Amanhe(seres)
Respirando (Ar)te. Por Andrea Almeida Campos.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
O que ISAÍAS CAMINHA, o protagonista do romance de estreia de Lima Barreto, e DONA BÊJA têm em comum?
Têm em comum as suas íntimas e familiares relações com um Padre: Isaías era filho do Vigário, enquanto que a verdadeira Dona Bêja, Ana Jacinta de São José, foi por anos amasiada, também com um Vigário,o Padre Francisco José da Silva, pai de sua primeira filha, Thereza Thomazia da Silva, tudo como consta em documentos de 1819, quando o Padre, ele mesmo, batizou a sua filha, por ele posteriormente reconhecida, na Paróquia de Araxá. Na ocasião, foi madrinha da filha do Padre, a própria mãe do Padre. Portanto, não há o que se falar em Antônio Sampaio, pretenso grande amor da vida de Bêja, pois que é um personagem puramente fictício: a bela dona Bêja serviu seus dotes, anos a fio, a um Padre. Um homem poderoso, fazendeiro, político e proprietário de terras. Havendo, comprovadamente, um corredor secreto fazendo ligação entre o seu sobrado e a sacristia.
E isso que a dramaturgia não quer mostrar, Lima Barreto o faz magistralmente, com a sua pena. Sem arroubos, sem críticas, sem escândalo e sem surpresa. Tudo é natural e fluido como a correnteza das águas. E mais, a mãe de Isaías Caminha, a mulher do Padre no romance, era uma ex-escravizada. O que ocorre é que era muito comum no Brasil colônia, mais ainda nos sertões, Padres casados e com família constituída. Já havia sete séculos que o Concílio de Latrão havia instituído o celibato clerical, mas essas ordens do Vaticano chegavam às nossas paragens a passos de cágado.
Além de formarem família, os padres ocupavam cargos políticos. Um outro caso real e famoso no século XIX, foi o do Padre da cidade de Sousa na Paraíba, José Antônio Marques da Silva Guimarães, que iniciou a sua vida santa na Igreja, raptando, em um lombo de burro, uma distinta moça de abastada família recifense: Maria da Conceição Gomes Mariz. Viveram felizes para sempre em meio às liturgias eclesiásticas e atividades políticas em Sousa, onde o Padre foi deputado provincial por vários mandatos, Presidente da Assembleia e Prefeito, enquanto fazia na esposa legítima, 14 filhos.
São bisnetos do Padre José Antônio, os irmãos Agripino e Tarcísio Maia, ambos ex- Governadores e o primeiro , também, Senador pelo Rio Grande do Norte. Infelizmente, Isaías Caminha, o filho negro do Padre no romance de Lima Barreto, aquele cujo "suplício onímodo era a sua cor", não alcançou as mesmas Glórias...
Quando LIMA BARRETO encontrou FRIEDRICH NIETZSCHE
A história do movimento das ideias no Brasil ainda não foi contada. Não falo da recepção das ideias, mas de contágio, tráfico, regurgitação. Friedrich Nietzsche, o filósofo que exerceu maior influência sobre o pensamento ocidental no século XX, de Heidegger a Foucault, do modernismo ao pós-estruturalismo, apenas foi publicado em português, no Brasil, na década de 1930. No entanto o seu pensamento já era discutido e a sua obra citada, ainda que por um restrito grupo de intelectuais (afinal, para lê-lo e interpretá-lo, havia que se bem transitar na língua alemã) desde a década de 1870 quando o próprio Nietzsche ainda era um jovem Nietzsche aos seus 30 anos de idade. E não é difícil adivinhar que a porta de entrada de Nietzsche ao Brasil foi a Escola do Recife, pelas mãos de Tobias Barreto que o citou em seus trabalhos em 1876.
Pois bem, na leitura do incontornável Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, não apenas o autor cita Tobias Barreto, como, de quando em quando fala em um denodado "super-homem". Na primeira vez que deparei-me com o termo no texto, pensei ser uma mera coincidência, que essa concepção do "super-homem" deveria ter sido corriqueira no alvorecer do século XX. No entanto, ao avançar um punhado de páginas, se havia alguma dúvida, Lima dirimiu-as todas. Nietzsche e a sua obra Assim Falou Zaratustra são citados com todas as letras, assim como a noção do seu "super-homem". Sim, Lima Barreto era um dos poucos leitores de Nietzsche no Brasil nos anos 1900, provavelmente, lia-o em francês. E ao fazer essa constatação podemos ver o quanto a sua obra está atravessada pelo niilismo Nietzschiano e por uma crítica cultural e institucional sem peias...
Lima, Policarpo, Clara, Isaías, juntos na busca de uma identidade nacional, Além do Bem e do Mal...
Qual a principal razão pela qual JESUS CRISTO era tão odiado? Porque era, incondicionalmente, BOM.
Os seres humanos, atravessados por suas misérias emocionais, aprendidas e cultivadas durante as suas vidas, em interação com os seus caracteres, tendem a simpatizar com aqueles com quem se irmanem em egoísmo, cupidez, maldade, inveja e perversidade. A simpatia será proporcional ao quanto esses afetos atravessem cada um de nós. Afetos que são forjados, sobretudo, nos complexos de inferioridade.
O psicanalista austríaco Wilhelm Reich no seu livro "O Assassinato de Cristo", sustenta que Jesus foi assassinado porque amava demais. E esse excesso de amor era insuportável para aqueles que não tinham capacidade de amar, encalacrados em suas misérias afetivas e em seus sentimentos de inferioridade. A essa percepção de Reich, eu peço licença para acrescentar mais uma outra: Jesus foi assassinado por ser, incondicionalmente, bom. E ser bom é o maior marcador de superioridade de um ser humano.
A bondade de Jesus era tão genuína e tanta que seus contemporâneos, ressentidos em suas mesquinharias que só se dilatavam em sombras diante de tanta luz, assassinaram-no. Porque há poder em ser bom e só pode ser bom quem tem poder. E em se tratando da verdadeira bondade, poder de caráter. Sim, porque há quem não seja intrinsecamente bom, mas age como se o fora, e isso não é reprovável, tratando-se de uma pedagogia da bondade. E a bondade, também é um marcador social: Não à toa, é caracterizada como um sentimento "nobre". Nobre, literalmente, já que os bons são tidos como oriundos da nobreza e isso desde os gregos.
Em se tratando da bondade cultivada no seio da nobreza real, poderíamos citar o caso da nossa Imperatriz Leopoldina, da Casa dos Habsburgos. Casa que se esmerava para que as suas princesas e rainhas se engrandecessem nas virtudes da bondade e da caridade, marcando-se, assim, as suas superioridades em face de seus súditos. Leopoldina integrava a Ordem da Cruz Estrelada, uma ordem religiosa católica de restrito acesso, na qual eram admitidas apenas princesas, condessas e rainhas. Logo, praticar a bondade seria de poucos, um privilégio, de modo a, através dela, virem a exercer poder. E mais, restringindo-se a essa espécie de bondade, não promover mobilidade social.
Mas, deixemos os Habsburgos em seus palácios e voltemos aos pretensos soberanos, arautos da bondade da nobreza capitalista moderna, para a Casa Branca, mais especificamente.
Há alguns dias o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em disputa de Poder com o Papa Leão XIV, forjou por IA uma ilustração na qual se representava como Jesus Cristo. O intuito era afirmar ser superior e ter mais poder que o Papa, já que, como Cristo, ele seria, incondicionalmente e, absolutamente, bom. E por sê-lo, o mais poderoso dentre os poderosos. Criticado pela profanação, defendeu-se, afirmando o cerne de sua intenção: A de que não era Cristo, mas que, como ele, era bom e tal um médico, detinha o poder da cura.
Trump, como tantos outros, igrejas e religiões, instrumentalizam a bondade de Cristo para, em seu nome, exercerem Poder. E, do alto de suas maldades e sentimentos de inferioridade, serem os senhores das perseguições e das guerras, estranhos a qualquer bondade, continuando a odiá-Lo e a assassiná-Lo a cada dia.
sábado, 21 de março de 2026
BREVE SOCIOLOGIA DO FUTEBOL PERNAMBUCANO
E pensar que na virada do século XIX para o século XX, no Brasil não havia samba, nem frevo e nem futebol. Ou seja, três dos nossos maiores patrimônios imateriais, que forjam a nossa identidade, nasceram em terras pátrias junto à modernidade trazidos, a meu ver, por duas fundações primordiais: o fim da escravidão e a revolução industrial.
Portanto, o carnaval e o futebol como os vivenciamos hoje, são filhos do capitalismo industrial instaurado e capitaneado pelos ingleses. Por sua vez, a história do futebol pernambucano traz as digitais da presença das multinacionais inglesas e da sua comunidade no Recife nos albores do século XX, assim como, das reformas urbanas encetadas na cidade nos moldes de Hausssmann em Paris (cujo disparador foi a emulação da modernidade londrina) e de Pereira Passos no Rio de Janeiro, aqui inauguradas com Martins de Barros.
Os primeiros Campos de foot-ball, esporte de origem inglesa como o cricket que aqui não fez muita figura, ficavam no British Club e no Derby. Os times que eram compostos por funcionários britânicos das empresas inglesas como a Great Western e levavam os seus nomes, realizavam os seus "matches" amistosos nesses espaços. Era um esporte da alta elite alienígena, portanto.
Foi quando os filhos da elite da terra que passaram a estudar em Londres, a exemplo de Guilherme Fonseca, ao retornarem, encantados com a nova modalidade desportiva, esforçaram-se por introduzi-la localmente para um maior espectro social.
A primeira tentativa foi a de Fonseca junto ao Náutico, um clube de remo e de elite que não esposou a ideia de adotar o foot-ball como um dos seus esportes de terra. Foi aí que nasceu o Sport Club do Recife em 1905, o primeiro time pernambucano, também originário das elites, já que fundado por Guilherme Fonseca e um grupo de amigos, dentre eles, o prestigiado escritor, Mário Sette. Fiéis às origens do foot-ball, foi adotado o nome para o clube em inglês.
Uma vez que atletas do Náutico estavam indo jogar futebol no Sport, o clube, ainda que continuasse a priorizar os esportes fluviais, houve por bem ter a sua própria equipe de foot-ball em 1909. Iniciando-se aí, a histórica rivalidade entre ambos.
Enquanto isso, durante as reformas urbanas, com o bota abaixo e a expulsão da população mais humilde do centro para as periferias, dado que, para a prática desse esporte não era necessário um grande aporte de recursos como nos casos do remo e do turfe, esse contingente passou a organizar as suas equipes suburbanas, integradas, exclusivamente, por gente da gente, brasileira, pernambucana.
Foi o caso do Santa Cruz Futebol Clube, criado em 1914 por jovens que se reuniam no pátio da Igreja do mesmo nome para conversar sobre as partidas (os matches) e jogar futebol.
O primeiro campeonato pernambucano, cujo vencedor foi o extinto Flamengo do Recife, ocorreria em 1915 com seis equipes, após várias tentativas frustradas de se fundar uma liga de futebol pernambucana. E sem a participação do Náutico e do Sport que apenas em 1916, viriam a se "misturar" com os demais times.
sexta-feira, 13 de março de 2026
PAI CONTRA FILHA
O que Peixoto Gomide, que empresta o seu nome a uma das principais vias no entorno da avenida Paulista em São Paulo, tem a ver com o conto As Rosas (1903) de Júlia Lopes de Almeida e com o Romance A Emparedada da Rua Nova (1910) de Carneiro Vilela? Tem a ver que, assim como os protagonistas das duas fabulações, ele, que foi Senador e Presidente de São Paulo, assassinou a sua própria filha, Sophia Gomide, corria o ano de 1906. Assim como nas narrativas fictícias, o motivo era o mesmo: a não aceitação do eleito amoroso de sua filha. Assim como nas narrativas fictícias, a justificativa era a mesma: a defesa de um pai honrado diante da iminência de uma degradação familiar em razão de uma suposta má escolha de sua herdeira. No caso da Emparedada da Rua Nova, o pai, um abastado comerciante, ordena que a sua filha grávida seja emparedada viva em seu próprio quarto. No conto As Rosas, o pai, um jardineiro, assassina a sua filha, também, em sua própria casa, a tesouradas e facadas por ela insistir em viver com um homem bruto. Já no caso da vida real, o então Senador Peixoto Gomide não aceita o noivado da filha com um promotor de justiça e poeta, Manuel Baptista Cepelo. Rapaz de origem humilde que iniciou a vida como soldado, parnasiano, era um dos sonetistas preferidos de Olavo Bilac. Uma semana antes do casamento, na sala de estar de seu palacete, Peixoto Gomide desfere um tiro contra a testa de sua filha de 22 anos de idade que, imediatamente, tomba morta. Dirige-se à Biblioteca onde desfere outra bala, desta feita, contra a própria vida. E como nenhuma literatura alcança o enredo da vida, após a tragédia, descobriu-se que o noivo, que tivera todos os seus estudos jurídicos no Largo de São Francisco custeados por Gomide, seria filho bastardo de seu futuro sogro com uma escravizada. Oito anos após os crimes, em 1914, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou que uma das suas ruas centrais, fosse batizada com o nome do senador, já que o fato de ele ser um assassino fora apagado. Ou seja, a literatura dos anos 1910 estava totalmente conectada com o seu zeitgeist. E a literatura de qualquer tempo, com a misoginia. Dito isto, voltemos aos dias atuais. A CCJ da Câmara Municipal de São Paulo acaba de aprovar um projeto de lei cuja proposta é a mudança do nome da rua Peixoto Gomide, nome do pai assassino, para rua Sophia Gomide, nome da filha assassinada. O Projeto ainda precisa passar por votação no plenário da Casa e integra uma proposta de política pública de maior abrangência que é aquela que propõe modificar o nome de todos os logradouros que homenageiem feminicidas. Dito isto, você pode ter curiosidade em saber o que aconteceu com o desafortunado noivo de Sophia. Emergiu de seu sonho feito em sangue, abandonou a promotoria e foi viver no Rio de Janeiro. Desconsolado e na penúria, vendeu todos os seus livros, batendo de porta em porta. Em 1909, seu corpo foi encontrado caído em uma pedreira. Uns dizem ter tropeçado, outros, que teria atentado contra a própria existência. Se a vida é um texto, o peso da leitura dos capítulos que lhe coube, foi-lhe insuportável...
Que, das ruas, mudem-se as placas!
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