Um dos quatro poemas com os quais participo da Agenda "Erosário 2016" da Editora Silkskin de Lisboa, Portugal.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
"sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims."
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| Kiyo Murakami |
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Enlevada em nostalgia pelo conto "Banhos de Mar" de Clarice Lispector, faço uma arqueologia de minha infância e dos veraneios que passava com a minha família nas praias nos arredores de Olinda. Tateio na minha estante o meu primeiro manuscrito com meus poemas e versos. Num desses veraneios, apaixonei-me e, aos onze anos, escrevi o meu primeiro poema de amor. Transcrevo-o aqui, incluindo tudo, inclusive a saudade oceânica e os erros de grafia...
Fascínio
"Embaixo dos coqueiros brandos,
pude enxergar teus olhos brilhando
e embaixo das águas do mar
pude contigo começar á sonhar."
"Ouro! Sim, assim podia enxergar teus
cabelos, dourados, dourados
como o sol á brilhar."
"Teus olhos pareciam amêndoas,
amêndoas jogadas do céu
que, quando penetravam em meus olhos,
deles caíam mel!"
"A tua voz era o encanto,
o encanto dos pássaros á cantar,
pois a tua voz com á do rouxinol
podia se comparar."
"Tua pele me fascina como as noites
de luar,
e meus olhos te rodeiam como barcos
á te navegar."
"Porém, um dia, partiste e
senti um vazio á me ocupar,
os meus olhos por ti lagrimejaram
e todos os teus sentidos me encantaram.
Mas me sinto contente por poder
por tí:
Me encantar!
Por tí lagrimejar,
E por fim...
"Por tí me fascinar!"
Andrea Campos
Esse conto me remete à minha própria infância...
Banhos de Mar
Clarice Lispector
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”. Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e banhava o mundo.Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe um porco de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”. Passávamos por cavalos belos que esperavam de pé pelo amanhecer.Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda. Finalmente saltávamos e íamos andando para as cabinas pisando em terreno já de areia misturada com plantas. Mudávamos de roupa nas cabinas. E nunca um corpo desabrochou como o meu quando eu saía da cabina e sabia o que me esperava.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.
Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.
L'amour est une forêt inconnue
Andrea Campos
Je me souviens de ta face obscure
dans la forêt inconnue,
le temps sans legende sur ta bouche
et dans tes yeux, tes désirs nus.
Il y avait la vie, il y avait la mort,
il y avait tout ce qui nous absorbe
et qu'on porte dans nos mains vides,
il y avait les promesses des nids
sur les branches de nos corps.
Ainsi, nous avons fait l'amour
sur la terre, sur le feuillage,
inquiets comme un orage
qui part sans destin,
malgré la douleur, malgré le chagrin.
Comme le jour notre amour
s'élevait,
comme la nuit notre amour
tombait,
Comme un cri voyant
s'en fuit notre fureur ardent.
Un jour, à la distance,
j'ai reconnue ta face
dans la forêt inconnue et sans ton,
mais je suis restée en silence
car j'ai jamais connu ton nom.
Andrea Campos
Je me souviens de ta face obscure
dans la forêt inconnue,
le temps sans legende sur ta bouche
et dans tes yeux, tes désirs nus.
Il y avait la vie, il y avait la mort,
il y avait tout ce qui nous absorbe
et qu'on porte dans nos mains vides,
il y avait les promesses des nids
sur les branches de nos corps.
Ainsi, nous avons fait l'amour
sur la terre, sur le feuillage,
inquiets comme un orage
qui part sans destin,
malgré la douleur, malgré le chagrin.
Comme le jour notre amour
s'élevait,
comme la nuit notre amour
tombait,
Comme un cri voyant
s'en fuit notre fureur ardent.
Un jour, à la distance,
j'ai reconnue ta face
dans la forêt inconnue et sans ton,
mais je suis restée en silence
car j'ai jamais connu ton nom.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Versos Felinos
Andrea Campos
Peles, torsos, ancas,
clara neve,
vales derrapantes,
incertezas.
Precipícios de sonho,
triste beleza
aonde livre me lanço
pra ser tua presa.
Devora-me
ou
Decifro-te.
Farejando memória
da pele,
mastiguei a carne
do tempo.
Abocanhar o ser
no não ser:
perigo é não viver.
Amar é,
a um só tempo,
caçar e ser caça
rendida a esse fato.
Melívora,
te abato.
Retalhar teu corpo
com as garras molhadas,
lamber teu sangue quente.
Arder no mais profundo
desse corte.
Fatiar a dor
e te salvar da morte.
Arquejante,
arrepiar o instante,
avançar num grito,
bramir o gozo da fera
e saltar o espaço infinito.
Andrea Campos
Peles, torsos, ancas,
clara neve,
vales derrapantes,
incertezas.
Precipícios de sonho,
triste beleza
aonde livre me lanço
pra ser tua presa.
Devora-me
ou
Decifro-te.
Farejando memória
da pele,
mastiguei a carne
do tempo.
Abocanhar o ser
no não ser:
perigo é não viver.
Amar é,
a um só tempo,
caçar e ser caça
rendida a esse fato.
Melívora,
te abato.
Retalhar teu corpo
com as garras molhadas,
lamber teu sangue quente.
Arder no mais profundo
desse corte.
Fatiar a dor
e te salvar da morte.
Arquejante,
arrepiar o instante,
avançar num grito,
bramir o gozo da fera
e saltar o espaço infinito.
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