sexta-feira, 13 de março de 2026

PAI CONTRA FILHA O que Peixoto Gomide, que empresta o seu nome a uma das principais vias no entorno da avenida Paulista em São Paulo, tem a ver com o conto As Rosas (1903) de Júlia Lopes de Almeida e com o Romance A Emparedada da Rua Nova (1910) de Carneiro Vilela? Tem a ver que, assim como os protagonistas das duas fabulações, ele, que foi Senador e Presidente de São Paulo, assassinou a sua própria filha, Sophia Gomide, corria o ano de 1906. Assim como nas narrativas fictícias, o motivo era o mesmo: a não aceitação do eleito amoroso de sua filha. Assim como nas narrativas fictícias, a justificativa era a mesma: a defesa de um pai honrado diante da iminência de uma degradação familiar em razão de uma suposta má escolha de sua herdeira. No caso da Emparedada da Rua Nova, o pai, um abastado comerciante, ordena que a sua filha grávida seja emparedada viva em seu próprio quarto. No conto As Rosas, o pai, um jardineiro, assassina a sua filha, também, em sua própria casa, a tesouradas e facadas por ela insistir em viver com um homem bruto. Já no caso da vida real, o então Senador Peixoto Gomide não aceita o noivado da filha com um promotor de justiça e poeta, Manuel Baptista Cepelo. Rapaz de origem humilde que iniciou a vida como soldado, parnasiano, era um dos sonetistas preferidos de Olavo Bilac. Uma semana antes do casamento, na sala de estar de seu palacete, Peixoto Gomide desfere um tiro contra a testa de sua filha de 22 anos de idade que, imediatamente, tomba morta. Dirige-se à Biblioteca onde desfere outra bala, desta feita, contra a própria vida. E como nenhuma literatura alcança o enredo da vida, após a tragédia, descobriu-se que o noivo, que tivera todos os seus estudos jurídicos no Largo de São Francisco custeados por Gomide, seria filho bastardo de seu futuro sogro com uma escravizada. Oito anos após os crimes, em 1914, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou que uma das suas ruas centrais, fosse batizada com o nome do senador, já que o fato de ele ser um assassino fora apagado. Ou seja, a literatura dos anos 1910 estava totalmente conectada com o seu zeitgeist. E a literatura de qualquer tempo, com a misoginia. Dito isto, voltemos aos dias atuais. A CCJ da Câmara Municipal de São Paulo acaba de aprovar um projeto de lei cuja proposta é a mudança do nome da rua Peixoto Gomide, nome do pai assassino, para rua Sophia Gomide, nome da filha assassinada. O Projeto ainda precisa passar por votação no plenário da Casa e integra uma proposta de política pública de maior abrangência que é aquela que propõe modificar o nome de todos os logradouros que homenageiem feminicidas. Dito isto, você pode ter curiosidade em saber o que aconteceu com o desafortunado noivo de Sophia. Emergiu de seu sonho feito em sangue, abandonou a promotoria e foi viver no Rio de Janeiro. Desconsolado e na penúria, vendeu todos os seus livros, batendo de porta em porta. Em 1909, seu corpo foi encontrado caído em uma pedreira. Uns dizem ter tropeçado, outros, que teria atentado contra a própria existência. Se a vida é um texto, o peso da leitura dos capítulos que lhe coube, foi-lhe insuportável... Que, das ruas, mudem-se as placas!
PARA O ANIVERSÁRIO DE OLINDA E RECIFE (12/03): Uma homenagem à primeira Governante das Américas: Dona Brites de Albuquerque Em 1553, 18 anos após a chegada do casal, Duarte Coelho e Brites de Albuquerque à Capitania de Pernambuco, o Donatário retorna a Portugal com seus dois filhos mais velhos. Brites dera à luz, também, um natimorto e uma menina. Em razão dessa viagem, assumiu, por primeira vez, a regência do governo pernambucano. Com a morte do marido no ano seguinte e sendo os seus filhos ainda menores, em 1554, Brites passa a ser a governante da Capitania, sendo alcunhada de “Capitoa”. Toma para si, portanto, todas as atribuições concernentes a este título pelos próximos seis anos. Durante este período, os seus filhos permaneceram estudando em Portugal. Tendo o mais velho atingido a maioridade em 1560, ambos retornam a Pernambuco para que o primogênito assuma as funções de Capitão Hereditário, o que o fará até o ano de 1572. Neste ano, ele e o seu irmão retornam a Portugal, convocados pela Coroa para que sejam incorporados à armada do rei Dom Sebastião que se alteia sobre o Marrocos. Sendo ambos mortos na Batalha de Alcácer-Quibir em 1578. Dona Brites, que havia ficado como Regente, passa a ser a governante definitiva da Capitania até a sua morte em 1584. Portanto, Dona Brites, não apenas viveu mais tempo em Pernambuco do que o seu consorte, o festejado Duarte Coelho, tendo nessas terras respirado por 50 anos, enquanto Coelho, por apenas 18, como também foi governante da capitania por um mais longo arco temporal. Durante o seu governo, Brites manteve a ordem e a paz na capitania, combatendo, com serenidade, as insurreições indígenas e fazendo alianças com os povos originários, reais donos da terra. Legislou sobre as mais diversas matérias de interesse dos colonos. Foi uma exímia planejadora urbana, construindo e urbanizando o núcleo de Olinda. E mais: preparou Pernambuco para que fosse a mais próspera Capitania do Brasil no século XVII, quando, então, passou a concentrar a maior produção açucareira mundial. Brites, desde que pôs os pés em terras pernambucanas, aos 17 anos, nunca mais retornou a Portugal. Seus restos mortais estão sepultados na cidade que governou e para sempre amou: Olinda. Cidade que, infelizmente, assim como o estado de Pernambuco, a esqueceu.