quarta-feira, 3 de junho de 2026

Não tenho quaisquer dúvidas de que só o que fará frente ao esgarçamento dos laços sociais, à cultura do narcisismo e da espetacularização das violências é uma ética do amor. E aqui, não estou falando do amor romântico, mas da revalorização das práticas de solidariedade, empatia e altruísmo. Uma reabilitação do "Eu é um outro" (Je est un autre) de Rimbaud. Uma diminuição no volume das pulsões destrutivas, para que a suave melodia amorosa catalise a vida possibilitando que a condição humana continue. Sim, porque temos andado no limite entre o que forjamos socialmente como humano e o que dentro em nós brada como um bicho. Há muitos e muitos anos, li e encantei-me com uma obra, talvez seminal, no tratamento do amor como prática social e caminho para a emancipação do sujeito, tratava-se da Arte de Amar do psicanalista Erich Fromm. Recentemente adquiri este belo livro de bell hooks, "Tudo sobre o Amor" - novas perspectivas , a fim de conhecer o argumento desta que é uma das maiores teóricas feministas de nosso tempo. Confesso que não me filio aos primeiros capítulos da obra no que me pareceu ser uma idealização e anseio pelo amor romântico, tudo que não mais precisa oprimir a mulher em tempos de recrudescimento dos feminicídios e demais violências domésticas. Assim como a subjugação das mulheres a igrejas e religiões que por milênios as massacraram em suas próprias humanidades. Em síntese, não esposo tudo aquilo que me parece ser salvático e perpetuador de uma infantilização da alma. Mas há capítulos preciosos nos quais a autora abre a discussão do amor como um ethos capaz de fazer frente aos grandes problemas da contemporaneidade. Em tempos nos quais o Banquete de Platão, um livro que fala sobre o Amor, é proibido em Universidades americanas, percebemos o quanto amar é subversivo e desafia o autoritarismo, o fascismo e toda uma cultura que se alimenta de pactos de ódio. Mais do que ansiar ser amado, é preciso se amar para aos outros amar e curar a vida. Pois é só amando que nos fortalecemos para enfrentar a fúria do mundo.

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