quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

 DESTINO DE MICHELÂNGELO: SER PIETÀ NA VIDA...







O vigor, o brilho renascentista da poetisa Vittoria Colonna, companheira, confidente e interlocutora de Michelângelo não o livrou de, mais uma vez na vida, após a precoce perda de sua mãe, ser o Pietà de uma mulher...
Além de ter velado a amada intermitentemente em seu leito de morte, foi em seus braços e sob as suas lágrimas aflitas que ela deu o seu último suspiro...
LAMENTO pela MORTE de Donna VITTORIA COLONNA
Marquesa de Pescara.
Como é doce para mim dormir o sonho da pedra
O sono profundo é aquele que as estátuas embalam
Quando o século é infame para fechar as pálpebras
Não ver e não sentir tornam-se virtudes
Cale a boca! Não me acorde! Fale baixo...
Quem fala na sala onde a morte cala
Não, não é o escultor imóvel e sonhador
Nem pelo fim de Florença eu sofri tanto
Mulher, eu havia que te ver primeiro, antes
De Michelangelo antes de mim antes do Deus vivo,
Eu tenho ciúmes Dele como tenho ciúmes das flores claras
Que você às vezes misturava ao seu cabelo dourado
Eu chorei muitas vezes na Roma estrangeira
Escola de exílio para o amor separado
O infortúnio pelo qual chorarei amanhã,
Minha Vittoria de olhos fechados que o eterno embeleza,
Você que meus braços nunca irão segurar
Toquei sua mão fria e a tenho em meu coração para sempre,
O arrependimento de não ter ousado tocar na sua testa
0 desejo terrível que nada mais interrompe,
Mulher Colonna na cama em coluna,
Você muda de rosto neste dia angustiante
E a noite das tumbas finais dá a você
As características que dei à capela de San Lorenzo
Para aquela noite que sonha com um mundo diferente.
Amor, você não terá piedade dos meus anos cinzentos
Amor, você não me odeia por muito tempo,
O amor no caixão é amado talvez mais
Nada pode acalmar este pobre velho coração
Ter perdido Vittoria foi ter perdido a minha pátria.
Michelângelo Buonarroti

 E AFINAL, QUEM FOI VITTORIA COLONNA, A MULHER QUE MICHELÂNGELO AMOU?




No alto Renascimento houve uma mulher sensível, culta, fascinante e, a um só tempo, serena e entusiasmada, reconhecida como a mais eminente poetisa do quinhentismo italiano, o seu nome: Vittoria Colonna.
Nascida no seio de uma família principesca no ano de 1492, os seus pais providenciaram para que a pequena nobre recebesse a mais esmerada instrução, tendo sido educada em humanidades e em letras clássicas, além de talhada com as mais altas virtudes morais.
Cresceu no Castelo de Ischia em Napoli que vinha a ser o epicentro da efervescência cultural aragonesa. Aos 16 anos de idade contrai bodas com Francesco Ferrante, Marquês de Pescara, de quem obtém o mesmo título nobiliárquico. Apesar de haver sido um casamento arranjado como sói eram os casamentos da nobreza, Vittoria, agora, Marquesa de Pescara, apaixona-se fervorosamente por seu esposo a quem perde prematuramente em uma batalha.
Uma vez viúva, recolhe-se durante três anos no Convento das Clarissas onde aperfeiçoa os seus estudos teológicos e filosóficos, além de dar continuidade a uma produção poética profícua. Voltando à vida secular, passa a ser uma promotora e irradiadora das letras e das artes. Transforma o Castelo de Ischia em uma corte intelectual refinada, frequentada pelos maiores nomes de seu tempo. A ela, o grande Lodovico Ariosto dedicou versos em sua obra "Orlando, o Furioso", descrevendo-a como "nata fra le vittorie" e enaltecendo-a não apenas como a maior poetisa de seu tempo, mas irmanando-a às mais célebres mulheres da mitologia e da antiguidade.
Trocou poemas com os maiores escritores da Europa dos quinhentos como Pietro Bembo, Iacopo Sanazzaro e o português Sá de Miranda a quem acolheu na Itália por seis anos, sendo celebrada e aclamada por todos eles.
Posteriormente, fugindo da Peste Negra, transfere-se para Roma, estreitando amizade com o Cardeal Bembo e frequentando o Papado. Foi quando, então, conheceu Michelângelo, estando este em torno dos 60 anos de idade e prestes a pintar o Juízo Final na parede do altar da Capela Sistina. Por seu lado, tinha Vittoria Colonna, 46 anos de idade, estando ambos, portanto, no auge da maturidade intelectual e espiritual.
Travaram uma relação intensa, um vínculo forte e de profundo afeto por mais de 10 anos. Finalmente, Michelângelo encontrou aquela com quem podia dividir suas dúvidas e angústias, confessar os seus tormentos, além de compartilhar de seus maiores prazeres como a poesia e a teologia. Na serenidade da Marquesa, acalmava os seus tumultos e sentia-se estimulado por seu brilho intelectual. Se ele era um homem renascentista por excelência, em Vittoria encontrara a sua correspondente no feminino.
Vittoria era a síntese da católica neoplatônica, conjugando o cristianismo com o platonismo, participando ativamente dos debates culturais e teológicos sobre a Reforma e a Contrarreforma da Igreja, nos quais posicionava-se a favor de uma maior abertura e diálogo com as teorias luteranas. Em razão de sua postura emancipatória, a Inquisição preparava um processo no qual a acusava de heresia, estando em franca produção de provas contra a Poetisa.
No entanto, antes que as malhas inquisitoriais a alcançassem, Vittoria Colonna caiu gravemente enferma, recolhendo-se a um Mosteiro.
Após longa agonia, morreu no dia 25 de fevereiro de 1547, nos braços desesperados de Michelângelo Buonarroti. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 "NÃO ESTOU NO LUGAR CERTO - EU NÃO SOU UM PINTOR!"

(MICHELÂNGELO BUONARROTI)




"Já ganhei bócio com esta tortura,
curvado aqui como um gato na Lombardia
(ou em qualquer outro lugar onde há veneno na água estagnada).
Meu estômago está esmagado sob meu queixo,
minha barba está apontando para o céu,
meu cérebro está esmagado em um caixão,
meu peito torce como o de uma harpa.
Minhas pinceladas,
acima de mim, o tempo todo, pingando tinta
então meu rosto dá um bom piso para excrementos!
Minhas ancas estão apertando minhas entranhas,
minha pobre bunda se esforça para funcionar como um contrapeso,
cada gesto que faço é cego e sem objetivo.
Minha pele fica solta abaixo de mim,
minha espinha
toda amarrada de se dobrar sobre si mesma.
Estou tenso como um arco sírio.
Porque estou preso assim, meus pensamentos
são loucas e pérfidas tripas:
qualquer um atira feio através de uma zarabatana torta.
Minha pintura está morta.
Defenda isso para mim, Giovanni, proteja minha honra!
Não estou no lugar certo - Eu não sou um pintor!"
(Carta-poema desesperada de Michelangelo Buonarroti para Giovanni de Pistoia quando o artista estava pintando a abóbada da Capela Sistina em1509).
*
Ilustração: a Punição de Aman - Detalhe da Capela Sistina (Michelângelo Buonarroti)

domingo, 31 de janeiro de 2021

 O PECADO ORIGINAL: A INAUGURAÇÃO DA HUMANIDADE POSSIBILITADA PELA VONTADE DE SABER DO FEMININO.




No início era o paraíso representado pela abundância, pela não necessidade de esforço, pela ociosidade e pelo não saber. A letargia e a malemolência seriam eternas às custas do não conhecer. Adão acatou o estado de ignorância com louvor, mas não Eva. Para ela, todo sacrifício valeria a pena em nome do conhecer, toda dor, precariedade e provisoriedade do ser. Em sua vontade de saber, Eva acatou o desafio da vida e fez face à morte. Assim, a possibilidade humana para o conhecer foi fruto não apenas da mordida de um fruto da árvore proibida, mas do destemor e ousadia do querer saber feminino.
O grande Michelângelo no teto da Capela Sistina enfatiza o projeto do saber humano não apenas protagonizado por uma única figura feminina, mas por duas: a serpente também é uma mulher. A sedução de uma e a curiosidade da outra. As subversões de ambas se tocam.
Uma vez expulsos do paraíso e condenados a inaugurar a humanidade com o trabalho, a dor e o esforço pelo conhecer, na representação de Michelângelo, Adão e Eva não cobrem as suas partes, não há folhas de figueiras nem o pudor das mãos sobre os seus sexos. Afinal, não havia do que sentirem vergonha. E isso, na leitura do Mestre, ao já ter provado do fruto proibido, Eva já sabia.

 E JÁ ESTAVA LÁ NO ANTIGO TESTAMENTO: A PRESCRIÇÃO DA VACINA.




A tradição hebraica entrecruza-se com o paganismo da mitologia grega. Símbolos gregos são recorrentes nas narrativas dos livros que compõem a Bíblia. Se na Mitologia Grega existia Esculápio, aquele que promovia a cura com ervas e antídotos e cujo símbolo é o bastão e a serpente, na Bíblia existe a "serpente" de bronze que, também, simboliza o antídoto e a cura.
Segundo o Antigo Testamento, em meio à PESTE causadora de grande mortandade, Deus ordenou a Moisés que erguesse uma "serpente" de bronze. Aquele que a olhasse sobreviveria ao ataque de mordidas de "serpentes". Moisés obedeceu ao seu Senhor. E foi assim que o "povo de Deus" aplacou a PESTE. Leiamos o que diz as Escrituras Sagradas:
"O Senhor disse a Moisés: "Faça uma serpente e coloque-a no alto de um poste; quem for mordido e olhar para ela viverá".
Moisés fez então uma serpente de bronze e a colocou num poste. Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, permanecia vivo."
Não é forçar a licença poética interpretar que "as mordidas das serpentes" são os ataques de venenos, de patógenos, de vírus e bactérias e a "serpente de bronze" é o seu antídoto, proveniente da própria serpente, mas tornada bronze (inativado).
Ou seja, há mais de 2000 anos, a vacina já estava na Bíblia. E prescrita por Deus.
"
Ilustração: Afresco de Michelângelo no teto da Capela Sistina: a Serpente de Bronze.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

"OS ANOS QUE VIVEMOS EM PERIGO" E COMPELIDOS A PRODUZIRMOS MAIS, MAIS E MAIS...




Do mesmo modo que, ao sermos infectados por um vírus, o nosso organismo se põe a postos e inicia uma campanha de guerra a fim de eliminá-lo, ao sermos ejetados a um mar de morte, no qual somos por ela rodeados por todos os lados, reagimos, automaticamente, com práticas que venham a reafirmar a vida que continua a palpitar em nós.
Alguns se colocam em estado de torpor, o que também é uma reação e a escolha da autopreservação pelo não enfrentamento. Outros, por não suportarem o estado de guerra deflagrado e a sua vulnerabilidade diante dela, nega-a. Muitos lançam-se ao hedonismo em um paradoxo hipercomplexo: Gozar ao máximo o dia de hoje, inobstante (ou a fim de?) gozar, ao máximo, o prazer da morte, logo amanhã.
O que é comum a todos nós, sem exceção, é que se trata do momento de revelamos as nossas estratégias singularíssimas de fazermos face à morte. E uma delas é nos pormos em movimento incessante de produtividade.
Mais do que estarmos em um modelo capitalista, neoliberal, que nos empurra para o consumo e a permanente produção de riquezas, diante do real da morte, pomo-nos em franca atividade com a intenção de produzirmos vida a fim de nos sentirmos vivos. A fim de atestarmos para nós mesmos que a nossa imagem continua a ser refletida diante do espelho, que a vida que circula em nós se sobrepõe à morte que nos fareja.
Uma reafirmação do Dasein, do ser e estar no mundo, heideggeriano, ou mesmo, um campo de luta de forças nietzschiano, no qual pretendemos fazer valer a nossa potência vital, e por quê não, uma clara disputa entre pulsão de vida e pulsão de morte freudiana.
No entanto, como tudo que existe em excesso transborda e sobra, o esforço contínuo pela produção de vida em nós e para fora de nós pode ter um efeito perverso se nos passa a causar angústia, se nesse mar de morte nos sentimos como permanentes náufragos a nadar freneticamente em busca de uma tábua de salvação que nunca vem.
Se ao pararmos para boiar, nos sentirmos como prestes a sucumbir, esse movimento perpétuo, transformado em compulsão, poderá ter o efeito reverso de nos levar à exaustão e à depressão.
O que fazer, então?
Já que ilustrei o fenômeno com a filosofia e a psicanálise, continuando nesses saberes, talvez uma saída-atalho seja a volta aos gregos. A volta a Sócrates e ao seu cuidado de si. A volta aos estoicos e à sua capacidade de contemplação.
Sim, é saudável produzirmos vida para nos sentirmos vivos quando a morte se faz perigo constante. Vida corporificada em produtividade profissional, artística e até na reprodução de um novo ser vivo. É o nosso modo mental de produzirmos anticorpos contra as ameaças à existência.
Mas, também podemos produzir anticorpos e imunidade, fazermos vencer a vida sobre o absurdo da morte, através da reflexão, do sonho, da meditação, das memórias. Podemos produzir vida, também, imersos no nada. E no nada encontrarmos o inesperado.
Ao nos percebermos vivos pela nossa capacidade contemplativa de sentir a vida e enxergar o outro, produzimos uma nova estética para o viver e para o morrer. E podemos reafirmar a existência nossa e o pulsar do mundo ao tocarmos no fundo impossível de nós mesmos.

 OLHAR DE DENTRO, OLHAR DE FORA.




Não conhecia esse belo grafite, de autoria do artista plástico Kbça, desenhado desde 2017 nos muros de uma casa em uma rua próxima da Universidade onde ensino. Adoro arte, gosto de urbanismo, mas não conhecia essa obra que acontece na minha cidade todos os dias. Foi preciso que Mia Couto, que esteve no Recife ou alguém que o represente, lá de Moçambique, se lembrasse dessa arte e divulgasse essa porção de água do rio que corre na minha aldeia para que eu a conhecesse. E, assim, muitas vezes será.
Assim muitas vezes será porque nunca conhecerei a profundidade e todas as margens do rio que passa na minha aldeia. Assim muitas vezes será porque não me vejo em meus próprios olhos, e Narciso pouco deles me ensina diante do espelho. Assim sempre será, porque mais do que se tratar de colonialismos e subalternizações, trata-se de interdependências e do diálogo necessário. Trata-se de ser visto e nomeado pelo outro para nascermos. O tempo atual, no mundo global que construímos, mais do que nunca, nos mostrou o quanto estamos juntos, misturados e intrincados. O quanto o outro, a despeito de nossas vontades, nos afeta e o quanto estamos permanentemente e irrecorrivelmente, a afetar o outro. A despeito de distâncias reais, as proximidades há muito deixaram de ser simbólicas.
Assim muitas vezes será porque eu sou o outro e o outro sou eu. E, não poucas vezes será o outro que virá me contar do rio da minha aldeia. E me falará de suas cores e até mesmo de seus caprichos. E nele me ajudará a mergulhar para nadarmos, juntos.