sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Barão do Rio Branco

Se a França teve Napoleão que conquistou a Europa empunhando armas, para depois perdê-la, o Brasil teve o Barão de Rio Branco que conquistou 900.000 km2 para o território nacional sem um único disparo, e o melhor, área que está consolidada no mapa do país até os dias de hoje. Se o grande feito de Rio Branco foi fazer do Brasil o que hoje é o Brasil, não deveríamos estranhar a comoção popular que causou a sua agonia e a sua morte ocorrida no dia 10 de fevereiro de 1912 e noticiado o seu funeral no Jornal O Paiz do Rio de Janeiro no dia 13 de fevereiro, ou seja, há exatos 114 anos. E aqui, novamente, faço uma analogia com os franceses: Se em Paris, milhares de pessoas foram às ruas fazer o cortejo do enterro de Victor Hugo, diferente não foi durante o sepultamento do Barão do Rio Branco no Rio de Janeiro. Tendo sido Ministro das Relações Exteriores, Rio Branco substituiu a guerra pela diplomacia ao resolver a questão do Acre com a Bolívia, criando-se, assim o Estado do Acre, ao vencer o litígio com a França, garantindo a soberania brasileira sobre uma vasta área ao norte do Amapá, ao conseguir arbitragem favorável ao Brasil na questão das Missões contra a Argentina e ao solucionar outras questões territoriais com o Peru, a Colômbia e demais países vizinhos. Se hoje, o Direito Internacional Público no Brasil pode parecer despiciendo (pelo menos até o advento Trump) é porque há mais de cem anos, Rio Branco consolidou o nosso mapa nacional e pacificou a nossa região ao adotar o panamericanismo. No entanto, estando consumado o sepultamento do Chanceler, uma nova questão foi posta à mesa e que não mais contaria com a diplomacia de Rio Branco para a sua resolução: Um dia após a sua Missa de Sétimo Dia, era o domingo de Carnaval, o que fazer então se a pátria estava enlutada, manter ou não os festejos carnavalescos? O Governo Federal, houve por bem transferir o Carnaval para o mês de abril. Já o povo brasileiro que havia pranteado Rio Branco, argumentou que o Carnaval não é uma festa Nacional e sim uma festa da Igreja Católica, não havendo como alterar o calendário litúrgico-cristão. O que ocorreu, então? No domingo de Carnaval o povo foi às ruas resfatelar-se e naquele ano houve dois Carnavais. Nem Rio Branco teria resolvido melhor essa controvérsia! 😃.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA - A PRIMEIRA ESCRITORA PROFISSIONAL DO BRASIL As mulheres protagonizam a história e algumas são celebradas em seu tempo, mas muito poucas se livram de serem invisibilizadas. Uma delas, que urge resgatarmos é JÚLIA LOPES DE ALMEIDA (1862-1934), uma de nossas mais prolíficas escritoras e considerada como sendo a primeira escritora profissional do Brasil. Júlia escreveu romances, crônicas e poemas, além de ter sido uma voz social ativa e eloquente pela República, pela abolição dos escravizados e pelos direitos das mulheres. Assumidamente feminista, trabalhou como redatora de revistas e jornais como O Paiz. Seus romances eram realistas beirando o naturalismo. Tendo participado ativamente junto a Machado de Assis e Joaquim Nabuco das ações para que fosse criada a Academia Brasileira de Letras, o seu nome constou da lista inicial dos 40 acadêmicos fundadores, mas foi logo extirpado em favor de seu esposo, Filinto de Almeida. A justificativa era a de que a Academia seguiria o modelo francês que apenas permitiria acadêmicos, ou seja, homens. Começava-se aí o projeto de invisibilização da escritora para a posteridade. Detalhe: Em seus estatutos, a Academia Francesa não vedava a eleição de escritoras, embora só viesse a eleger uma delas em 1980, a incontornável Marguerite Yourcenar. Filinto de Almeida, o esposo da escritora Júlia Lopes de Almeida, durante todo o exercício de sua imortalidade na Academia Brasileira de Letras, logo, o resto de sua vida, foi alcunhado de "acadêmico consorte". Pelo menos, isso...
E TOM JOBIM JOGOU A ÚLTIMA PÁ DE CAL SOBRE A MÚSICA CLÁSSICA BRASILEIRA... Ao menos, é o que inferimos na saborosa leitura das crônicas de Júlia Lopes de Almeida para o jornal carioca O Paiz, publicadas entre os anos de 1908 e 1912. Explico-me! Diversamente do que ficou para a posteridade, a música clássica no Brasil não se restringe às composições de Carlos Gomes e de Heitor Villa-Lobos. É muito mais vasta! Elpídio Pereira, Henrique Mesquita e Alberto Nepomuceno são apenas três nomes cintilantes em uma plêiade de Maestros brasileiros com pródigas obras nas quais constam música de câmara, orquestral, óperas, sinfonias, missas, dentre tantas outras a perder de vista. O Instituto Nacional de Música era um celeiro de novos prodígios não apenas na execução, mas na criação a cada "saison". Então, porque concluo que o nosso amado Tom Jobim colocou a última pá de cal nessa festa? Porque Tom, junto a outros gênios musicais brasileiros foram cultivados na música clássica e atravessados por uma música popular de tradição local na qual estavam engendradas as músicas negras e indígenas. Lundus, maxixes e já no século XX, o chorinho e o samba foram, pouco a pouco, construindo algo novo, singular e de beleza única sobre a base clássica e vice-versa: as músicas de base popular negra e indígena foram atravessadas por harmonias da música clássica. Nesse movimento, eu, pessoalmente, enxergo um triunvirato de gênios revolucionários da música brasileira, sem desprezar os demais que fortemente contribuíram para o fenômeno: PIXINGUINHA, ARY BARROSO E TOM JOBIM. Sendo que este último, na junção perfeita entre o clássico e o popular, mudou a música no Brasil para sempre, aposentando a produção de música clássica (que ainda existe, mas não caracteriza a música brasileira) e influenciando tudo o que viria depois e que recebeu o nome de "MPB". Essa que é reconhecida como uma das melhores músicas do mundo e no mundo. A esse triunvirato decisivo que pôs no chão a tradição clássica no Brasil, poderíamos acrescentar o nosso amantíssimo LUIZ GONZAGA. E agora lhes pergunto: Para onde caminha, atualmente, a formação musical dos músicos brasileiros e a nossa genial MPB?

domingo, 18 de janeiro de 2026

Jane Catulle Mendès

E como sói há de ocorrer, muitas das mulheres que protagonizam a história caem no total apagamento como é o caso da poeta e feminista francesa, JANE CATULLE MENDÈS, que, simplesmente, foi quem batizou o Rio de Janeiro com o epíteto de CIDADE MARAVILHOSA! Estou finalizando a leitura do livro de Rafael Sento Sé que faz esse resgate e estou deliciando-me a cada página! A brilhante e estonteante crítica dramatúrgica e poeta, Jane Catulle Mendès, foi uma espécie de Madame Bovary que deu certo, sendo ela, inclusive, amiga de Flaubert e de tantos outros que frequentavam o seu Salon em Paris, como Sarah Bernh
ardt, sua comadre. Uma vez, tragicamente, viúva, veio à América do Sul para uma turnê de Conferências, espécie de evento muito popular durante a Belle Époque. O projeto era o de aqui ficar por três semanas, que foram ao fim, multiplicadas por três. O livro nos transporta para a vida em uma cidade que havia há bem pouco tempo deixado o epíteto de "Túmulo dos Estrangeiros", em razão das recorrentes epidemias de febre amarela que massacravam a sua população e ceifava a vida de uma expressiva parte de seus visitantes, e começava a acender suas luzes. O giro Copérnico se dera com as reformas de Pereira Passos, o Haussmann dos trópicos e a sua política do "bota abaixo", que transformara a antiga Rio mortífera e insalubre em uma cidade reluzente com bulevares como a Avenida Central (posterior Rio Branco e na qual era proibido caminhar descalço) e prédios-monumento de arquitetura francesa tais como o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Palácio Monroe. É nessa reinaugurada Rio de Janeiro que a poeta feminista desembarca e se encanta. Além de ser uma crônica da sociedade carioca em inícios do século XX, o livro discorre a quantas andava o feminismo na França e no Brasil, ambos capitaneados por mulheres da alta sociedade. Jane Catulle Mendès era, também, jornalista em um jornal dirigido pela pioneira feminista, Marguerite Durand, "La Fronde" e em uma revista de nome "Femina", ambos geridos e escritos, exclusivamente, por mulheres. O autor fala da tentativa das intelectuais cariocas em fundarem uma revista nos mesmos moldes, e foi com grande alegria que li o parágrafo no qual ele informa que o projeto prosperara apenas no Recife com a revista, O Lyrio, dirigida por Amélia Beviláqua e por minha tia-bisavó, Edwiges de Sá Pereira. Pois bem, uma vez de volta à Paris, Jane Mendès passa a proferir uma série de conferências sobre a cultura e a literatura brasileira, irradiando nomes como os de Júlia Lopes de Almeida e Laurinda Santos Lobo, que se tornaram suas amigas, e os de Olavo Bilac e de Machado de Assis. Ato contínuo, publica um livro de poemas intitulado La Ville Marveilleuse: Rio de Janeiro. O livro foi dado à estampa em 1913, quase uma década antes que Olegário Mariano publicasse o seu livro de poemas "Cidade Maravilhosa" e duas décadas antes que fosse encenado o espetáculo musical "Cidade Maravilhosa" produzido por Aracy Côrtes. Mas, claro, que a origem do epíteto por ter sido conferido por uma mulher, culta e bela ainda por cima, passaria a ser invisibilizado. Em terras brasileiras, Jane Catulle Mendès, não se livrou de ser detratada por alguns homens proeminentes que seguiam a cartilha do jornalista de prestígio, Figueiredo Pimentel, que dizia, escrevia e publicava frases tal qual: "Apreciamos uma mulher instruída, mas não sábia, precieuse ridicule (bobinha); e temos horror às mulheres que escrevem, as bas -bleu". À cada difamação publicada contra a poeta, Jane Catulle Mendès, responderia com assertividade e elegância, não sem terminar o seu texto com um "que aceite os meus melhores cumprimentos". Estando no Rio de Janeiro, Jane Catulle Mendès, vociferava "Ah, terra boa! Resumo todas as minhas impressões nesta exclamação, que repito cem vezes por dia". Sobre a autoria do epíteto "Cidade Maravilhosa" conferida ao Rio de Janeiro por Jane Catulle Mendès, finalizaríamos, tomando de empréstimo as palavras da própria autora: "Eu vos peço, Monsieur, que restabeleça a verdade publicando a minha carta e que aceite os meus melhores cumprimentos".

domingo, 30 de novembro de 2025

Assisti ao filme O Agente Secreto mais uma vez, já que o filme é um verdadeiro puzzle e convoca-nos a sermos o próprio "agente secreto" a deslindar a narrativa. O que trago aqui contém spoiler, portanto, quem ainda não assistiu ao filme, não acompanhe essas impressões ou será confiscado do prazer de ser surpreendido. O que eu precisava entender melhor era a conexão entre a perna encontrada na barriga do tubarão e a lenda urbana da perna cabeluda. A princípio parece que são ambos apenas elementos fantásticos do anedotário local sem uma implicação direta com os crimes da ditadura, mas um olhar mais atento deixará claro que não o são. São elementos concatenados que esclarecem a trama. A perna encontrada na barriga do tubarão nada mais é do que a perna do estudante de agronomia, acusado de comunista e que estava desaparecido, segundo notícia de jornal comentada pelo delegado. Ocorre que foi o próprio delegado, alcunhado de "painho", e o grupo de policiais civis comandado por ele, que mataram o jovem universitário e jogaram-no ao mar, prática trivial tal como mostrada no filme. O que não contavam era que o tubarão comesse a perna do corpo da vítima, gerando, assim, ao menos, um pedaço do corpo de delito. Daí a preocupação dos policiais em irem ao IML e, através de suborno, trocarem a perna do estudante por uma pata de cabra. Ato contínuo lançaram a perna ao rio. A perna, por sua vez, foi parar nas margens do Capibaribe e, a partir desse evento, começaram os ataques da perna cabeluda, ou seja, os ataques das forças militares e policiais! Cada vez que se noticiava um ataque da perna cabeluda, na verdade, estava-se noticiando a morte ou o desaparecimento de alguém que estava sendo perseguido pelas forças de Estado, tal como ocorrera com o aluno de agronomia. Sendo o tubarão uma metáfora para essas forças predatórias. Não sem razão, o menino, filho do professor, era obcecado pelo tubarão, esse que devoraria tanto a sua mãe quanto o seu pai, já que ela também foi assassinada pelos predadores da ditadura. O cartaz do filme em inglês aqui postado ilustra bem essa percepção. E se o filho diz ter esquecido o pai, é na barriga do tubarão que ele trabalha (no prédio onde assistiu ao filme), devolvendo-lhe a vida através das transfusões de sangue.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sobre o filme O AGENTE SECRETO (Contém spoiler) Importante o diretor Kleber Mendonça Filho ter lançado um olhar sobre a ditadura em uma outra perspectiva: A da promiscuidade entre o setor público e o setor privado. E o quanto esse "player" empresarial estava implicado não apenas com a dinâmica do "milagre econômico", mas com as práticas de toda sorte de violências, incluindo assassinatos, durante os anos de chumbo, a fim de fazerem valer os seus interesses econômicos e financeiros. Nessa toada, ampliou o olhar sobre a perseguição às Universidades. Por detrás de uma "simples" caça a professores comunistas, poderia estar um projeto deliberado de colocar abaixo toda e qualquer pesquisa que comprometesse o esquema montado entre empresas públicas, no filme, a Eletrobrás, e indústrias privadas que tinham participação nessas empresas. Se a tecnologia a ser desenvolvida, e que comprometesse o grande esquema, estivesse em Universidades fora do Centro-Sul do país, a artilharia apontada para os seus departamentos seria ainda mais pesada. Afinal, ao Nordeste apenas é autorizada a exportação de paus-de-arara, o que nada mais é do que a mesma lógica praticada pelos países centrais quando o Brasil "ousa" desenvolver tecnologia. No filme há dois Centros da UFPE que são focados: O de oceanografia e o de engenharia elétrica. Kleber mostra o quanto a Universidade é um ator presente e atuante na sociedade local. A oceanografia, na análise dos reiterados ataques de tubarões (em angulação com o realismo fantástico do anedotário local que tem a "Perna cabeluda" como síntese), e o de engenharia elétrica que, de tão avançado, está ameaçando os interesses e as fraudes da Eletrobrás e das empresas privadas ligadas a ela (uma metáfora dos tubarões). Mais adiante percebemos que, também, o Metrô de São Paulo integra essa promiscuidade entre o regime militar e o setor privado. Uma crítica à nossa herança social contagiada por regimes autoritários, atualizando ao avesso tragédias como a de Miguelzinho e a de sua mãe, Mirtes, entrecortado com o permanente elogio do diretor às salas de cinema de rua, fazem do Agente Secreto aquele filme que, mais do que estar em cartaz no Cine São Luís durante a exibição da narrativa, espiona-nos sem cessar enquanto se desenrola a nossa trama escatológica e críptica , cheia de sem respostas, portanto, ainda mal-dita.

sábado, 27 de setembro de 2025




Não se entra mais de uma vez no mesmo rio,

não se lê mais de uma vez o mesmo livro,

não se olha mais de uma vez com os mesmos olhos,

mas se ama mais de uma vez o mesmo amor.