Qual o impacto do modelo patriarcal para o mundo da mulher trabalhadora? Assim como pontua-se a possibilidade de emancipação e exercício de poder pelas mulheres nos regimes monárquicos, igualitariamente aos homens, herdeiros da coroa ( e não que isso decomponha o modelo patriarcal, mas, certamente, presta uma certa feição matriarcal ao regime) mutatis mutandis, ou seja, por fatores outros, esse modelo claudica ao se tratar das mulheres pobres das classes trabalhadoras. Uma das razões reside no fato de que os homens dessas classes, geralmente, fracassam em se adequar ao modelo do homem do patriarcado: Mantenedor, provedor, detentor de propriedade privada e, portanto, controlador da mulher que dele depende materialmente e a ele se submete e subalterniza (ou seja, a escolha entre ser assujeitada pela dependência econômica e ser autônoma ao envidar por si mesma a luta pela vida sempre foi uma possibilidade maior para as mulheres das classes inferiores). Logo, por estarem de igual pra igual com os homens na luta pela sobrevivência, não poucas vezes com melhores ganhos e até sustentando-os, a mulher trabalhadora historicamente enfrentou as mazelas do patriarcado de forma mais altiva e desafiadora do que as mulheres das classes intermédias e superiores. Infelizmente, não sem experimentarem os efeitos perversos desse exercício de força, cujo principal sempre foi a violência de seus companheiros, pela frustração de não conseguirem acumular capital e ocuparem o lugar do masculino no patriarcado. Ou seja, subalternizada ou emancipada, dentro ou fora do patriarcado, mas tendo-o por referência, a violência contra a mulher é democrática, atingindo, historicamente, a todas. Um dado é que, ao analisarmos processos judiciais, vemos que as mulheres trabalhadoras apanham dos companheiros, mas também batem muito. São mortas por eles, mas também os matam. Ou seja, em uma cultura de violência, ao estarem em paridade de condições econômicas com os homens na luta pela sobrevivência, as mulheres trabalhadoras das classes inferiores tendem a fazer uso da mesma em relação a seus companheiros em muito maior proporção do que as demais. Nas classes mais favorecidas, a mulher com maior autonomia financeira, em estando em uma situação de violência, atualmente, tende a divorciar-se. Já as mais dependentes economicamente (e emocionalmente) de seus companheiros nas classes intermediárias, ainda que aufiram alguma renda, são as que por mais tempo se submetem a situações de violência física e psicológica. Por vezes, por toda a vida.
terça-feira, 3 de março de 2020
sábado, 29 de fevereiro de 2020
LANÇAMENTO DO LIVRO "MANUAL JURÍDICO FEMINISTA" NO AUDITÓRIO DA SEDE DA OAB EM SÃO PAULO.
O evento foi uma promoção da Comissão da Mulher Advogada da OAB/SP e da Comissão de Direito e Arte da OAB/SP.
O livro pode ser adquirido pelo site da Editora Letramento: https://www.editoraletramento.com.br/busca/Manual+Jur%C3%ADdico+feminista
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
GRANDE SERTÃO: VEREDAS - UMA
LEITURA QUE NÃO CESSA.
Há
mais de dez anos, venho lendo o romance Grande Sertão: Veredas, e
sei que não estou sozinha nessa travessia. Todo leitor dessa
obra-prima "surregionalista" como a designou Antonio
Candido já fez várias leituras e releituras radicais do livro. Que
o diga o professor Willi Bolle, alemão que veio para o Brasil em
1966 com o único fito de estudar o romance e conhecer o seu autor e
que não pára de ler o livro há mais de 50 anos!
Eu, nas minhas
humildes leituras desse sertão inesgotável, posso dizer que já o
li sob três vieses: por primeira vez, enredei-me no romance como
quem se enovela nos impossíveis do amor, era o impossível do amor
que me capturava e me tinha por abatida nas veredas dessas linhas. Na
segunda vez, fiz uma leitura jurídica e sociológica, detive-me no
sertão civilizacional onde não havia instituições, mas havia a
lei fundada nos princípios fundamentais do direito. Até que
finalizei uma terceira leitura na qual o livro se descortinou para
mim com luzes outras. Ao invés de focar apenas em Riobaldo e o seu
"monólogo", decidi por ler o livro como o que ele
realmente é: um diálogo. E procurei descobrir o máximo de seu
interlocutor que é mudo e cuja fala escutamos apenas através da
fala do único que nos fala: Riobaldo. Esse interlocutor é um doutor
pesquisador da cidade que vem visitar Riobaldo em seu jipe e para
quem Riobaldo narra e procura entender a trajetória de sua vida. Há
quem diga que esse doutor ocupe o lugar do psicanalista. Deveras.
Mas, tenho uma outra intuição: esse doutor ocupa o lugar da
ciência, da racionalidade. Esse doutor é o racional em diálogo com
o trágico personificado em Riobaldo. Eis, então, sob que tintas
vejo hoje essa obra: sob as tintas de uma confrontação entre a
racionalidade e a tragicidade, confrontação essa a engendrar o
homem humano. No mais, sempre haverá outras novas leituras outras.
Travessia.
DA
DOCÊNCIA COMO SACERDÓCIO
(REFLEXÕES A PARTIR DE UMA "FAKE NEWS")
(REFLEXÕES A PARTIR DE UMA "FAKE NEWS")
Tem
circulado nas redes sociais, já há alguns anos, um modelo de
contrato de trabalho que seria destinado a ser celebrado entre
Conselhos de Educação Escolares e Professoras em São Paulo no ano
de 1923. O contrato seria um anexo (ainda não constatei a
procedência dessa informação) de um artigo escrito pela
pesquisadora Jane Soares de Almeida sobre as transformações da
carreira docente e sobre a inserção das mulheres nessa atividade,
seus desafios e suas limitações. Pude verificar que a minuta é uma
tradução ipsis litteris de um modelo de minuta contratual da
Associação Escolar de Ohio nos EUA do mesmo ano, assim como de um
modelo de minuta contratual espanhola, também do mesmo ano. Até
mesmo as datas e os valores salariais a serem pagos convergem. Como a
ortografia do contrato em português está em franco desacordo com a
ortografia vigente na década de 20 do século passado, tudo leva a
crer que se trata de um contrato falsiê. No entanto, ao fazer o
levantamento de algumas leis acerca da atividade docente publicadas
no Brasil nos séculos XVIII, XIX e inícios do século XX, assim
como, ao resgatar leituras pretéritas, posso afirmar que mesmo que o
contrato seja falso, o seu espírito carrega a verdade. Ou seja,
trata-se de um corpo falso encarnado por uma alma verdadeira. Freud
já dizia "o inconsciente, às vezes, mente", e se mente,
mente sobre uma verdade encoberta. Vamos fazer, então, uma
arqueologia da verdade encoberta por essa "Fake News"?
Como
exemplos das cláusulas constantes da minuta contratual falseada e
viralizada na Internet estão as de que as professoras, para o
exercício da docência, estariam terminantemente proibidas de se
casarem (como pude verificar ser procedente até o século XIX), de
andarem em companhia de homens, de beberem, de fumarem ou de flanarem
em sorveterias, um ambiente de coqueteria por excelência em inícios
do século passado. Nos textos publicados em jornais de grande
circulação no Brasil como O Globo e alhures, sobre o conteúdo do
contrato, frisa-se o caráter machista de suas cláusulas. Sem
dúvida. Mas, o que me encantou nesse contrato, sim, digo que me
"encantou" e não que me causou assombro ou indignação,
foi verificar como, através desse contrato-ficção, podemos
constatar como a prática docente que temos vivenciado nos últimos
dez séculos foi preponderantemente prescrita pela Igreja cristã
durante a Idade Média, e no que concerne ao ensino superior, a
partir da Baixa Idade Média.
Prática
essa, portanto, que foi, inicialmente, monopolizada pelos religiosos,
integrando inextricavelmente os seus sacerdócios. Ao ser a prática
docente permitida a leigos, quer fosse nas escolas paroquiais, quer
fosse no ensino universitário inaugurado pela Universidade de Paris
cuja direção era do bispado com intervenção papal, aqueles que se
dispusessem a ser professores deveriam seguir, em vários aspectos, o
mesmo modus vivendi dos religiosos. O celibato e a abstinência
sexual eram alguns desses aspectos. Não há como não nos lembrarmos
da história do filósofo Pedro Abelardo cuja amante Heloísa,
resistia a com ele casar-se, ainda que estivesse grávida. O
casamento era um descrédito para um professor, maculava a sua
reputação. Mesmo em sendo esse professor, um leigo, haveria o mesmo
que gozar da mesma estatura moral de um clérigo cuja vida deveria
ser de entrega exclusiva ao aprofundamento de seus estudos, de
alcance da sabedoria e de dedicação a seu alunado.
Ser
professor ou professora, portanto, a partir da Idade Média, passou a
significar o exercício de uma função própria dos clérigos e a
adesão a esse sacerdócio. É notório o monopólio da atividade
educacional por irmandades e congregações religiosas até finais do
século XX, tendo sido o primeiro professor de cultura ocidental em
solo brasileiro, o Padre José de Anchieta. Colégios de padres e
colégios de freiras foram máximas referências educacionais durante
séculos. Não causa espécie, portanto, que mesmo as instituições
de ensino laicas, mesmo as escolas públicas, estivessem imbuídas
das prescrições comportamentais ditadas pelas escolas de ensino de
tradição cristã, fossem católicas ou protestantes. Esse caráter
sacerdotal emprestado ao ensino, talvez nos ajude, também, a
compreender a histórica baixa remuneração da atividade docente em
países como o Brasil, afinal, uma vez que integra um "sacerdócio",
entende-se que faça parte indissociável do ensino, o seu caráter
dadivoso traduzido por extremosa doação e obstinado sacrifício.
Quanto
a aquilatar o quão machista são as cláusulas constantes da minuta,
sendo que muitas estavam em real acordo com os costumes daqueles
tempos, o melhor seria cotejá-las com as cláusulas de um modelo de
contrato a ser celebrado com os professores na mesma época. Muito
provavelmente, concluiremos que as normas impostas às moças eram
bem mais restritivas e limitantes do que aquelas destinadas aos
rapazes, uma vez que, historicamente, temos estado agrilhoados a um
modelo patriarcal onde a desigualdade de gênero é assaz eloquente.
No entanto posso já adiantar que aos homens era terminantemente
proibido serem professores de meninas com idade de até 14 anos.
Logo,
no que tange às cláusulas da minuta em comento e à leis e costumes
dos séculos XX e anteriores, penso que a tradição de ensino
fundada pelas instituições cristãs a partir da Idade Média,
emprestando a esse ofício um caráter fortemente sacerdotal, é a
que maior influência exerce em seus contornos e fala mais alto. Mais
do que o seu incontroverso caráter "machista". Pois,
lembremo-nos que o professor Pedro Abelardo, citado acima, ao haver
engravidado uma aluna e casado-se com ela, agindo em total
desconformidade com o que se esperava do comportamento de um
professor, foi violentamente emasculado. E morreu eunuco.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
EM HOMENAGEM ÀS ESCRITORAS PERNAMBUCANAS: REVISTA HEXÁGONO
Em janeiro de 2020 foi lançada no Recife, a Revista Hexágono editada pelo escritor Sidney Rocha com o apoio do Funcultura. A Revista integra um projeto de resgate e de divulgação de escritores e de escritoras pernambucanas capitaneado por Rocha. O público alvo são estudantes e professores das escolas públicas pernambucanas assim como as Bibliotecas Públicas. Na primeira fase do projeto foram lançadas a um só tempo seis revistas dedicadas a escritores pernambucanos e nessa segunda fase, também ao mesmo tempo, seis revistas (daí o seu nome "Hexágono"), sendo cada uma delas, em homenagem a uma escritora pernambucana. Participei, como entrevistada, do número dedicado à poetisa, professora, jornalista e feminista Edwiges de Sá Pereira (1885-1958).
As escritoras pernambucanas estudadas e homenageadas nessa edição da Revista Hexágono são:
Clarice Lispector;
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo;
Francisca Izidora;
Celina de Holanda;
Edwiges de Sá Pereira e
Ladjane Bandeira.
Saúde e Longevidade à Revista Hexágono!
domingo, 25 de novembro de 2018
Delante de tus ojos
Cruzo el tiempo y ardo.
Renascida en tu memoria,
Soy una ola de oleo
Desplegada de tu deseo.
Las horas están descalzas
Encuanto palabras y imágenes
Cubren este instante vacío,
Sólo nos queda este sueño
Que explode como una rosa
Luciendo en la tarde el rocío.
Vuela!Vuela!
Y déjate ser el pájaro
Posado entre mis senos...
Mientras cae la noche
Y de sombras todo
El mundo es lleno,
Encendida en tí,
Embriágote de luz,
Soy día pleno.
Así, yo salto de lo retrato,
Abandonando la parede,
Me voy de la quimera al acto,
Golpeando hambre y sed.
Mírame!Mírame!
Sin la niebla ocultándome,
Cógeme en el camino,
Soy delirio, soy de carne,
Soy de furia, soy de aliento,
Mujer dulce, salvaje y loca
Y te conduzco en tu viaje
Y soy el beso de llegada
Que va cerrado en tu boca.
Andrea Campos
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