Amanhe(seres)
Respirando (Ar)te. Por Andrea Almeida Campos.
sexta-feira, 13 de março de 2026
PAI CONTRA FILHA
O que Peixoto Gomide, que empresta o seu nome a uma das principais vias no entorno da avenida Paulista em São Paulo, tem a ver com o conto As Rosas (1903) de Júlia Lopes de Almeida e com o Romance A Emparedada da Rua Nova (1910) de Carneiro Vilela? Tem a ver que, assim como os protagonistas das duas fabulações, ele, que foi Senador e Presidente de São Paulo, assassinou a sua própria filha, Sophia Gomide, corria o ano de 1906. Assim como nas narrativas fictícias, o motivo era o mesmo: a não aceitação do eleito amoroso de sua filha. Assim como nas narrativas fictícias, a justificativa era a mesma: a defesa de um pai honrado diante da iminência de uma degradação familiar em razão de uma suposta má escolha de sua herdeira. No caso da Emparedada da Rua Nova, o pai, um abastado comerciante, ordena que a sua filha grávida seja emparedada viva em seu próprio quarto. No conto As Rosas, o pai, um jardineiro, assassina a sua filha, também, em sua própria casa, a tesouradas e facadas por ela insistir em viver com um homem bruto. Já no caso da vida real, o então Senador Peixoto Gomide não aceita o noivado da filha com um promotor de justiça e poeta, Manuel Baptista Cepelo. Rapaz de origem humilde que iniciou a vida como soldado, parnasiano, era um dos sonetistas preferidos de Olavo Bilac. Uma semana antes do casamento, na sala de estar de seu palacete, Peixoto Gomide desfere um tiro contra a testa de sua filha de 22 anos de idade que, imediatamente, tomba morta. Dirige-se à Biblioteca onde desfere outra bala, desta feita, contra a própria vida. E como nenhuma literatura alcança o enredo da vida, após a tragédia, descobriu-se que o noivo, que tivera todos os seus estudos jurídicos no Largo de São Francisco custeados por Gomide, seria filho bastardo de seu futuro sogro com uma escravizada. Oito anos após os crimes, em 1914, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou que uma das suas ruas centrais, fosse batizada com o nome do senador, já que o fato de ele ser um assassino fora apagado. Ou seja, a literatura dos anos 1910 estava totalmente conectada com o seu zeitgeist. E a literatura de qualquer tempo, com a misoginia. Dito isto, voltemos aos dias atuais. A CCJ da Câmara Municipal de São Paulo acaba de aprovar um projeto de lei cuja proposta é a mudança do nome da rua Peixoto Gomide, nome do pai assassino, para rua Sophia Gomide, nome da filha assassinada. O Projeto ainda precisa passar por votação no plenário da Casa e integra uma proposta de política pública de maior abrangência que é aquela que propõe modificar o nome de todos os logradouros que homenageiem feminicidas. Dito isto, você pode ter curiosidade em saber o que aconteceu com o desafortunado noivo de Sophia. Emergiu de seu sonho feito em sangue, abandonou a promotoria e foi viver no Rio de Janeiro. Desconsolado e na penúria, vendeu todos os seus livros, batendo de porta em porta. Em 1909, seu corpo foi encontrado caído em uma pedreira. Uns dizem ter tropeçado, outros, que teria atentado contra a própria existência. Se a vida é um texto, o peso da leitura dos capítulos que lhe coube, foi-lhe insuportável...
Que, das ruas, mudem-se as placas!
PARA O ANIVERSÁRIO DE OLINDA E RECIFE (12/03):
Uma homenagem à primeira Governante das Américas: Dona Brites de Albuquerque
Em 1553, 18 anos após a chegada do casal, Duarte Coelho e Brites de Albuquerque à Capitania de Pernambuco, o Donatário retorna a Portugal com seus dois filhos mais velhos. Brites dera à luz, também, um natimorto e uma menina. Em razão dessa viagem,
assumiu, por primeira vez, a regência do governo pernambucano. Com a morte do marido no ano seguinte e sendo os seus filhos ainda menores, em 1554, Brites passa a ser a governante da Capitania, sendo alcunhada de “Capitoa”. Toma para si, portanto, todas as atribuições concernentes a este título pelos próximos seis anos. Durante este período, os seus filhos permaneceram estudando em Portugal. Tendo o mais velho atingido a maioridade em 1560, ambos retornam a Pernambuco para que o primogênito assuma as funções de Capitão Hereditário, o que o fará até o ano de
1572. Neste ano, ele e o seu irmão retornam a Portugal, convocados pela Coroa para que sejam incorporados à armada do rei Dom Sebastião que se alteia sobre o Marrocos. Sendo ambos mortos na Batalha de Alcácer-Quibir em 1578. Dona Brites, que havia ficado como Regente, passa a ser a governante definitiva da Capitania até a sua morte em 1584. Portanto, Dona Brites, não apenas viveu mais tempo em Pernambuco do que o seu consorte, o festejado Duarte Coelho, tendo nessas terras respirado por 50 anos, enquanto Coelho, por apenas 18, como também foi governante da capitania por um mais longo arco temporal. Durante o seu governo, Brites manteve a ordem e a paz na capitania, combatendo, com serenidade, as insurreições indígenas e fazendo alianças com os povos originários, reais donos da terra. Legislou sobre as mais diversas matérias de interesse dos colonos. Foi uma exímia planejadora urbana, construindo e urbanizando o núcleo de Olinda. E mais: preparou Pernambuco para que fosse a mais próspera Capitania do Brasil no século XVII, quando, então, passou a concentrar a maior produção açucareira mundial. Brites, desde que pôs os pés em terras pernambucanas, aos 17 anos, nunca mais retornou a Portugal. Seus restos mortais estão sepultados na cidade que governou e para sempre amou: Olinda. Cidade que, infelizmente, assim como o estado de Pernambuco, a esqueceu.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Júlia Lopes de Almeida e Edwiges de Sá Pereira
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA e EDWIGES DE SÁ PEREIRA : DUAS VOZES ATIVAS NA BELLE ÉPOQUE BRASILEIRA
Não há um só dia, nesse mês de fevereiro, no qual eu não leia, ao menos, três crônicas da robusta produção da escritora Júlia Lopes de Almeida para o jornal carioca O Paiz entre 1908 e 1912. É um deleite deparar-se com o inesperado dos temas tratados pela jornalista, uma cronista urbana que longe de escrever sobre os temas permitidos para as mulheres de seu tempo tais quais os afazeres domésticos, os sonhos românticos de moçoilas casadoiras, as modas e as rezas, falava sobre políticas públicas na educação e na saúde, transporte urbano, violência policial, arborização, feminicídio, criminalidade e exclusão social. E, claro, sobre música, dramaturgia, livros e as artes em geral. Nas crônicas de Júlia assomam-se pouco a pouco os problemas com os quais o Brasil pós-monarquia e pós-escravidão teve que lidar até hoje e que só recrudesceram. Uma verdadeira ontologia do presente, enfim. Imaginem, então, a minha alegria em ser surpreendida, até agora, por duas vezes, nas citações que a autora faz sobre a minha tia-bisavó Edwiges de Sá Pereira! Tia Edwiges, à época, com 26 anos de idade, já era professora da Escola Normal e, como também jornalista, assinava uma coluna semanal no Jornal Pequeno do Recife na qual debatia os desafios de seu tempo. O que me regozija profundamente é como essas duas mulheres em inícios do século XX, quando sequer havia sido promulgado o nosso primeiro Código Civil e que, após casadas, não podiam nem trabalhar, nem abrir uma conta bancária, nem prestar uma queixa na delegacia sem a autorização de seus maridos, estavam tão ativas no espaço público e discutindo sobre os problemas e os negócios públicos!
Em tempos nos quais as notícias não eram veiculadas instantaneamente, as jornalistas e intelectuais liam-se e reverberavam os reclames umas das outras. E viajavam muito! Júlia Lopes, carioca, era casada com um português de mentalidade emancipada e rodava o mundo. Já tia Edwiges, pernambucana, que vivia deslizando pelos mares do sul com seus trabalhos e pesquisas nunca se casou. Compreende-se.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
A REVOLTA DA CHIBATA
"GLÓRIA A TODAS AS LUTAS INGLÓRIAS QUE ATRAVÉS DA NOSSA HISTÓRIA NÃO ESQUECEMOS JAMAIS..."
Ler as crônicas de Júlia Lopes de Almeida é quase como estemunhar fatos pulsantes da história do Brasil em tempo real. Acontecimentos que abalaram a incipiente e trepidante República brasileira no alvorecer do século XX e que desafiaram, não apenas as instituições, mas a paz nacional. Se uma boa parte das rupturas na formação do país foram concertadas pelas elites, seja a independência, seja a abolição da escravatura, seja o golpe militar que levou à proclamação da República, a chamada REVOLTA da CHIBATA de 1910, um movimento de marinheiros, em sua franca maioria, pretos e pardos, liderados pelo, também marinheiro, João Cândido, desmentiu o que ainda se podia acreditar acerca da docilidade e conformismo dos negros brasileiros. Sabemos que a Lei Áurea aboliu a condição jurídica de escravizados, alçando os libertos ao status de pessoas, no entanto, muito pouco ou quase nada aboliu em torno da exclusão social e das práticas de violência infringidas ao povo negro. Os marinheiros integrantes das Forças Armadas, de maioria negra, como o dissemos, rebelaram-se contra os castigos cruéis que sofriam de seus superiores brancos nos mesmos moldes daqueles de quando eram escravizados: Sendo chicoteados publicamente aos olhos de seus companheiros. Para exigirem o fim das iniquidades, posicionaram os três, então, mais modernos navios de guerra brasileiros com os seus canhões voltados para a Baía da Guanabara e ameaçaram reduzir a cidade do Rio de Janeiro a pó. Durante três dias, a capital federal esteve conflagrada e houve confronto e houve desespero e houve mortes.Até que o líder da rebelião, que viria a ser alcunhado de "Almirante Negro", foi preso e logo após, a fim de evitar-se uma escalada bélica incontornável, anistiado junto aos demais amotinados. Ademais, foram extintos os castigos corporais. Foi essa a estratégia do parlamento e do Presidente da República, à época, Hermes da Fonseca. No entanto, a anistia era uma farsa, pois, um sem número de revoltosos foi assassinado ou enviado para trabalhos forçados no cultivo de borracha no Norte do país. Sendo que, desses últimos, muitos foram lançados ao mar, não chegando aos seus destinos. Barbáries que se perpetuam, que atrasaram e atrasam o Brasil a chegar ao seu destino de, finalmente, ser uma Nação...
O Caso de Rute: Conto de Júlia Lopes de Almeida
OS CONTOS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA E O ESTUPRO INCESTUOSO DE VULNERÁVEIS
Mais do que falar sobre uma literatura de mulheres é urgente falar sobre qual literatura é "permitida" às mulheres. Uma literatura autorizada não apenas como leitura, mas, sobretudo, enquanto escrita. Afinal, sobre o que pode falar, pesquisar e escrever as mulheres? Os tabus e interdições se baseiam em, para além de uma aventada manutenção de pureza, pudor e inocência femininas, na preservação de um espaço de taras e perversões masculinas no qual os homens, historicamente, tiveram o controle sobre os corpos das mulheres e exerceram seus poderes. Ousar discorrer, analisar e dissecar assédios e abusos sexuais, penetrando nesses espaços, é desafiar a perpetuação das desigualdades, das violências e da masculinidade hegemônica. Em tempos de relatórios Epstein e de tribunais cujas decisões em casos de estupro fazem Têmis arrancar a venda de seus olhos, indago-me sobre o quanto as mulheres, que são as maiores vítimas desses crimes e disparates, estiveram permitidas a não apenas relatarem, mas fabularem em torno dessas agressões, simbolizando-as literariamente. Em fins do século XIX e inícios do séc. XX, enquanto Machado de Assis em Dom Casmurro, lançava a pergunta irrespondível sobre se Capitu traíra ou não Bentinho, Júlia Lopes de Almeida em seu conto "O Caso de Rute", narrava sobre uma menina-moça que fora reiteradamente estuprada por seu padrasto, tinha ela 15 anos de idade. No dilema de contar ou não o fato ao seu noivo, ela o faz, suicidando-se pouco tempo depois: "Rute… balbuciou Eduardo. Mas a moça interrompeu-o com um gesto e disse-lhe logo, com voz segura e firme: "-Minha avó mentiu-lhe".O noivo recuou, num movimento de surpresa; foi ela quem se aproximou dele, com esforço arrogante e doloroso, deslumbrando-o com o fulgor dos seus olhos belíssimos, bafejando-lhe as faces com o seu hálito ardente."- Eu não sou pura! Amo-o muito para o enganar. Eu não sou pura! - Foi há oito anos. Meu padrasto era um homem bonito, forte; e eu, uma criança inocente... Dominava-me. No fim de quatro meses de uma vida de luxúria infernal, ele morreu, e foi ainda aqui, nesta sala".
Não se trata, portanto, de apenas, e o que já é aviltante, perpetuar as práticas da exploração sexual e destruição das vidas das mulheres, mas de manter o monopólio dos discursos, quer sejam leigos, jornalísticos, jurídicos ou literários acerca dessas práticas. Ou seja, não é de surpreender que escritoras como Júlia Lopes de Almeida tenham sido, deliberadamente, apagadas da história da literatura e do jornalismo brasileiros.
100 Anos do Manifesto Regionalista do Nordeste
100 ANOS DO MANIFESTO REGIONALISTA DO NORDESTE
Em meio a recente miríade de produções e manifestações culturais nordestinas abraçando e encantando o mundo, vamos nos lembrar que neste ano de 2026, comemoram-se os 100 anos do Manifesto Regionalista do Nordeste, o primeiro das Américas e que ocorreu durante três dias no salão nobre da Faculdade de Direito do Recife em fevereiro de 1926. O movimento, que integra o modernismo brasileiro, foi capitaneado por Gilberto Freyre e, longe de ser uma oposição à Semana de Arte Moderna de 1922, tinha a proposta de reafirmar a centralidade da cultura regional nordestina em articulação com as demais culturas regionais brasileiras. Propunha-se um modelo cultural nos moldes dos movimentos aos quais os filósofos franceses Deleuze e Guattari vieram, posteriormente, a nomear de rizomáticos: que conectam elementos diferentes e não hierárquicos.
Ao invés desses embates autofágicos por hegemonia, a Nação Brasil apenas triunfará para o mundo quando cada um dos nossos centros, de mãos dadas uns com os outros, transbordarem em todas as suas expressões de criatividade e potência.
Celebremos com mais produção e com mais cultura!
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