segunda-feira, 10 de agosto de 2015

De Dante a James Joyce, do séc. XIII ao séc. XX, dos primórdios ao além do tempo, é sempre o amor de uma mulher que salva um homem e o leva aos céus...rs E quem está dizendo isso são os próprios homens, o que se há de fazer?rs




"Ó dama em quem minha esperança vive,
e que, por mim, no Inferno até inscreveste
o rastro teu quando eu perdido estive;

por tantas coisas que me ofereceste
conhecer, por tua força, tua bondade,
graça e valor a agradecer sou preste.

De servo me hás trazido à liberdade,
por todo modo e por toda via
a que bastasse a tua potestade.

Em mim teu alto influxo custodia,
pra que minha alma, que tu alçaste avante,
ao desprender-se ainda te sorria."

Dante Alighieri in A Divina Comédia - Paraíso, Canto XXXI



"Feio e fútil: pescoço mirrado e cabeleira emaranhada e um borrão de tinta, baba de caracol. Mas alguém o amara, o aconchegara aos braços e no seu coração dela. Não fora ela o tropel do mundo o houvera esmagado aos pés, esborrachado caracol desossado. Ela havia amado seu fraco sangue aguado sorvido do dela mesma. Era isso então real? A só coisa verdadeira na vida? (...) ela já não era: o esqueleto tremente de uma vergôntea queimada ao fogo, um odor de pau-rosa e cinzas molhadas. Ela o salvara de ser pisoteado e se fora, mal e mal tendo sido. Uma pobre alma ida para os céus: e por sobre um terrunho por sob estrelas piscantes uma raposa, fartum rubro de rapina na pele, com brilhosos olhos impiedosos, raspava a terra, escutava, levantava terra, escutava, raspava e raspava."

James Joyce in Ulisses, pág. 35, Ed. Civilização Brasileira, 2015.




                                   A Divina Comédia - Paraíso (trecho final)
                                                                   Dante Alighieri


Emocionei-me muito com a leitura dos três tomos de A Divina Comédia de Dante Alighieri. Tanto que terminada a leitura, passei um tempo digerindo-a até vir comentá-la aqui. Li o Inferno e o Purgatório de um chofre, durante dois dias inteiros cada um, como se estivesse ansiosa por conhecê-los e vencê-los. Não fui diretamente ao Paraíso, pra dizer a verdade pensava até em não lê-lo, justifiquei-me por achar que lá encontraria o marasmo. Depois percebi que o que me refreava "subir" ao Paraíso era esse, ao menos meu, sempiterno sentimento de não merecimento (o vocabulário dantesco, verdadeiras pedras nos caminhos iniciais da leitura de sua obra, agora brotam de mim espontaneamente, ou seja, como cada autor que lemos, ele já está falando em mim rs). Foi quando aceitei altear-me aos céus junto a Dante, sentindo fulgurações, resplandescências e cores. E, sobretudo, sentindo amor, muito amor. 

Obrigada Dante, não sei se existe o seu Paraíso, mas sei que existe o Amor e é uma substancial porção dele que você tem nos dado em sua Comédia imorredoura através dos séculos. Arrivederci.


CANTO XXXIII (trecho final - Dante é agraciado com a visão de Deus)

tal estava eu ante a nova visão:
buscava a imagem sua corresponder
ao círculo, e lhe achar sua posição.

Mas não tinha o meu voo um tal poder;
até que minha mente foi ferida
por um fulgor que cumpriu Seu querer.

À fantasia foi-me a intenção vencida;
mas já a minha ânsia, e a vontade, volvê-las
fazia, qual roda igualmente movida,

o Amor que move o Sol e as mais estrelas.

Fim


tal era io a quella vista nova:
veder voleva come si convenne
l'amago al cerchio e come vi s'indova;

ma non eran da ciò le proprie penne:
se non che la mia mente fu percossa
da un fulgore in che sua voglia venne.

A l'alta fantasia qui mancò possa;
ma già volgeva il mio disio e 'l uxelle,
sí come rota ch'igualmente è mossa,

l'amor che move il sole e l'altre stelle.

Fine

Dante Alighieri, Ravenna, 1320 Anno Domini





sábado, 8 de agosto de 2015

A Divina Comédia - Paraíso
                    Dante Alighieri


(O trisavô de Dante, Cacciaguida, faz profecias sobre o seu futuro exílio)


CANTO XVIII (trecho)


Como Hipólito teve de fugir
Atenas, por madrasta malfazeja,
tu de Florença deverás partir.

Isso se quer e isso é o que lá se enseja
e isso logo terá quem ora o pensa,
onde Cristo, dia a dia, se mercadeja.

A culpa estará co' a parte ofensa,
como sói suceder, mas a vingança
fará testigo ao Vero que a dispensa.

De teus mais caros bens a aventurança
tu perderás, e essa é a flecha fatal
que, de primeiro, o arco do exílio lança.


Dante no exílio - Pintor anônimo




Dante tinha um protagonismo político em Florença, tendo chegado ao posto de um dos seis priores do Conselho, uma espécie de prefeito. Havia, à época, dois partidos, o  partido dos Gibelinos que eram os partidários do Imperador, e o partido dos Guelfos, os partidários do Papa. Os Guelfos que detinham a quase totalidade do poder em Florença subdividiam-se em "Brancos" que se opunham à interferência do papado no poder temporal e em "Negros" que apoiavam a ingerência do Papa nos assuntos seculares, assim como o seu papel de "conter" as ações do Imperador. Dante era do partido dos Brancos. Havendo o então Papa, Bonifácio VIII, auxiliado os Negros a tomarem posse da cidade, muitos Brancos foram condenados ao exílio, inclusive, Dante que foi, injustamente, acusado de corrupção e chamado a pagar uma multa, pena essa que ele se recusou a cumprir (é isso aí Dante! Cabeça erguida!). Dante passou vinte anos no exílio, dez dos quais ele escreveu a sua Commedia. Devido ao grande prestígio que lhe conferiu a sua maior obra, Dante pensou que as portas de Florença lhes seriam reabertas, ainda mais com a morte do Papa Bonifácio VIII. Dante faleceu, logo após publicar o Paraíso, sem sequer fazer a revisão pretendida de toda Commedia. Acho que morreu de desgosto. E isso me deixa triste...


terça-feira, 4 de agosto de 2015

A Divina Comédia - Paraíso
                      Dante Alighieri

(Beatriz conduz Dante por entre os céus do Paraíso e lança-lhe olhares de amor)


Beatriz volveu-me o seu divino olhar
de centelhas de amor tão incendido,
que o não pôde o meu ânimo enfrentar;

e os olhos abaixei quase perdido.

"Se a ti eu flamejo na força do amor,
além do modo que na terra vê-se,
tão que dos olhos teus venço o valor,

não te surpreendas, pois isso acontece
da perfeita visão que, como apreende,
faz pro apreendido bem que inda se apresse.

Bem vejo como agora já resplende
no intelecto teu a eterna luz
que, vista, só e sempre amor acende;

e, se outra coisa o vosso amor seduz,
nada mais é que daquele um sinal
mal entendido, que nesta transluz.

(...)




* Os quatro primeiro versos finalizam o CANTO IV, os seguintes iniciam o CANTO V.

Beatriz e Dante nos céus do Paraíso por Sandro Botticelli

domingo, 2 de agosto de 2015

A Divina Comédia - Purgatório
                       Dante Alighieri



(Dante encontra, finalmente, Beatriz no Paraíso Terrestre)


CANTO XXX (trecho)


assim, em meio a uma nuvem de flores
que, de angélicas mãos, subia festiva
e retombava espargindo candores,

sobre um véu níveo cingida de oliva,
dama me pareceu num verde manto
sobre as vestes da cor de chama viva;

e o espírito meu que, desde tanto
tempo, não fora mais por sua presença
arrebatado, já a tremer de espanto,

sem ter pela visão sua conhecença,
mas, por efeito que dela partiu,
de antigo amor senti a força imensa.


A Divina Comédia - Purgatório
                          Dante Alighieri


(Amor quando distribuído, multiplica-se)



CANTO XV (trecho)


Como admitir que um bem, distribuído
entre mais donos, torne-os ricos mais
que se fosse por poucos possuído?

E ele: "É porque nas coisas terrenais
ora tão-só a tua mente se atém,
que colhe trevas das luzes reais.

Aquele imenso e inefável Bem,
que está lá, assim corre ao amor
como a lúcido corpo raio vem.

Tanto se entrega quanto acha calor;
quanto mais caridade assim se estende,
sobre ela cresce o Eterno Valor.

Quanto mais gente lá em cima se entende,
mais há pra bem amar, e ama-se mais;
como espelhos que um do outro esplende.

Giotto - Detalhe

sábado, 1 de agosto de 2015

A Divina Comédia - Purgatório
                                  Dante Alighieri



CANTO IX (trecho)


Estás chegando agora ao Purgatório,
vê lá o ressalto que o percorre em torno,
e a entrada ao fim do trilho promissório.

Na aurora que anuncia do dia o retorno,
quando a tua alma dentro em ti dormia
sobre as flores que ao vale dão adorno,

Mulher veio e me disse: "Eu sou Luzia,
a esse que dorme deixa-me votada
para ajudá-lo em sua penosa via".


Willian Blake: Santa Luzia leva Dante adormecido em seus braços ao Purgatório.