradamente estuprada por seu padrasto, tinha ela 15 anos de idade. No dilema de contar ou não o fato ao seu noivo, ela o faz, suicidando-se pouco tempo depois: "Rute… balbuciou Eduardo. Mas a moça interrompeu-o com um gesto e disse-lhe logo, com voz segura e firme: "-Minha avó mentiu-lhe".O noivo recuou, num movimento de surpresa; foi ela quem se aproximou dele, com esforço arrogante e doloroso, deslumbrando-o com o fulgor dos seus olhos belíssimos, bafejando-lhe as faces com o seu hálito ardente."- Eu não sou pura! Amo-o muito para o enganar. Eu não sou pura! - Foi há oito anos. Meu padrasto era um homem bonito, forte; e eu, uma criança inocente... Dominava-me. No fim de quatro meses de uma vida de luxúria infernal, ele morreu, e foi ainda aqui, nesta sala". Não se trata, portanto, de apenas, e o que já é aviltante, perpetuar as práticas da exploração sexual e destruição das vidas das mulheres, mas de manter o monopólio dos discursos, quer sejam leigos, jornalísticos, jurídicos ou literários acerca dessas práticas. Ou seja, não é de surpreender que escritoras como Júlia Lopes de Almeida tenham sido, deliberadamente, apagadas da história da literatura e do jornalismo brasileiros.

100 Anos do Manifesto Regionalista do Nordeste

100 ANOS DO MANIFESTO REGIONALISTA DO NORDESTE Em meio a recente miríade de produções e manifestações culturais nordestinas abraçando e encantando o mundo, vamos nos lembrar que neste ano de 2026, comemoram-se os 100 anos do Manifesto Regionalista do Nordeste, o primeiro das Américas e que ocorreu durante três dias no salão nobre da Faculdade de Direito do Recife em fevereiro de 1926. O movimento, que integra o modernismo brasileiro, foi capitaneado por Gilberto Freyre e, longe de ser uma oposição à Semana de Arte Moderna de 1922, tinha a proposta de reafirmar a centralidade da cultura regional nordestina em articulação com as demais culturas regionais brasileiras. Propunha-se um modelo cultural nos moldes dos movimentos aos quais os filósofos franceses Deleuze e Guattari vieram, posteriormente, a nomear de rizomáticos: que conectam elementos diferentes e não hierárquicos. Ao invés desses embates autofágicos por hegemonia, a Nação Brasil apenas triunfará para o mundo quando cada um dos nossos centros, de mãos dadas uns com os outros, transbordarem em todas as suas expressões de criatividade e potência. Celebremos com mais produção e com mais cultura!

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Ala das Baianas

A Ala das Baianas nas Escolas de Samba não são uma homenagem aleatória, mas uma honra a um pressuposto fundamental para que o samba prosperasse. Foram as tias baianas, mães de santo que haviam vindo da Bahia após a abolição da escravatura, que trouxeram para o Rio de Janeiro a tradição das rodas de samba e as promoviam em seus terreiros. Ainda que a execução do samba fosse criminalizada, os sambistas perseguidos e os seus instrumentos apreendidos, as casas das tias baianas eram território neutro, não perturbado pela polícia, uma vez que elas também atuavam como curandeiras, tendo uma das suas pioneiras, tia Ciata, curado o então presidente, Venceslau Brás, de uma grave enfermidade. Essa incolumidade possibilitou que no terreiro de tia Ciata, um casarão que recebia Donga, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres, dentre outros, fosse composto o primeiro samba que viria a ser fonogravado: "Pelo Telefone". As tias baianas, durante o dia, trabalhavam como quituteiras, trajadas com seus turbantes, vestidos brancos, colares e pulseiras, dispondo os seus tabuleiros ao redor da Praça Onze, região onde também moravam, área que ficou conhecida como "Pequena África". Portanto, a Ala das Baianas, cuja matriarca é tia Ciata, é uma homenagem às mulheres sem as quais nenhuma outra Ala de uma Escola de Samba existiria.

O Samba Redentor

No feriado momesco terminei, com saudades, de ler as crônicas de Júlia Lopes de Almeida. Com saudades porque ler esses textos é sentir como se estivesse testemunhando os fatos por ela relatados em tempo real. Fechar as suas 400 páginas é viver a experiência de uma viagem instantânea de volta a 114 anos no futuro. Ainda discorrerei bastante sobre o precioso conteúdo dessas páginas, inclusive, sobre a força desse gênero literário que nos transpõe, como nenhum outro, ao tempo de sua narrativa, haja vista a sua própria etimologia. E como estamos ainda nos estertores do carnaval, um tema abordado recorrentemente por Júlia é a profunda tristeza e "ingênita melancolia" do povo brasileiro, que faz de nós "um povo de suicidas" e feminicidas "meninos que matam as namoradas com ferocidade e escândalo". Para Júlia, essa melancolia é uma herança das "angustiosas senzalas africanas, tristes até quando dançam em seus soturnos batuques". Uma herança do escravagismo, enfim. Em uma outra crônica de 1910, a autora aduz que para forçar o carioca a rir "é preciso inventar um novo gênero de cócegas". E ouso dizer que esse gênero surgiria pra toda a luz e seria gravado em fonograma 6 anos depois, em 1916, por um artista de nome, Donga, e que se chamava "samba". O samba ou "semba" que nasceu nas rodas de batuque nas senzalas das fazendas na Bahia e que, para além de uma dança, era um culto sagrado. O samba que foi trazido pelos negros libertos após a abolição, para a então capital federal, mas que foi nela perseguido e proibido, sendo tocado e dançado, estritamente, nos terreiros sob a proteção das tias baianas. O samba que era choro e era lamento e que apesar do sofrimento do povo negro, uma vez conquistada a liberdade, desabrochou em riso. O samba que, finalmente, deixou de ser motivo de prisão e passou a ser caminho para a consagração com os desfiles das primeiras escolas já na década de 1930. O samba das favelas que foi pra Hollywood com Ary Barroso e Carmen Miranda nos anos 40, que se tornou bossa nova capitaneada por Tom Jobim nos anos 50 e que foi a base para uma sofisticada MPB a partir dos anos 60. O samba, esse "novo gênero de cócegas", nascido da dor das senzalas, cuja vingança foi transformar o povo brasileiro em um largo sorriso pra o mundo. Curiosidades: O samba deixou de ser caso de polícia, sendo descriminalizado, em inícios da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Vargas, no afã de implementar políticas nacionalistas e forjar uma identidade para a Nação, estimulou e apoiou que o samba, de crime de vadiagem, passasse a ser uma expressão da cultura popular. Vargas, então, regulamentou as Escolas de Samba e apoiou os seus primeiros desfiles. A oficialização do samba era, também, uma forma de colocá-lo, para além da tutela, sob o controle estatal. Algumas outras curiosidades: Além de ser proibido por Lei e reprimido pela polícia, o samba sofria forte preconceito das classes médias por todo o Brasil. Em Recife, essa intolerância passou a ser amainada quando Gilberto Freyre que vivia no bairro de Apipucos passou a subir a ladeira do Monteiro para visitar os terreiros de candomblé onde havia as rodas de samba no Alto de Santa Isabel. O buchicho era grande: "Gilberto Freyre está visitando os terreiros para ver o samba!". Aos poucos, outros intelectuais o acompanharam e o ritmo, pouco a pouco, passou a ser tolerado e foi popularizado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Barão do Rio Branco

Se a França teve Napoleão que conquistou a Europa empunhando armas, para depois perdê-la, o Brasil teve o Barão de Rio Branco que conquistou 900.000 km2 para o território nacional sem um único disparo, e o melhor, área que está consolidada no mapa do país até os dias de hoje. Se o grande feito de Rio Branco foi fazer do Brasil o que hoje é o Brasil, não deveríamos estranhar a comoção popular que causou a sua agonia e a sua morte ocorrida no dia 10 de fevereiro de 1912 e noticiado o seu funeral no Jornal O Paiz do Rio de Janeiro no dia 13 de fevereiro, ou seja, há exatos 114 anos. E aqui, novamente, faço uma analogia com os franceses: Se em Paris, milhares de pessoas foram às ruas fazer o cortejo do enterro de Victor Hugo, diferente não foi durante o sepultamento do Barão do Rio Branco no Rio de Janeiro. Tendo sido Ministro das Relações Exteriores, Rio Branco substituiu a guerra pela diplomacia ao resolver a questão do Acre com a Bolívia, criando-se, assim o Estado do Acre, ao vencer o litígio com a França, garantindo a soberania brasileira sobre uma vasta área ao norte do Amapá, ao conseguir arbitragem favorável ao Brasil na questão das Missões contra a Argentina e ao solucionar outras questões territoriais com o Peru, a Colômbia e demais países vizinhos. Se hoje, o Direito Internacional Público no Brasil pode parecer despiciendo (pelo menos até o advento Trump) é porque há mais de cem anos, Rio Branco consolidou o nosso mapa nacional e pacificou a nossa região ao adotar o panamericanismo. No entanto, estando consumado o sepultamento do Chanceler, uma nova questão foi posta à mesa e que não mais contaria com a diplomacia de Rio Branco para a sua resolução: Um dia após a sua Missa de Sétimo Dia, era o domingo de Carnaval, o que fazer então se a pátria estava enlutada, manter ou não os festejos carnavalescos? O Governo Federal, houve por bem transferir o Carnaval para o mês de abril. Já o povo brasileiro que havia pranteado Rio Branco, argumentou que o Carnaval não é uma festa Nacional e sim uma festa da Igreja Católica, não havendo como alterar o calendário litúrgico-cristão. O que ocorreu, então? No domingo de Carnaval o povo foi às ruas resfatelar-se e naquele ano houve dois Carnavais. Nem Rio Branco teria resolvido melhor essa controvérsia! 😃.