domingo, 18 de janeiro de 2026

Jane Catulle Mendès

E como sói há de ocorrer, muitas das mulheres que protagonizam a história caem no total apagamento como é o caso da poeta e feminista francesa, JANE CATULLE MENDÈS, que, simplesmente, foi quem batizou o Rio de Janeiro com o epíteto de CIDADE MARAVILHOSA! Estou finalizando a leitura do livro de Rafael Sento Sé que faz esse resgate e estou deliciando-me a cada página! A brilhante e estonteante crítica dramatúrgica e poeta, Jane Catulle Mendès, foi uma espécie de Madame Bovary que deu certo, sendo ela, inclusive, amiga de Flaubert e de tantos outros que frequentavam o seu Salon em Paris, como Sarah Bernh
ardt, sua comadre. Uma vez, tragicamente, viúva, veio à América do Sul para uma turnê de Conferências, espécie de evento muito popular durante a Belle Époque. O projeto era o de aqui ficar por três semanas, que foram ao fim, multiplicadas por três. O livro nos transporta para a vida em uma cidade que havia há bem pouco tempo deixado o epíteto de "Túmulo dos Estrangeiros", em razão das recorrentes epidemias de febre amarela que massacravam a sua população e ceifava a vida de uma expressiva parte de seus visitantes, e começava a acender suas luzes. O giro Copérnico se dera com as reformas de Pereira Passos, o Haussmann dos trópicos e a sua política do "bota abaixo", que transformara a antiga Rio mortífera e insalubre em uma cidade reluzente com bulevares como a Avenida Central (posterior Rio Branco e na qual era proibido caminhar descalço) e prédios-monumento de arquitetura francesa tais como o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e o Palácio Monroe. É nessa reinaugurada Rio de Janeiro que a poeta feminista desembarca e se encanta. Além de ser uma crônica da sociedade carioca em inícios do século XX, o livro discorre a quantas andava o feminismo na França e no Brasil, ambos capitaneados por mulheres da alta sociedade. Jane Catulle Mendès era, também, jornalista em um jornal dirigido pela pioneira feminista, Marguerite Durand, "La Fronde" e em uma revista de nome "Femina", ambos geridos e escritos, exclusivamente, por mulheres. O autor fala da tentativa das intelectuais cariocas em fundarem uma revista nos mesmos moldes, e foi com grande alegria que li o parágrafo no qual ele informa que o projeto prosperara apenas no Recife com a revista, O Lyrio, dirigida por Amélia Beviláqua e por minha tia-bisavó, Edwiges de Sá Pereira. Pois bem, uma vez de volta à Paris, Jane Mendès passa a proferir uma série de conferências sobre a cultura e a literatura brasileira, irradiando nomes como os de Júlia Lopes de Almeida e Laurinda Santos Lobo, que se tornaram suas amigas, e os de Olavo Bilac e de Machado de Assis. Ato contínuo, publica um livro de poemas intitulado La Ville Marveilleuse: Rio de Janeiro. O livro foi dado à estampa em 1913, quase uma década antes que Olegário Mariano publicasse o seu livro de poemas "Cidade Maravilhosa" e duas décadas antes que fosse encenado o espetáculo musical "Cidade Maravilhosa" produzido por Aracy Côrtes. Mas, claro, que a origem do epíteto por ter sido conferido por uma mulher, culta e bela ainda por cima, passaria a ser invisibilizado. Em terras brasileiras, Jane Catulle Mendès, não se livrou de ser detratada por alguns homens proeminentes que seguiam a cartilha do jornalista de prestígio, Figueiredo Pimentel, que dizia, escrevia e publicava frases tal qual: "Apreciamos uma mulher instruída, mas não sábia, precieuse ridicule (bobinha); e temos horror às mulheres que escrevem, as bas -bleu". À cada difamação publicada contra a poeta, Jane Catulle Mendès, responderia com assertividade e elegância, não sem terminar o seu texto com um "que aceite os meus melhores cumprimentos". Estando no Rio de Janeiro, Jane Catulle Mendès, vociferava "Ah, terra boa! Resumo todas as minhas impressões nesta exclamação, que repito cem vezes por dia". Sobre a autoria do epíteto "Cidade Maravilhosa" conferida ao Rio de Janeiro por Jane Catulle Mendès, finalizaríamos, tomando de empréstimo as palavras da própria autora: "Eu vos peço, Monsieur, que restabeleça a verdade publicando a minha carta e que aceite os meus melhores cumprimentos".

domingo, 30 de novembro de 2025

Assisti ao filme O Agente Secreto mais uma vez, já que o filme é um verdadeiro puzzle e convoca-nos a sermos o próprio "agente secreto" a deslindar a narrativa. O que trago aqui contém spoiler, portanto, quem ainda não assistiu ao filme, não acompanhe essas impressões ou será confiscado do prazer de ser surpreendido. O que eu precisava entender melhor era a conexão entre a perna encontrada na barriga do tubarão e a lenda urbana da perna cabeluda. A princípio parece que são ambos apenas elementos fantásticos do anedotário local sem uma implicação direta com os crimes da ditadura, mas um olhar mais atento deixará claro que não o são. São elementos concatenados que esclarecem a trama. A perna encontrada na barriga do tubarão nada mais é do que a perna do estudante de agronomia, acusado de comunista e que estava desaparecido, segundo notícia de jornal comentada pelo delegado. Ocorre que foi o próprio delegado, alcunhado de "painho", e o grupo de policiais civis comandado por ele, que mataram o jovem universitário e jogaram-no ao mar, prática trivial tal como mostrada no filme. O que não contavam era que o tubarão comesse a perna do corpo da vítima, gerando, assim, ao menos, um pedaço do corpo de delito. Daí a preocupação dos policiais em irem ao IML e, através de suborno, trocarem a perna do estudante por uma pata de cabra. Ato contínuo lançaram a perna ao rio. A perna, por sua vez, foi parar nas margens do Capibaribe e, a partir desse evento, começaram os ataques da perna cabeluda, ou seja, os ataques das forças militares e policiais! Cada vez que se noticiava um ataque da perna cabeluda, na verdade, estava-se noticiando a morte ou o desaparecimento de alguém que estava sendo perseguido pelas forças de Estado, tal como ocorrera com o aluno de agronomia. Sendo o tubarão uma metáfora para essas forças predatórias. Não sem razão, o menino, filho do professor, era obcecado pelo tubarão, esse que devoraria tanto a sua mãe quanto o seu pai, já que ela também foi assassinada pelos predadores da ditadura. O cartaz do filme em inglês aqui postado ilustra bem essa percepção. E se o filho diz ter esquecido o pai, é na barriga do tubarão que ele trabalha (no prédio onde assistiu ao filme), devolvendo-lhe a vida através das transfusões de sangue.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sobre o filme O AGENTE SECRETO (Contém spoiler) Importante o diretor Kleber Mendonça Filho ter lançado um olhar sobre a ditadura em uma outra perspectiva: A da promiscuidade entre o setor público e o setor privado. E o quanto esse "player" empresarial estava implicado não apenas com a dinâmica do "milagre econômico", mas com as práticas de toda sorte de violências, incluindo assassinatos, durante os anos de chumbo, a fim de fazerem valer os seus interesses econômicos e financeiros. Nessa toada, ampliou o olhar sobre a perseguição às Universidades. Por detrás de uma "simples" caça a professores comunistas, poderia estar um projeto deliberado de colocar abaixo toda e qualquer pesquisa que comprometesse o esquema montado entre empresas públicas, no filme, a Eletrobrás, e indústrias privadas que tinham participação nessas empresas. Se a tecnologia a ser desenvolvida, e que comprometesse o grande esquema, estivesse em Universidades fora do Centro-Sul do país, a artilharia apontada para os seus departamentos seria ainda mais pesada. Afinal, ao Nordeste apenas é autorizada a exportação de paus-de-arara, o que nada mais é do que a mesma lógica praticada pelos países centrais quando o Brasil "ousa" desenvolver tecnologia. No filme há dois Centros da UFPE que são focados: O de oceanografia e o de engenharia elétrica. Kleber mostra o quanto a Universidade é um ator presente e atuante na sociedade local. A oceanografia, na análise dos reiterados ataques de tubarões (em angulação com o realismo fantástico do anedotário local que tem a "Perna cabeluda" como síntese), e o de engenharia elétrica que, de tão avançado, está ameaçando os interesses e as fraudes da Eletrobrás e das empresas privadas ligadas a ela (uma metáfora dos tubarões). Mais adiante percebemos que, também, o Metrô de São Paulo integra essa promiscuidade entre o regime militar e o setor privado. Uma crítica à nossa herança social contagiada por regimes autoritários, atualizando ao avesso tragédias como a de Miguelzinho e a de sua mãe, Mirtes, entrecortado com o permanente elogio do diretor às salas de cinema de rua, fazem do Agente Secreto aquele filme que, mais do que estar em cartaz no Cine São Luís durante a exibição da narrativa, espiona-nos sem cessar enquanto se desenrola a nossa trama escatológica e críptica , cheia de sem respostas, portanto, ainda mal-dita.

sábado, 27 de setembro de 2025




Não se entra mais de uma vez no mesmo rio,

não se lê mais de uma vez o mesmo livro,

não se olha mais de uma vez com os mesmos olhos,

mas se ama mais de uma vez o mesmo amor.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

 FRANÇOISE GILOT: A ÚNICA MUSA DE PICASSO QUE O ABANDONOU















Se a proverbial "inveja do pênis" revelada por Freud é ou não uma produção social, o certo é que a crença de que uma mulher apenas se constitui como sujeito e passa a ter uma identidade através do falo de um homem com o qual se relacione afetivamente tem integrado o processo de subjetivação feminina há milênios. Sem esse elo com o falo masculino, a cultura desde sempre vociferou: A mulher não existe. Assertiva em outro contexto sustentada por Lacan que acrescentou que a " a mulher já É toda um falo".

Vencidas essas preliminares psicanalíticas, vamos a Françoise Gilot, aquela que muitos conhecem através do sem-número de retratos pintados por seu amante e companheiro por 10 anos, Pablo Picasso. 

Gilot foi uma mulher fálica que se relacionou com um homem extremamente fálico e, provavelmente, por isso, não sucumbiu às faces medonhas do gênio. Se as demais mulheres do pintor, mesmo que enlouquecidas por suas perversões (algumas chegaram ao suicídio), a fim de se afirmarem como sujeitos por osmose, endossavam o discurso de que é melhor um romance trágico com um gênio, do que a paz com um homem medíocre (logo, menos fálico), esse não foi o caso de Françoise Gilot. 

Sendo 40 anos mais jovem do que seu amante perro y bruto com quem teve dois filhos, Paloma e Claude, ao conhecer Picasso e ser por ele assediada, Françoise era uma reconhecida pintora de aquarelas e ceramista, além de já ter duas graduações: Pela Sorbonne e pela Universidade de Cambridge. 

A vida com Picasso, que começou como uma fascinante relação de trocas e inspiração recíprocas, foi descambando para abusos e violências, como era o roteiro useiro e vezeiro de suas uniões, além de relegar o talento artístico de Françoise à uma sombra intransponível cujo peso maior era dado pelo egocentrismo do malaguenho.

 A fim de se salvar, Françoise o abandonou sem que antes ele tivesse destruído grande parte de suas telas e sem que depois, ele tivesse exigido que nenhuma  galeria expusesse os seus quadros. 

Mas, Françoise Gilot sobreviveu a Picasso. Em todos os sentidos. Na arte e na vida: Expôs, amou e teve outra filha. Tendo falecido aos 101 anos de idade.

terça-feira, 8 de julho de 2025

 OSKAR KOKOSCHKA E ALMA MAHLER: UM CASO DE BONEQUICÍDIO


Há algum tempo, discorri nesse espaço virtual,  o tórrido caso de amor entre Alma Mahler e Oskar Kokoschka. Mas, não narrei o seu desfecho. Os que se interessarem, convido-os a acompanharem-me.

A bela e talentosa Alma Mahler havia sido casada com o compositor Gustav Mahler. Este,  por sua vez, ao tê-la proibido de desenvolver seus dotes musicais, o que a levou a uma profunda depressão, recebeu em troca por sua opressão, o romance de sua mulher com Walter Gropius.

Nem Freud conseguiu salvar este casamento, tendo Gustav Mahler morrido de tristeza aos cuidados de Alma. Uma vez viúva, antes de vir a se casar com Gropius, Alma Mahler teve um caso incendiário com o pintor Oskar Kokoschka. Paixão que não resistiu à possessividade e arrebatamentos do artista. Ao separar-se do pintor, este alistou-se no exército austro-húngaro e partiu para a Primeira Guerra Mundial a fim de "esfriar a cabeça".

Tendo sobrevivido aos fronts de batalha, terminada a guerra, Kokoschka encontrou Alma Mahler já casada com Walter Gropius em Viena. Inconsolável, encomendou a confecção de uma boneca de mesma altura, tamanho e características da amante perdida. Com essa boneca, consolou-se por anos a fio.

Até que certo dia, nos primeiros raios de um sol que se enxeria, após uma noitada regada a muito vinho, barulho e outras substâncias, a vizinhança chamou a polícia por terem visto um corpo degolado e banhado em sangue no jardim de Kokoschka.

Sob os olhos atentos daqueles que espreitavam sobre o muro da casa do pintor, a polícia se aproximou e percebeu que o corpo ensanguentado sem cabeça era, na verdade, o de uma boneca encharcada em vinho. A boneca sem Alma de Kokoschka...

Loïe Fuller

 LOÏE FULLER: A BAILARINA DAS R(EVOLUÇÕES)


Essa bailarina americana que assim como Isadora Duncan, depois dela, transformou as artes cênicas e é aclamada como a bailarina da  Belle Époque, é, primacialmente, uma bailarina da Revolução Industrial. Ao trazer para o palco, canhões de luzes e espelhos, diríamos, inclusive, que Loïe Fuller seria uma precursora dos efeitos especiais na arte.


Li a sua autobiografia, assim como li a de Isadora Duncan e posso dizer sem fazer nenhuma concessão que foram das mais belas páginas que já li sobre a dança e o seu potencial de despertar encanto e fascínio.


Em 2016 foi lançado um filme francês sobre a vida de Loïe Fuller "La Danseuse", assisti-o recentemente, e mais do que uma decepção, o filme é um desrespeito à biografia da bailarina que foi escrita por ela própria, repito.


O filme é misógino, pois macula a feminilidade de Loie e as questões de gênero referentes às mulheres em todos os sentidos. 

Primeiro ao colocá-la como uma mocinha trivial que é alçada ao sucesso escalando o corpo de um homem sob os lençóis: Ora, não há homens como parceiros erótico-afetivos na vida da artista, uma vez que ela era, declaradamente, lésbica! Dedicando, inclusive, um capítulo de sua autobiografia à sua bem-amada, Gab. 

Segundo, por retratar a sua mãe como uma megera, quando em verdade, foi sua dedicada companheira pela vida inteira,  acompanhando-a em inúmeras turnês ao redor do mundo e morando com ela em Paris. Sendo que foi a morte da mãe que a deixou em um torpor tal que a fez deixar a dança e se dedicar à escrita.

O filme, que ganhou prêmios em Cannes, distorceu tanto a vida da artista que debates indignados sobre o tema foram promovidos por várias mídias na França.

Enfim, na narrativa de uma história discorrida por homens, ou se invisibiliza as mulheres de gênio ou se distorce radicalmente as suas histórias, desrespeitando-as .

Que as luzes bailantes de Loïe Fuller triunfem sobre esse insistente obscurantismo e continuem a lançar seus raios sobre nós!