quarta-feira, 3 de junho de 2026
Simone de Beauvoir não foi apenas - o que já seria muito - a filósofa que regeu a orquestra do feminismo da segunda onda. Inopinadamente, o seu pensamento fala mais alto hoje, reverberando nas produções atuais, do que o pensamento de Sartre que ficou, para muitos, um marxista datado. Beauvoir lançou as primeiras tintas do pós-estruturalismo nos estudos de gênero, rejeitando, a priori, o essencialismo, sendo este um gesto fundamental para possibilitar o que seria formulado e pensado posteriormente, por filósofas como Judith Butler.
O Segundo Sexo foi um giro Copérnico tanto na filosofia quanto na literatura por seu primor estético. Escrito em 1949, quando Simone deixou o magistério, após ter sofrido difamação, para dedicar-se, rigorosamente, à pesquisa e à escrita, essa obra canônica foi alvo de feroz perseguição, tendo sido colocada no Index (a famosa lista de livros proibidos pelo Vaticano) no ano de 1956. Em razão desse opróbrio, o livro foi engaiolado em muitas plagas, sobretudo, em países de maioria católica. Mas, o tempo venceu a estupidez e, hoje, O Segundo Sexo é reconhecido como um dos livros mais importantes da história do pensamento humano. Tão importante que se tornou um livro-termômetro para as ebulições políticas e os movimentos sociais. Nos dias que correm, mesmo que nunca a tenham lido, a obra de Simone, e ela própria, continuam sendo vilipendiadas, difamadas e tripudiadas. O que, a meu ver, apenas atesta a vitalidade, a força e a atualidade de suas elucubrações e contribuições para a emancipação feminina e contra as violências de gênero.
Não adianta. Engaiolados ficam os que insistem em se apequenar. Simone de Beauvoir continua a abrir as suas asas e a levar sobre elas, aqueles que se arriscam a voar para as estrelas.
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