sábado, 18 de dezembro de 2021

A fábula do Pássaro e do Peixe.


 O PÁSSARO e O PEIXE 


O que vou contar aqui é apenas uma fábula... Uma fábula azul. Uma fábula azul carmim turquesa. Sim, carmim. Porque não há como decantar as gotas de sangue. Mas não, não te contagiarão. Elas estão lá impermeáveis no azul de mim. Então, como eu ia dizendo essa é apenas uma fábula. A fábula do pássaro e do peixe. 


Uma vez era um pássaro, na mesma vez era um peixe. Eles viviam contemplando-se de espaços opostos e intangíveis. O pássaro no céu, o peixe no mar. O pássaro em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o peixe. Mas, se comesse o peixe, o peixe desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo. 


Por sua vez, o peixe, em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o pássaro. Mas, se comesse o pássaro, o pássaro desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo. E assim, olhavam-se, dia após dia, o peixe e o pássaro num mar e céu de desejos. 


O tempo derramava-se entre a escopia e o devoramento. Entre o olhar e a fome. Na escolha entre a distância ou o aniquilamento temperado de solidão. 


Um dia, o pássaro amerrissou. O peixe, trêmulo, apavorado, escorregou por entre as brumas das ondas. O pássaro aproximou-se, o peixe arreganhou a boca e o pássaro deu um salto pra trás, pensando que iria ser, naquele momento, também devorado. 


Até que se olharam mais de perto e depuseram as armas entre asas e barbatanas envergonhadas. Foram achegando-se devagarinho. "Não, não tenha medo, vou lhe ensinar a nadar", disse o peixe, ao que ouviu do pássaro "Não, também não tenha medo, vou ensiná-lo a saltar por sobre as ondas para fugir dos predadores". 


Assim, o peixe e o pássaro, apreenderam o amor em suas vidas e mergulharam num voo azul no mar sem fim.


Andrea Campos

sábado, 27 de novembro de 2021

 ASSIM ERA A CAPELA SISTINA ANTES DAS TINTAS DE MICHELÂNGELO - E parte da minuta do Contrato celebrado entre o Papa e o artista.





No Palácio Papal durante o século XV, o que havia era a Capela Magna que uma vez restaurada pelo Papa SISTO IV, foi renomeada em homenagem ao seu benfeitor de Capela "SISTINA".


Na restauração pretendia-se que a Capela emulasse as dimensões do Templo de Salomão tal como descrito no Antigo Testamento. 


Para a confecção dos afrescos nas paredes laterais foram convidados os grandes mestres da pintura da época, dentre eles, Pietro Perugino, Sandro Botticelli e Domenico Ghirlandaio. Sendo retratados em cada um dos lados da Capela, a vida de Moisés e a vida de Jesus Cristo, contrapondo-se, plasticamente, o Novo ao Velho Testamento.


Quanto ao forro, apenas ali havia representado um céu de esparsas estrelas. Michelângelo Buonarroti, que já atingira gloriosa reputação por ter esculpido a Pietá e o Davi, foi convocado para "ressignificar" o forro com a ideia original proposta pelo Papa Júlio II da pintura dos 12 apóstolos. 


A encomenda agastou Michelângelo, uma vez que o mesmo não se reconhecia como pintor e, sim, como escultor. Sem falar que o artista sentia-se sobremaneira frustrado, já que havia avençado preteritamente com o Papa, a confecção de sua espetacular tumba em mármore, cuja matéria-prima já houvera, pessoalmente, adquirido em Carrara. 


Diz-se que a mudança de projetos do Papa se deveu a uma armadilha tramada pelo invejoso arquiteto Bramante que pretendia desmoralizar Michelângelo e, confiando em seu fracasso na pintura do forro, havia convencido o Papa a insistir na contratação do florentino para a  consecução da obra. 


Entre discussões, brigas e fugas do artista, enfim, o Papa e um contrariado Michelângelo chegaram a um bom termo, tendo sido assinado e registrado o Contrato de Empreitada na promessa de que, chegado ao termo de sua execução, fosse retomada a confecção da Tumba faraônica.


Dos instrumentos contratuais, foi conservado apenas o primeiro recibo como vestígio nos Ricordi:


"... Neste dia 10 de maio em mil quinhentos e oito, eu Michelângelo Buonarroti, escultor, recebi da Santidade de nosso senhor papa Júlio II quinhentos ducados di chamera...por conta da pintura da abóboda da Capela de papa Sisto, para a qual começo hoje a trabalhar nas condições e acordos estipulados em uma escritura feita por monsenhor reverendíssimo de Pavia e subscrita por mim."

Vela e Desvela na Arte





 VELA E DESVELA NA ARTE


 Ao Analisarmos cuidadosamente, as obras "O Nascimento de Vênus" de Sandro Botticelli e a "Criação de Eva" de Michelângelo, embora a primeira seja uma representação da criação de uma mulher segundo a Mitologia Grega e a segunda , de acordo com o Gênesis Bíblico, ambas consideram que a vida é gerada a partir de um sopro.


Na tela de Botticelli, o sopro de vida emanado de Zéfiro confere movimento não apenas à Vênus, mas à toda a tela.


Agora, vos pergunto: A despeito de ter sido o seu corpo engendrado em uma costela de Adão,  como Michelângelo nos diz em seu desenho que a vida em Eva foi animada, também, por um sopro Divino?


Solução do Mistério: 😀


Michelângelo era um apaixonado pela fisiologia humana, tendo feito inúmeras dissecações de cadáveres às escondidas. O corpo humano sempre foi a sua maior inspiração.

Para ilustrar que Eva também foi criada por um sopro Divino, Michelângelo desenha Deus na forma de um pulmão e a árvore que habita a cena, e sobre a qual Adão repousa, nada mais é do que a árvore brônquica...

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

 
Comment on peut séparer
le corps du coeur,
le ciel de la terre,
le poisson de la mer?

Comment on peut séparer
l'heure du temps,
le vert du champs,
le rouge du sang?

Comment on peut séparer
la vie de la mort,
la chance du sort,
la force du fort?

Comment on peut séparer
la nuit du matin,
le but de la fin,
la santé du sain?

Comment on peut séparer
un accord qui résonne,
les femmes des hommes,
mon nom de ton nom?

Andrea Campos


terça-feira, 21 de setembro de 2021

Michelâneas

 Michelâneas - 😀




1

Era Michelângelo um florentino no desabrochar de seus 23 anos de idade quando caiu nas graças de um Cardeal francês que conheceu a sua primeira escultura de maiores dimensões, o "Baco", e que o contratou para esculpir uma Virgem Maria a fim de presenteá-la ao Vaticano. 


Michelângelo, entusiasmado, escolheu ele mesmo as pedras de mármore em Carrara e acompanhou o seu transporte a Roma. Durante esse trajeto, mais uma vez recitou os versos da Comédia de Dante, que os sabia de cor, e encontrou a inspiração para a jovialidade do rosto de sua Virgem "a filha de seu Filho".


Após um ano de esmerado e dedicado trabalho, apresentou o seu entalhamento para deslumbramento tanto dos daqueles tempos como dos de agora que a consideram a mais bela e perfeita obra-prima jamais esculpida.


Estando a Pietá recém-concluída, Michelângelo escutou um forasteiro afirmar que havia sido ele o escultor de tão magna-opera. O florentino não teve dúvidas, adentrou o Vaticano na calada da noite e escreveu na cinta sobre o torso da Virgem: "Foi Michelângelo Buonarroti, Florentino, quem a 

Fez".


Uma vez que não havia tradição de autoria das obras de arte, mormente na Idade Média, quando os artistas tanto não assinavam as suas obras, como eram considerados meros artífices, pode-se dizer que o Renascentista Michelângelo não apenas foi o patrono dos Direitos Autorais quanto foi a partir dele que nasceu o Artista Moderno.


Sim, foi Michelângelo quem tornou a pedra mais divina do que a carne, o Artista imortal  e a sua obra infinita...

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

A volta do filho pródigo (Rembrandt)

 A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO COMO A VOLTA DO EU PARA SI MESMO.


Somos todos pais e filhos de si mesmos. Sujeito-objeto e objeto-sujeito de uma mesma relação que nos atravessa na medida em que nos construímos. 


Criadores e criaturas de uma subjetividade, de um estar no mundo. E quantas vezes o nosso eu-pai e o nosso eu-filho se despregam, abandonam-se, cindem-se como no mito do andrógino e vagueiam em orfandade.  Um eu-filho órfão de si mesmo. 


O eu pródigo é aquele que se desterrou de seu logos, que se desviou de sua verdade. A volta para si mesmo é caminho árduo, porque nosso si mesmo pode ser impiedoso e o nosso eu, intransigente. E podem não suportar olharem-se nos olhos. Mas ao apreenderem a palavra "amor" e ao soletrarem-na em todas as suas letras,  serão acolhidos no abraço infinito. 


É também sobre autoperdão e  autoaceitação que fala a volta do filho pródigo.


*

Tela: "A Volta do Filho Pródigo" de Rembrandt.

domingo, 1 de agosto de 2021

 O belo desenho de Michelângelo ofertado a Tommaso Cavalieri: O Rapto de Ganimedes.




Sempre achei muito complexo e delicado etiquetarmos uma pessoa segundo o que ela nos parece, sexualmente, desejar. Inclusive, sou contra esses etiquetamentos: o que existem são pessoas e seus desejos e fantasias íntimas. Para além disso, nada mais há a ser dito ou considerado, uma vez que a plasticidade e a singularidade do desejo em cada um faz parte da condição humana.
Mas, já que a era vitoriana inventou o termo "homossexualidade", e esse mesmo século XIX ordenou um modelo de família nuclear e heteronormativo a sustentar o capitalismo, sigo as lições de Nancy Friday que diz que apenas se refere a alguém como hetero, homo, bi, trans, se essa pessoa afirma, ela mesma, que assim o é. E apenas temos a lamentar que ao fazê-lo, e assumir o seu desejo, fora dos padrões da "petite bourgeoisie", tenha a sua existência e a sua paz postas em risco.
Espero que cheguemos ao dia no qual o amor, o desejo e o sonho de uma pessoa diga respeito tão somente a ela mesma, assim como há os que preferem os dias brancos aos dias azuis, os que gostam de dias cinzas e os que preteririam todas as cores dos dias à luz das estrelas.
Ao final de tudo, que aquele que amou tenha sido amado e aquele que foi capaz de transbordar o seu desejo, que tenha com o seu amor bem sonhado.
É só o que importa às nossas curtas vidas: A capacidade de conjugar o verbo amar no infinitivo e de desejar transitivamente. Ou, quem sabe, "dormir, talvez"
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