sábado, 24 de novembro de 2018

Para Hilda Hilst
                 Andrea Campos


Rútilo nada
Minha pele
Esgarçada,
Pó da estrada,

Eloí! Eloí!
Essa febre malsã,
Queima, ferve,
Corpo-alma: Canaã.

Vem e escorre!
Fluxo- floema
Molhando as bordas
Do poema,

Até que surges
E eu te aceno,

Me penetras
E desapareces:
Obsceno.




A lo lejos...

                Andrea Campos



A lo lejos hay un colibrí que canta,
A lo lejos...

Desde que soy tuya hay un sol
Que amanece à la medía noche
Entre mis senos...
Desde que soy tuya...

Sus rayos son tu aliento de brisa
Cogendo mi boca con tu sonrísa.

Nuestras palabras se hunden y se fuyen
Como la torrente de un río que nos recorta,
En éste río hay doz brazos,
Allí te quiero...
Nada importa.

Así corren las huellas de las horas,
Perseguiéndose,
Y tremblan tus flancos
Silencios mancos
Repetiéndose.

Entre gemidos insanos,
Non te olvides de la hambre:
Yo soy la luna de la noche
Blanca en sangre,
Dilatando entre tus manos.

Viene! Viene!
Y hacete agua
Que se esparce en mí
Desde luego...

Quéma! Quéma!
En mi vientre
Que te espera
En luz y fuego...

A lo lejos hay un colibrí que canta,
A lo lejos...








sexta-feira, 23 de novembro de 2018


Ele chega pelas beiras
da soleira e do meu corpo,

Ao enlaçar minha cintura,
prende-me a um tempo
sem relógio,

E é um ponteiro
de sua boca
que me penetra
o abissal
profundo,

Nesse beijo
badalam
as nossas
peles

e se inaugura
todo
o mundo.

Andrea Campos









Como uma cão farejadora...

Como uma cão farejadora
aspirei os miasmas
de seus poros

e rastreei o acridoce
derramado
em seus ganidos,

Quando na noite
ele se engana
no covil dos desvalidos,

sou eu a cão
que o desperta e chama
e alastra a sua flama

com meus latidos.

Andrea Campos







Costurando-nos

Madrugada
incontida,
nossas vozes
cerzidas,

pontos-cruz
vão bordando
pontos-não,
pontos-sim.

Nessas Vias
De-leite
de texturas-azeite,

vou pregando
alfinetes
em tuas
cavas-cetim,

E nossas
bainhas
dobrando
e o nosso
cós alinhando

um ziguezague
sem fim...

Andrea Campos




O que é o amor
senão uma espada nua
entre dois corpos
que em si pontua?

Sangue vermelho
que escorre do artelho,
fluido complexo,
amor é o reflexo
que cobre o espelho.

O que é o amor
senão uma palavra
cravada ao instante,
letra suada em lavra
num jardim flamejante?

Casto, delirante
penetrando o vazio,
o amor é o sagrado
forjado em seu cio.

Reticências, silêncios,
contos de exclamação,
amor é transubversão
entre o sim e o não.

Pulsa, clama e grita,
revira a rota e agita
toda uma constelação,

Amor é estrela e crepita
e nega a sua geração,

Pois só é amor
o que é de essência
infinita
e se inventa
e replica
à sua própria invenção.

Andrea Campos




Amor à la Mondrian


À Mondrian
amei teu corpo,
teus desvarios
e teus riscados,
língua e pele,
suor e porto,
naveguei
os teus quadrados.

Cores quentes,
linhas retas,
meus escudos,
tuas setas.

Pernas-horizonte
verticais,
neoplasticismos
radicais.

Branco-nude,
azul-fremente,
concretude,
vermelho-ardente.

À Mondrian,
pintada
em óleos,
pincelei
retângulos
com os
meus molhos.

Assim, soldei os
nossos corpos
com cola e tinta,
paz e libelo,

e te fiz
renascer
depois de mortos
e adormecemos
amar-elos.

Andrea Campos