sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

 "ROSA E MOMO": SOPHIA LOREN , ALTIVA, POTENTE E BELLA ÀS VÉSPERAS DOS 90 ANOS DE IDADE.






Nesses dias tão cheios de notícias e cansaço, com agradável surpresa deparei-me com esse belo presente que nos foi ofertado por La Loren: um novo e sensível filme estrelado pela diva e estreado nos cinemas e na Netflix no mês passado.
O filme traz todos os condimentos para um tempero de resistência e enfrentamento à onda obscurantista atual: A protagonista é uma bela e potente mulher no auge de seus quase noventa anos de idade (mesmo que com problemas de saúde) e o papel feminino coadjuvante é estrelado por uma mulher trans (assistam no idioma original ou não o perceberão). Ambas são prostitutas, sendo que a primeira, uma judia sobrevivente do holocausto, é aposentada e vive de cuidar dos filhos abandonados de outras prostitutas. Prostitutas árabes, judias, muçulmanas. Junto às crianças e à sua vizinha trans, formam o que seria uma família "não tradicional" estabelecida por correntes e laços de solidariedade e afeto. Até que um dia lhe chega um menino negro, senegalês e muçulmano. Filho de uma prostituta precocemente assassinada por seu companheiro cafetão... E que está se iniciando no tráfico de drogas...
O roteiro parece-lhe pesado? Pois com tudo isso, o filme "Rosa e Momo", cujo título original nos diz mais sobre o seu enredo "A vida antes de ser" (La vita davanti a sé), em inglês "The life ahead", é um caldo de leveza, sensibilidade e esperança para os tempos que correm. Para esses dias de quarentena, pandemia e lonjuras, quando chegamos quase ao fim de um árduo e pedregoso caminho, "Rosa e Momo" nos traz a mensagem de que atravessamos uma longa noite de uma vida que é vestíbulo da Vida, vida que ainda não é, mas que será outra Vida e a vida mesma, no amanhecer.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

 BRIDGERTON: AFINAL, HOUVE UMA RAINHA NEGRA NA INGLATERRA OU TUDO NÃO PASSA DE UMA AÇÃO AFIRMATIVA FEITA EM FICÇÃO?





Era finais do ano de 2017 e na recorrente cena que insiste em plasmar o conto de fadas à família real britânica, um apaixonado Príncipe Harry, anunciava o seu noivado com a atriz americana, a bela morena, Meghan Merkle. Narrativas do passado recente da história real europeia eram evocadas: uma atriz americana e um Príncipe europeu tal como no casamento entre o Príncipe Rainier e Grace Kelly. Ah, o eterno retorno nas histórias de amor principescas! A atriz, uma autodeclarada feminista e ativista dos direitos humanos alardeava estar mais do que pronta para ser uma princesa, e que eram perfeitamente compatíveis o exercício dos papeis de Cinderela e o de mulher emancipada a um só tempo.
Tudo ia perfeitamente bem nos tabloides britânicos e fora deles quando no dia do matrimônio real, em maio, mês das noivas, de 2018 na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, compareceu, visivelmente emocionada, mas francamente constrangida, a mãe da noiva, uma mulher bela... E negra. Sim, Markle não era apenas uma bela mulher morena, a presença de sua mãe anunciava o inafastável: Sangue negro estava invadindo o sangue azul da Família Real. Se isso foi bem acolhido pela realeza britânica, em detalhes, não sabemos. Apenas recebemos a notícia em janeiro de 2020 que o casal estava renunciando às suas funções reais e no lugar de uma entusiasmada Princesa Markle, uma determinada senhora Meghan atirava ao Tâmisa o tratamento a ela dispensado de 'Sua Alteza Real'.
O que se passou entre as paredes dos castelos britânicos entre 2017 e 2020 nem o tablóide, The Sun, conseguiu apurar, mas o que já vinham fazendo os pesquisadores e acadêmicos americanos e ingleses, nós podemos alardear: Pesquisas e mais pesquisas a fim de vasculhar se já haveria existido ou não, em algum tempo, sangue africano na Família Real Britânica. E as pesquisas que já vinham sendo feitas desde a década de 90 do século passado, ganharam novo fôlego na propagação do nome da Rainha Sophie Charlotte de Mecklenburg-Strelitz (1744-1818), uma princesa de um ducado no norte da Alemanha, no ainda Sacro Império Romano-Germânico que deixou seu reino para desposar um apaixonado rei Jorge III da Grã-Bretanha.
E essa rainha que mais tempo ficou como rainha consorte no reino britânico até hoje, 57 anos, descenderia de uma mulher africana, Madragana Ben Aloandro, amante do rei de Portugal, Afonso III. Charlotte, então, estaria, segundo especialistas em diáspora africana, ligada ao ramo negro da Casa Real Portuguesa. No entanto, Madragana não seria exatamente uma mulher negra, mas moçárabe, típica dos povos africanos do norte. A despeito de que a ascendente negra de Charlotte, seria uma moura, o fato é que não poucos relatam os traços mulatos da rainha e sua clara herança negra. Traços negros que foram esbranquiçados pelos pintores da Corte, mas não pelo pincel de Allan Ramsay.
Charlotte está separada de sua ascendente africana em 15 gerações, e tendo ela traços negros ou não, o que é certo é que tem sangue africano. Como é certo que a rainha de sangue africano, por sua vez, é ascendente da rainha Vitória e da rainha Elisabeth II. E em sendo ascendente da Rainha Vitória, cujos filhos se espalharam por praticamente toda a realeza europeia, isso significa que em todo sangue azul europeu, há sim sangue negro, sangue africano.
Talvez tenha sido esse o recado que o diretor da série de grande sucesso, Bridgerton, Chris Van Dusen, da NetFlix, baseada nos livros de igual sucesso da escritora Julia Quinn queira dar à Nobreza britânica e aos seus súditos. Recado a nós todos. Às pessoas negras, inclusive, uma vez que uma das ações políticas da rainha negra fictícia foi conceder linhagens nobiliárquicas, incluindo propriedades, a outras pessoas negras, lembrando-nos que representantes de minorias no poder devem alçar minorias ao poder e não apenas se manterem como incidentes excepcionais. Sabemos que não são poucos os casos de pessoas pertencentes a uma minoria, e aqui me refiro a todas elas, que ao alcançar poder econômico e social, tão somente reproduzem o modelo de opressão que as oprimiu e perseguem os seus privilégios. Na série televisiva, a razão objetiva na narrativa para vermos tantas pessoas negras circulando em meio à nobreza é, justamente, essa concessão de linhagens e propriedades "em série", já desculpando-me pelo trocadilho, promovida pela rainha negra.
No sentido metafórico, mais do que uma ação afirmativa a sustentar a diversidade de atores brancos e negros, a série revela uma verdade. Uma verdade que não está expressa no fenótipo, mas que corre no genótipo. Se o personagem do Duque de Hastings e de outros, na realidade, não eram negros na aparência, traziam, certamente, também, a África na essência. O mesmo se pode dizer, como aqui já o foi dito, no sangue da própria Rainha Elisabeth II e, por consequência, corre nas veias do apaixonado Príncipe Harry. E não é impossível que o diretor, ao eleger um casal de duque e duquesa negro e branca como protagonistas, tenha querido fazer uma homenagem aos atuais Duque e Duquesa de Sussex, Harry e Meghan ao contrário. Afinal, temos, atualmente, uma duquesa negra na realeza britânica.
A série Bridgerton, portanto, de forma lúdica e fantasiosa, através de uma estética que prima pela diversidade, que é aquela que compõe cada um de nós, seres humanos, não fez nada mais do que colocar o preto no branco no papel da história.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

 O QUE UMA EPIDEMIA TEM A VER COM A ORAÇÃO DA AVE MARIA?



A oração da Ave Maria tal qual a conhecemos hoje passou por um processo milenar de mudanças, alterações e inserções em sua composição. Tendo a sua primeira parte laudatória, por base, o Evangelho de Lucas, a segunda parte, que diz respeito à súplica, é muito mais uma criação popular que foi acolhida pela Igreja. O "Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, os pecadores", foi um apelo dos fieis já na Idade Média, enquanto que o "Agora e na hora de nossa morte" foi uma inserção feita em razão da Epidemia da Peste Negra entre os anos de 1346 e 1352.
Essa epidemia, causada por pulgas de ratos, alastrou-se pela Europa ceifando a vida de cerca de 30 milhões de pessoas, quase um terço da população europeia à época. Da mesma forma que hoje se acusa os chineses pela Pandemia do Coronavírus, os grupos atacados como culpados da terrível chaga foram os judeus e os leprosos. No entanto, diversamente da crise sanitária atual, as medidas eram extremas: pessoas suspeitas de terem contraído a nefasta doença eram obrigadas a se retirarem das cidades por cerca de quarenta dias (daí, o termo "quarentena") e, uma vez que não havia mais espaços para enterrarem-se os mortos, os corpos eram empilhados como mercadorias e queimados.
Nesse verdadeiro estado de terror e aflição, os povos europeus e cristãos suplicavam aos céus e a Deus pela interseção da Ave Maria, implorando-a para que rogasse por eles, "agora e na hora de suas mortes"... Mortes essas tão atuais e iminentes em meio à epidemia. Esta segunda parte da oração, fruto do desespero e da criação popular, era rezada em caráter privado. Apenas em 1568, o Papa São Pio V, ao promulgar o novo Breviário Romano, estabeleceu solenemente a recitação de sua fórmula.
E da fé dos que sofreram aos que hoje sofrem, a oração da Ave Maria adquiriu a força dos que rogam, sem intermediários, diretamente aos céus.




Telas:
"A Anunciação" de Leonardo da Vinci.
"Triunfo da Morte" de Peter Brueguel.

sábado, 9 de janeiro de 2021

 

ESTÉTICA DO BEM E DO MAL:

VOCÊ REZARIA EM UMA CAPELA NA QUAL BOLSONARO REPRESENTASSE UM SANTO?





O que pouco hoje se fala é sobre os escândalos causados por Michelângelo na confecção das paredes e do forro da sacra Capela Sistina. Corpos desnudos, sensuais e erotizados representando os santos e o próprio Jesus. Figuras públicas corruptas e de má-fama transitando entre os anjos. Em razão de suas ousadas blasfêmias, Michelângelo foi obrigado a, ao menos, vestir os santos. Quanto às figuras de moral duvidosa da época, hoje, as suas efígies passam por nós desapercebidas e diante delas podemos até, inadvertidamente, nos ajoelharmos, uma vez que não as conhecemos. E é sob as outrora tintas do escândalo que há muito se fazem os conclaves e se escolhem os Papas.

Mas, esse introito foi apenas para mostrar que houve uma tradição renascentista na qual às representações de arte sacra, compareciam não apenas as figuras do bem, mas também personagens, contemporâneos da época, malquistos.

E foi, talvez, tentando reeditar a melhor tradição renascentista que o artista baiano, Carlos Bastos, contratado para pintar os afrescos da Capela de São João Batista no Parque da Cidade do Rio de Janeiro, em 1972, durante os anos de chumbo da Ditadura Militar, após semanas trancafiado no templo, apresentou à Arquidiocese, as figuras da Santa Maria tendo ao seu colo o pequeno São João com o rosto de Caetano Veloso, e em seu acolhimento celestial, santos representados por Dorival Caymmi, Di Cavalcanti e Emílio Garrastazu MÉDICI! Como nenhuma tradição pode ser emulada pela metade, a concepção divina de Dante se fez presente e a obra constou de dois afrescos, um finalizado, representando o paraíso e outro, ainda inacabado, representando o purgatório. Não é preciso dizer que a capela foi dessacralizada e nela não se podem celebrar missas.

Mas, aí é que entra algo que é muito peculiar da tradição Católica: Nem tudo que é condenado, sobretudo, artisticamente, é destruído. Embora não mais templo religioso, a Capela se mantém para os céus erguida e os seus afrescos, preservados intactos e sempre restaurados. E protegidos sob um véu. Mas, nunca sob a história.

 

Com a CELEUMA suscitada pelas PÉTALAS da DIVA de JULIANA NOTARI, lembrei-me dos CUIDADOS sacros com as PARTES do DAVI de MICHELÂNGELO.





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A despeito dos livros queimados pela Inquisição, parece-me ser incontroverso que a Igreja Católica sempre foi a maior mecenas do mundo das artes plásticas em todos os tempos. Basta evocarmos toda a arte que transborda na Capela Sistina e nos Museus Vaticano para confirmarmos essa tese. Basta reportarmo-nos àqueles dias quando, a um só tempo, Michelângelo pintava o forro da Capela Sistina e, a algumas portas ao lado, Rafael era o artífice dos afrescos que iluminariam os aposentos papais, dentre eles o da Escola de Atenas.


Durante a Missa do Galo no último Natal, quando, então o Papa beijou a representação singela do menino Jesus, esse beijo ecoou na face de todos os artistas, não apenas dos Da Vincis e Giottos, mas também na daqueles que ergueram o atual e polêmico presépio que resiste no centro da Praça de São Pedro. Presépio com figuras a la Botero intergaláctico. Não preciso dizer que, às críticas e insultos ao presépio, o Papa Francisco fez ouvidos de mercador.


Mas do Papa Francisco, volto-me ao Papa Julio II em inícios do século XVI. À época, na República de Florença, a Igreja dispunha de um imenso bloco de mármore de Carrara na qual deveria ser confeccionada a figura bíblica do pastor Davi. A intenção era de que a escultura decorasse, em conjunto com a de outros profetas, incluindo a do profeta Josué já esculpida por Donatello, o contraforte da Catedral de Santa Maria del Fiori. Inicialmente, a obra foi encomendada a Duccio que a abandonou após a morte de Donatello. O Mármore restou vinte e cinco anos intocado até que as autoridades eclesiásticas contrataram para refazer a estátua, o então jovem artista Michelângelo.


Por ordens do Papa Júlio II, o Davi deveria ser esculpido totalmente nu, uma vez que a sua única armadura foi a Fé em Deus. O Sumo Pontífice, então, fiscalizou, diuturnamente, a confecção das partes do profeta, com o cuidado de que, de modo algum, Michelângelo ousasse representá-las na forma circuncidada, afinal, tratava-se de um Davi católico e não de um Davi judeu.


Após dois anos, uma vez, finalizada a obra-prima, debatia-se onde a mesma deveria ser instalada. Sandro Botticelli defendia que a estátua, com a sua beleza e suntuosidade deveria ficar dentro da Catedral, outros advogavam pelo projeto original, qual seja, diante da Catedral. O voto vencedor foi de que o Davi deveria ficar em praça pública, diante do Palácio do Governo na Piazza della Signoria, uma vez que na estátua estava representado não apenas o profeta, mas o cidadão florentino com a sua afirmação da liberdade e o seu destemor em face a Golias.


Quatro séculos depois, com fins de melhor preservação, a escultura foi transferida para o interior da Galeria da Academia de Belas Artes. Mas, o povo de Florença não aceitou que a praça ficasse "nua" e uma cópia do Davi foi esculpida a fim de continuar a adornar e a emanar vitalidade e força ao povo florentino. Sim, pois é disso que se trata: vitalidade e força. As mesmas que emanam da escultura feita a céu aberto pela artista Juliana Notari. Aquela obra de arte que representa o portal que atravessamos para chegar ao mundo e que assusta tantos homens não apenas pelo poder que tem de trazê-los à existência, mas de levá-los sempre de volta ao paraíso. A nudez feminina apenas é suportada enquanto objeto das fantasias masculinas, nunca como expressão feminina de poder. Menos ainda se essa representação tem como autora, uma mulher.


Talvez os puritanos que se dizem tão religiosos e apedrejam as Divas e os Davis, devessem melhor observar as palavras de Deus nas Escrituras. Segundo essas palavras, o homem foi feito à sua imagem e semelhança. E nessa semelhança incluem-se as partes e as pétalas.


E para representar o que há no mundo de mais sagrado, existe a arte, que tem o condão de, desde o mundo, possibilitar que se toque o céu. Para tanto, que sejam artisticamente incensados o aroma de partes e de pétalas: Urbi et Orbi.


quarta-feira, 27 de maio de 2020


PRESIDENCIALISMO LATINOAMERICANO: JOAQUIM NABUCO JÁ HAVIA "AVISADO"…






Nesses dias em meio a essa Pandemia, na qual a cada minuto constatamos que a estatura dos homens que exercem o poder em terras Tupiniquins são dignas de Lilliput, ainda bem que tenho tido a companhia de Joaquim Nabuco.
O fato é que temos um problema e um problema que atravessa não apenas o atual mandato presidencial, mas, ao menos, três deles após a redemocratização: O nosso Sistema Presidencialista. O nosso modelo de presidencialismo e a forma como nele se articulam os três poderes e a vontade popular que, por princípio, deve ser sempre soberana.
De forma exaustiva temos acompanhado a permanente digladiação entre os poderes, além de termos sofrido dois traumáticos processos de impeachment. Sim, um processo de impeachment é sempre traumático, uma vez que, necessariamente, envolve a eventual prática de crimes cometidos pelo Chefe do Executivo. A nossa cultura política é alimentada por uma espécie de sebastianismo messiânico no qual se o nosso dirigente maior não dispuser de uma concentração de poderes e de um caráter de inamovibilidade durante o seu mandato, o nosso sentimento de segurança política não se sustenta. Forjados em uma história de raiz fortemente patriarcal, é-nos difícil aceitar um chefe que não seja um pai, um salvador, um "político de estimação" ao qual, nós, seus eleitores vassalos não lhe devamos absoluta concordância, lealdade e fidelidade.
Mas, como eu ia dizendo, Nabuco já havia "avisado" e olha que não gosto muito dessa expressão, acho-a arrogante. Utilizo-me dela por ser a da moda e porque aqui não se trata de uma eventual vaidade nabuquiana de sobrepor-se sobre os demais e menoscabá-los com a sua capacidade profética, mas de uma leitura que nos faz corroborar com os estudos e as avaliações daquele que nos deixou há mais de um século.
Em seu belo livro "Minha Formação", Nabuco, afirmando a influência recebida por seu espírito pelo pensamento de Bagehot, sustenta o seu convencimento de que o modelo presidencialista, no caso, o americano, seria menos eficaz, harmonioso entre os poderes e, inclusive, democrático do que o sistema de gabinete. Nabuco era um liberal e ardoroso defensor da Monarquia, mas insistia em dizer a Dom Pedro II: O Rei reina, mas não governa. Reverberar a validade das palavras de Nabuco para os dias de hoje não significa, de modo algum, defendermos o regime monárquico, mas de interrogarmos o Presidencialismo no atual modelo latinoamericano e que tem nos causado tantos "traumas". Ouçamos a voz de Nabuco:
"O sistema inglês, diz Bagehot, não consiste na absorção do poder executivo pelo legislativo, consiste na fusão deles. O rival desse sistema é o que ele chamou de sistema presidencial. Essas designações são hoje usadas por todos, mas são todas dele. Continua Bagehot "A qualidade distintiva do governo presidencial é a independência mútua do legislativo e do executivo, ao passo que a combinação e a fusão desses poderes serve de princípio ao governo de gabinete". [...] Além do enfraquecimento causado por esse antagonismo do legislativo, o sistema presidencial enfraquece o poder executivo, diminuindo-lhe o seu valor intrínseco. [...] Todas essas vantagens (do sistema de gabinete), porém, são ainda mais preciosas em tempos difíceis do que em tempos calmos. Maior quando se está a braços com grandes questões do que quando se trata de negócios insignificantes. O governo parlamentar, em que existe um gabinete, possui, além disso, um mérito particularmente útil nos tempos tormentosos: o de ter sempre à sua disposição uma reserva de poder pronta para operar, quando circunstâncias extremas o exijam...
Há um presidente escolhido por um lapso de tempo fixo e inamovível. Não há em tudo isso nada de elástico. Aconteça o que acontecer, não se pode precipitar, nem adiar.É um governo encomendado de antemão, e, convenha ou não, ande bem ou mal, preencha ou não as condições desejadas, a lei obriga a conservá-lo.
Em tempo de guerra ou de relações diplomáticas complicadas, é que se vê o defeito desse sistema em toda luz. Esse sistema, diz Bagehot, pode-se resumir em uma palavra: governar pelo desconhecido. Ninguém tem a menor ideia do que pode ser um presidente, nem do que ele pode fazer*. Nós nem mesmo imaginamos que se possa confiar o exercício da soberania a um desconhecido.
Um governo de gabinete pode ser um governo mais direto e imediatamento do povo do que o Presidencialismo americano "Uma vez que o povo americano escolheu o seu Presidente, ele não pode mais nada". A Câmara dos Comuns, essa, porém, faz e desfaz o gabinete, de modo que o governo está sempre nas mãos da representação nacional.
Comparados os dois governos, o norte-americano ficou-me parecendo um relógio que marca as horas da opinião, o inglês, um relógio que marca até os segundos."
(Joaquim NABUCO in "Minha Formação").
Portanto, já passa da hora de discutirmos essa urgente questão de fundo: os tons de nosso modelo Presidencialista de Governo.
Afinal, Joaquim Nabuco avisou....


terça-feira, 5 de maio de 2020

MICHEL ONFRAY, A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS E O PENSAR COMO VACINA.





Fui, há cerca de dez anos, uma leitora apaixonada e indignada do livro da psicanalista Élizabeth Roudinesco "Freud: Por que tanto ódio?". À época eu estava muito enfronhada e encantada com a psicanálise, cursava um doutorado na área e pensava, inclusive, na possibilidade de vir a analisar. O livro de Roudinesco era e é uma resposta ao livro do chamado "contra-filósofo" Michel Onfray, fundador da Universidade Popular de Caen, uma espécie de dissidência do estudo da filosofia tradicional. Michel Onfray em seu livro "O Crepúsculo de um ídolo" ataca Freud impiedosamente, à época foi xingado de, "no mínimo" oportunista e, assim, eu também o enxergava.
Passados quase dez anos e muitos livros e muita vida sob o sol e sob os olhos, tenho, hoje, uma outra compreensão de Onfray. Não, necessariamente, no que diz respeito a Freud e quanto a isso, lembro aos meus colegas do Direito o que foram os ataques de Ihering a Savigny, mas quanto à importância da crítica, do questionamento, da subversão no mundo das ideias. Onfray é polêmico, mas necessário, e muito, ao nosso tempo. Em um momento em que as ciências humanas são, elas mesmas, atacadas e desvalorizadas, Onfray propõe uma outra função para a filosofia, não aquela que se restringe apenas a ler e a compreender as problematizações colocadas por Kant, Schopenhauer, Nietzsche, mas aquela de responder às nossas próprias questões, indagações e angústias cotidianas.
Aquela que responde, por exemplo, nesse exato instante à pergunta "Devo ou não sair de casa?", "É melhor voltarmos ou não ao trabalho fora de casa?", "Como enfrentar ou negar a catástrofe?", "O que sou eu nesse momento em meio a essa pandemia?", "Na falta de leitos e de instrumentos, quem deverá ser escolhido para ser salvo?", "Como nos colocar diante das perdas e do luto?", "O que, como ser humano, já estou efetivamente ganhando e efetivamente perdendo?", "Em que medida o que sou transborda diante do outro ou do silêncio?".
Todas essas e mais milhares de perguntas, ainda que algumas sejam respondidas com o esteio nas chamadas ciências "duras", nada mais são do que um exercício filosófico o qual não temos boas condições de enfrentar sem um arcabouço de ideias que atravessam as ciências humanas e a sabedoria humana e as suas fabulações. Não são as ciências exatas que as resolvem. Não são as ciências exatas que nos ajudarão a responder sobre as nossas escolhas entre as práticas que nos levam ao viver ou ao morrer, sobre o nosso espanto diante do que é precário e provisório (nós mesmos), sobre as nossas inquietações existenciais profundas.
E é como instrumento de auxílio no elaborar dessas respostas que Onfray coloca a Filosofia a serviço de todas e todos e não apenas dos acadêmicos do "establishment".

Last but not least, ele, ao fazer uma hermenêutica do livro do "Gênesis"anda dizendo que Eva foi a primeira dos filósofos...