sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Samba Redentor

No feriado momesco terminei, com saudades, de ler as crônicas de Júlia Lopes de Almeida. Com saudades porque ler esses textos é sentir como se estivesse testemunhando os fatos por ela relatados em tempo real. Fechar as suas 400 páginas é viver a experiência de uma viagem instantânea de volta a 114 anos no futuro. Ainda discorrerei bastante sobre o precioso conteúdo dessas páginas, inclusive, sobre a força desse gênero literário que nos transpõe, como nenhum outro, ao tempo de sua narrativa, haja vista a sua própria etimologia. E como estamos ainda nos estertores do carnaval, um tema abordado recorrentemente por Júlia é a profunda tristeza e "ingênita melancolia" do povo brasileiro, que faz de nós "um povo de suicidas" e feminicidas "meninos que matam as namoradas com ferocidade e escândalo". Para Júlia, essa melancolia é uma herança das "angustiosas senzalas africanas, tristes até quando dançam em seus soturnos batuques". Uma herança do escravagismo, enfim. Em uma outra crônica de 1910, a autora aduz que para forçar o carioca a rir "é preciso inventar um novo gênero de cócegas". E ouso dizer que esse gênero surgiria pra toda a luz e seria gravado em fonograma 6 anos depois, em 1916, por um artista de nome, Donga, e que se chamava "samba". O samba ou "semba" que nasceu nas rodas de batuque nas senzalas das fazendas na Bahia e que, para além de uma dança, era um culto sagrado. O samba que foi trazido pelos negros libertos após a abolição, para a então capital federal, mas que foi nela perseguido e proibido, sendo tocado e dançado, estritamente, nos terreiros sob a proteção das tias baianas. O samba que era choro e era lamento e que apesar do sofrimento do povo negro, uma vez conquistada a liberdade, desabrochou em riso. O samba que, finalmente, deixou de ser motivo de prisão e passou a ser caminho para a consagração com os desfiles das primeiras escolas já na década de 1930. O samba das favelas que foi pra Hollywood com Ary Barroso e Carmen Miranda nos anos 40, que se tornou bossa nova capitaneada por Tom Jobim nos anos 50 e que foi a base para uma sofisticada MPB a partir dos anos 60. O samba, esse "novo gênero de cócegas", nascido da dor das senzalas, cuja vingança foi transformar o povo brasileiro em um largo sorriso pra o mundo. Curiosidades: O samba deixou de ser caso de polícia, sendo descriminalizado, em inícios da década de 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Vargas, no afã de implementar políticas nacionalistas e forjar uma identidade para a Nação, estimulou e apoiou que o samba, de crime de vadiagem, passasse a ser uma expressão da cultura popular. Vargas, então, regulamentou as Escolas de Samba e apoiou os seus primeiros desfiles. A oficialização do samba era, também, uma forma de colocá-lo, para além da tutela, sob o controle estatal. Algumas outras curiosidades: Além de ser proibido por Lei e reprimido pela polícia, o samba sofria forte preconceito das classes médias por todo o Brasil. Em Recife, essa intolerância passou a ser amainada quando Gilberto Freyre que vivia no bairro de Apipucos passou a subir a ladeira do Monteiro para visitar os terreiros de candomblé onde havia as rodas de samba no Alto de Santa Isabel. O buchicho era grande: "Gilberto Freyre está visitando os terreiros para ver o samba!". Aos poucos, outros intelectuais o acompanharam e o ritmo, pouco a pouco, passou a ser tolerado e foi popularizado.

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