domingo, 7 de junho de 2015




Era verão, outono, inverno ou primavera?rs

Lindo trabalho do designer gráfico Alain Le Quernec para o projeto "Celebrar Paris, Festa do Grafismo 2014, Paris".

sábado, 6 de junho de 2015

Das Vantagens de Ser Bobo (Clarice Lispector)







O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

quinta-feira, 4 de junho de 2015


    O GONDOLEIRO DO AMOR (Castro Alves)





    Teus olhos são negros, negros,
    Como as noites sem luar...
    São ardentes, são profundos,
    Como o negrume do mar;
     
    Sobre o barco dos amores,
    Da vida boiando à flor,
    Douram teus olhos a fronte
    do Gondoleiro do amor.
     
    Tua voz é a cavatina
    Dos palácios de Sorrento,
    Quando a praia beija a vaga,
    Quando a vaga beija o vento;
     
    E como em noites de Itália,
    Ama um canto o pescador,
    Bebe a harmonia em teus cantos
    O Gondoleiro do amor.
     
    Teu sorriso é uma aurora,
    Que o horizonte enrubesceu,
    -Rosa aberta com o biquinho
    Das aves rubras do céu.
     
    Nas tempestades da vida
    Das rajadas no furor,
    Foi-se a noite, tem auroras
    O Gondoleiro do amor.
     
    Teu seio é vaga dourada
    Ao tíbio clarão da lua,
    Que, ao murmúrio das volúpias,
    Arqueja, palpita nua;
     
    Como é doce, em pensamento,
    Do teu colo no languor
    Vogar, naufragar, perder-se
    O Gondoleiro do amor!?...
     
    Teu amor na treva é - um astro,
    No silêncio uma canção,
    É brisa - nas calmarias,
    É abrigo - no tufão;
     
    Por isso eu te amo querida,
    Quer no prazer, quer na dor...
    Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
    Do Gondoleiro do amor.
     
    Recife, janeiro de 1867.
    in Espumas Flutuantes - 1870.

     

quarta-feira, 3 de junho de 2015


Trecho do poema "Máscaras" de Menotti del Picchia



"PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Ficou calada...
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase
que renova no amor que é sempre velho, a emoção sempre nova!

PIERROT
Que lhe disseste enfim?

ARLEQUIM
O ardor do meu desejo,
a glória de arrancar dos seus lábios um beijo, a volúpia infernal dos seus
olhos devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus braços, de
sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar no meu peito a carne
dos seus seios!

PIERROT, assustado:
Tu ousaste demais...

ARLEQUIM, cínico:
Ingênuo! A mulher bela
adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o
homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado.

PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Vinha pelo ar, dos zéfiros no adejo, um perfume de amor lascivo como
um beijo, como se o mundo em flor vibrasse, quente e vivo, no erotismo
triunfal de um amor coletivo! 

PIERROT, fremindo:
E ela?

ARLEQUIM
Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se...

PIERROT
Depois?

ARLEQUIM , triunfante:
Deu-me um beijo na boca!
Um silêncio cheio de frêmito. Os lírios tremem. Pierrot
olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura,
toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído,
as cordas que gemem.

ARLEQUIM
Linda viola.

PIERROT, alheado:
Bom som...

ARLEQUIM
Que musicais surpresas não encerra a mudez
destas cordas retesas...

Confidencial a Pierrot:

Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher,
diferença nenhuma. Questão de dedilhar, com certa audácia e calma,
numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d’alma!
Suavemente, exaltando-se:
O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na
boca... No contado do lábio, onde a emoção acorda, sentir outro vibrar,
como vibra uma corda... À vaga orquestração da frase que sussurra ver
um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música
que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio
ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos
subindo...até alcançar a boca e escutar, num arquejo, o universo parar
na síncope de um beijo!
....................................................................................................................
Máscaras de carnaval em Veneza, Itália,  originadas na Commedia Dell'Arte.







Mosaicos em Ravena e em Veneza, Itália, herdeiros da arte oriental bizantina. Gustav Klimt visitou os mosaicos de  Ravena e de Veneza a fim de neles inspirar-se para a sua pintura.



Basílica de San Marco - Veneza

Basílica de San Marco - Veneza

Basílica de San Vital - Ravena

Tumba de Galla Placídia - Ravena

Tumba de Galla Placídia - Ravena

Tumba de Galla Placídia - Ravena
"Em toda obra de arte autêntica existe um lugar onde aquele que a penetra sente uma aragem como a brisa fresca de um amanhecer. Daí resulta que a arte, muitas vezes considerada refratária a qualquer relação com o progresso, pode servir à sua verdadeira definição. O progresso não se situa na continuidade do tempo e sim em suas interferências, onde algo verdadeiramente novo se faz sentir pela primeira vez, com a sobriedade do amanhecer". Walter Benjamin in "Passagens"



Vincent Van Gogh