quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
O Caso de Rute: Conto de Júlia Lopes de Almeida
OS CONTOS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA E O ESTUPRO INCESTUOSO DE VULNERÁVEIS
Mais do que falar sobre uma literatura de mulheres é urgente falar sobre qual literatura é "permitida" às mulheres. Uma literatura autorizada não apenas como leitura, mas, sobretudo, enquanto escrita. Afinal, sobre o que pode falar, pesquisar e escrever as mulheres? Os tabus e interdições se baseiam em, para além de uma aventada manutenção de pureza, pudor e inocência femininas, na preservação de um espaço de taras e perversões masculinas no qual os homens, historicamente, tiveram o controle sobre os corpos das mulheres e exerceram seus poderes. Ousar discorrer, analisar e dissecar assédios e abusos sexuais, penetrando nesses espaços, é desafiar a perpetuação das desigualdades, das violências e da masculinidade hegemônica. Em tempos de relatórios Epstein e de tribunais cujas decisões em casos de estupro fazem Têmis arrancar a venda de seus olhos, indago-me sobre o quanto as mulheres, que são as maiores vítimas desses crimes e disparates, estiveram permitidas a não apenas relatarem, mas fabularem em torno dessas agressões, simbolizando-as literariamente. Em fins do século XIX e inícios do séc. XX, enquanto Machado de Assis em Dom Casmurro, lançava a pergunta irrespondível sobre se Capitu traíra ou não Bentinho, Júlia Lopes de Almeida em seu conto "O Caso de Rute", narrava sobre uma menina-moça que fora reiteradamente estuprada por seu padrasto, tinha ela 15 anos de idade. No dilema de contar ou não o fato ao seu noivo, ela o faz, suicidando-se pouco tempo depois: "Rute… balbuciou Eduardo. Mas a moça interrompeu-o com um gesto e disse-lhe logo, com voz segura e firme: "-Minha avó mentiu-lhe".O noivo recuou, num movimento de surpresa; foi ela quem se aproximou dele, com esforço arrogante e doloroso, deslumbrando-o com o fulgor dos seus olhos belíssimos, bafejando-lhe as faces com o seu hálito ardente."- Eu não sou pura! Amo-o muito para o enganar. Eu não sou pura! - Foi há oito anos. Meu padrasto era um homem bonito, forte; e eu, uma criança inocente... Dominava-me. No fim de quatro meses de uma vida de luxúria infernal, ele morreu, e foi ainda aqui, nesta sala".
Não se trata, portanto, de apenas, e o que já é aviltante, perpetuar as práticas da exploração sexual e destruição das vidas das mulheres, mas de manter o monopólio dos discursos, quer sejam leigos, jornalísticos, jurídicos ou literários acerca dessas práticas. Ou seja, não é de surpreender que escritoras como Júlia Lopes de Almeida tenham sido, deliberadamente, apagadas da história da literatura e do jornalismo brasileiros.
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