sábado, 6 de junho de 2026

NUNCA SEM A LITERATURA... A leitura articulada de textos científicos com obras literárias não é uma prática na qual eu esteja sozinha. Muitas e muitos colegas o fazem até mesmo quando estão escrevendo as suas teses de doutorado - quando, provavelmente, a leitura literária se torna mais urgente. A literatura mais do que qualquer outro gênero de escrita é aquela que mais diretamente reverbera em nossas paredes mais profundas, atravessando-as, trincando-as, derrubando-as. Abala-nos sismicamente, antes que possamos ensaiar quaisquer reações. Henry & June de Anaïs Nin foi um dos meus livros de formação. Foi o texto que me lançou uma corda de resgate quando, durante a adolescência, pensei ser impossível não ser submergida e aniquilada pelas forças mortíferas do machismo. Forças essas reproduzidas e nutridas na cultura, nos saberes, nas instituições, inadvertidamente, nos discursos e práticas das pessoas que me rodeavam. É um texto que sempre revisito, pois. Assim como sempre retorno a livros científicos que não cessam de me dizer e provocar questões novas nos diferentes momentos nos quais não resisto atracar em suas páginas. Nesses dias, principalmente, após a leitura de bell hooks, senti muitas saudades de Judith Butler e de Foucault. Isso porque hooks advoga que o fim das violências de gênero apenas será possível com o fim das relações de poder, o que para quem foi engendrada nas leituras de Nietzsche, Freud, Foucault e Butler, isso é impossível. Uma cultura onde os abusos e opressões sejam mitigados, sim, mas sem jogo de poder, chega a ser naïve, porque ele nos é constitutivo. Ainda que seja o jogo entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. Estar vivo, por si só, já é uma disputa incessante entre o corpo vivente, seus próprios miasmas e o ambiente que lhe é exterior. Essa disputa apenas se encerra com a morte, com a homeostase. Ou seja, se tornarmo-nos vivos é uma vitória da vida sobre o inanimado, ao final do processo, a morte prevalecerá. Sempre. A questão e o desafio é que ela não seja prevalente durante o percurso desse projeto que se chama ser um ser humano interagindo e lutando por mais tempo de vida em uma sociedade humana. Pois bem, ontem, antes de que meus olhos se cerrassem para o dia, revisitei as páginas do Diário de Anaïs Nin nas quais deparei-me com a seguinte sentença, tal qual em um trem fantasma, ao tombar face a face com uma frase-monstro: " Fiquei diante de Henry com a submissão de uma mulher latina, pronta para ser subjugada". O patriarcado, as desigualdades e as violências de gênero, frutos desse modelo de organização social, são universais, mas cada cultura tem as suas especificidades. Dentre tantos estereótipos acerca das mulheres latino-americanas, são inafastáveis as condições de possibilidade nas quais fomos forjadas, dentro de uma cultura filha do escravagismo, do coronelismo e do latifúndio instalada nessa "América católica que sempre precisará de ridículos tiranos". Nossas subjetividades foram historicamente processadas em meio a esse campo de batalha entre a adequação e o enfrentamento. Entrar em concertação com essas forças, mais do que delas extrair privilégios e benesses, esteve na conta de milhares de mulheres como o único caminho possível para as suas próprias sobrevivências. As que se insurgiram, não poucas vezes, pagaram com a devastação das suas próprias vidas. No mesmo dia no qual encontrei as memórias de Anaïs dentro da madrugada, eu havia relido algumas partes do luminoso livro de Judith Butler "A Vida Psíquica do Poder" no qual ela coloca, dentre muitas, as seguintes indagações: "Como a sujeição do desejo requer e institui o desejo de sujeição?"; "Como é possível que o anseio pela sujeição, baseado no anseio pela existência social, que lembra e explora as dependências privadas, surja como instrumento e efeito do poder de sujeição?" e " O sujeito busca o sinal de sua própria existência fora de si (...) em outras palavras, o preço de existir dentro da sujeição é a subordinação ". Mas, a frase-monstro dos diários de Anaïs Nin não cansa de nos desafiar e de nos interrogar em que medida ela pulsa e circula dentro de cada uma de nós, sendo inclusive, defendida ferozmente por muitas de nós: "submissão de uma mulher latina, pronta a ser subjugada ", "submissão de uma mulher latina, pronta a ser subjugada "... Às interrogações de Judith Butler eu somaria mais uma provocação a atormentar-nos: Do que mais temos medo de perder e que é maior do que a perda de nossa própria Dignidade?

Nenhum comentário:

Postar um comentário