segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Tempo in-verso


 E iniciei este ano 

Com o tempo in-verso, 

Tempo in-verso

É aquele no qual

Se passa o tempo

Em poema imerso, 

Engolindo rimas 

Junto ao pó da estrada...

Aonde esse tempo leva?

Nonada.


Mas se a vida assim vivida 

A só e a pó não basta, 

Tempo in-verso 

De mim não se afasta, 


Nonada fica o  dito 

Pelo não dito, 

Tempo in-verso, 

Esse Teu 

Meu infinito.


Andrea Campos

*

Photo: Nathalie Roze.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Nicolas Poussin

"Uma Dança para a Música do Tempo" de Nicolas Poussin.


Ao som dos acordes do Pai Tempo que se faz acompanhar de uma criança a verter uma ampulheta, a Riqueza, a Pobreza, o Trabalho e o Ócio bailam de mãos dadas mimetizando a Roda da Fortuna. 


Atento ao instante, à esquerda da tela, o deus Jano, regente do mês de Janeiro, posta as suas duas faces sobre um pilar de pedra. A sua face jovem mira o futuro; a sua face antiga contempla  o passado. Os romanos rogavam a Jano pelas bênçãos para cada novo ciclo, para cada nova etapa e para cada novo Projeto. 


Aos pés de Jano, distraidamente, um menino sopra bolhas que rebrilham e logo se dissolvem no ar, anunciando a brevidade da vida.


Sobrevoando a cena, desliza a carruagem do deus Apolo, tendo as bailarinas Horas em seu séquito.


Como sua Abre-Alas, Aurora, a deusa do amanhecer, vai descortinando as manhãs e varrendo dos caminhos as sombras das noites. Com mãos altivas e generosas tapeteia o destino humano com pétalas de rosa.


Por fim, o deus Apolo sustenta um círculo em seus  braços, a anunciar que a humana fugacidade não é nada mais que um passo de dança a compor o balé da Eternidade.

Sabine Weiss


Se foi a fotógrafa francesa Sabine Weiss... Tão imensa quanto Doisneau e Cartier-Bresson, mas, bem menos conhecida.


Fotógrafa prolífica da geração "humanista" dos fotógrafos franceses, geração daqueles que capturavam os instantâneos das ruas, da vida esplendorosamente crua com maestria e, sobretudo, com sensibilidade e Poesia.


Sabine, em sua generosidade, afirmava nunca ter sofrido discriminação por ser uma mulher no mundo da fotografia. Não uma mulher diante das lentes, mas por detrás delas. Não uma mulher objeto de um olhar, mas uma mulher que é sujeito do olhar do desejo.


Esta fotografia aqui postada, de autoria de Sabine Weiss, bem que registra e revela a mulher que ela foi: Uma menina deslizando por sobre um brinquedo masculino, um carrinho de rolimã, na alegria de traçar com o próprio olhar, o seu destino...


Grata pelo que você sempre será, Sabine.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

 Dulcinéia



Ser quixotesca, burlesca, 

bailar em moinhos de vento. 

Enxergar o mundo à altura

do Cavaleiro da Triste Figura.


Desenroupar-me de pensamento, 

ser só picaresca, nenhum lamento,

reinar em vendas como

em castelos,

fazer-me ouro com os meus

farelos,


Transformar delitos

em só justiça,

todos os desditos 

em sagrados ritos,

os laivos do verdugo

em contra-dança,


Da terra malferida 

sacar a lança

e fazer do sangue 

a esperança.


Ter Sancho em mim 

num só caminho. 

Pois ninguém se é

se é sozinho.


Esporar a casca 

de Rocinante

num destemor

de cavaleiro andante,

desvalindo torres

e qualquer

gigante.


E quando 

arriasse a noite 

com seu açoite

e da batalha eu só

colhesse o nada,


ser só Dulcineia

a senhora amada,

a que por só desejo

é trespassada.


Assim vou pintando 

de passo em sonho

as tintas do belo 

no real medonho,

remetendo ao prelo

essa tão formosa prancha

onde a carne do mundo 

tem a alma sem Mancha.


Andrea Campos

sábado, 18 de dezembro de 2021

A fábula do Pássaro e do Peixe.


 O PÁSSARO e O PEIXE 


O que vou contar aqui é apenas uma fábula... Uma fábula azul. Uma fábula azul carmim turquesa. Sim, carmim. Porque não há como decantar as gotas de sangue. Mas não, não te contagiarão. Elas estão lá impermeáveis no azul de mim. Então, como eu ia dizendo essa é apenas uma fábula. A fábula do pássaro e do peixe. 


Uma vez era um pássaro, na mesma vez era um peixe. Eles viviam contemplando-se de espaços opostos e intangíveis. O pássaro no céu, o peixe no mar. O pássaro em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o peixe. Mas, se comesse o peixe, o peixe desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo. 


Por sua vez, o peixe, em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o pássaro. Mas, se comesse o pássaro, o pássaro desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo. E assim, olhavam-se, dia após dia, o peixe e o pássaro num mar e céu de desejos. 


O tempo derramava-se entre a escopia e o devoramento. Entre o olhar e a fome. Na escolha entre a distância ou o aniquilamento temperado de solidão. 


Um dia, o pássaro amerrissou. O peixe, trêmulo, apavorado, escorregou por entre as brumas das ondas. O pássaro aproximou-se, o peixe arreganhou a boca e o pássaro deu um salto pra trás, pensando que iria ser, naquele momento, também devorado. 


Até que se olharam mais de perto e depuseram as armas entre asas e barbatanas envergonhadas. Foram achegando-se devagarinho. "Não, não tenha medo, vou lhe ensinar a nadar", disse o peixe, ao que ouviu do pássaro "Não, também não tenha medo, vou ensiná-lo a saltar por sobre as ondas para fugir dos predadores". 


Assim, o peixe e o pássaro, apreenderam o amor em suas vidas e mergulharam num voo azul no mar sem fim.


Andrea Campos

sábado, 27 de novembro de 2021

 ASSIM ERA A CAPELA SISTINA ANTES DAS TINTAS DE MICHELÂNGELO - E parte da minuta do Contrato celebrado entre o Papa e o artista.





No Palácio Papal durante o século XV, o que havia era a Capela Magna que uma vez restaurada pelo Papa SISTO IV, foi renomeada em homenagem ao seu benfeitor de Capela "SISTINA".


Na restauração pretendia-se que a Capela emulasse as dimensões do Templo de Salomão tal como descrito no Antigo Testamento. 


Para a confecção dos afrescos nas paredes laterais foram convidados os grandes mestres da pintura da época, dentre eles, Pietro Perugino, Sandro Botticelli e Domenico Ghirlandaio. Sendo retratados em cada um dos lados da Capela, a vida de Moisés e a vida de Jesus Cristo, contrapondo-se, plasticamente, o Novo ao Velho Testamento.


Quanto ao forro, apenas ali havia representado um céu de esparsas estrelas. Michelângelo Buonarroti, que já atingira gloriosa reputação por ter esculpido a Pietá e o Davi, foi convocado para "ressignificar" o forro com a ideia original proposta pelo Papa Júlio II da pintura dos 12 apóstolos. 


A encomenda agastou Michelângelo, uma vez que o mesmo não se reconhecia como pintor e, sim, como escultor. Sem falar que o artista sentia-se sobremaneira frustrado, já que havia avençado preteritamente com o Papa, a confecção de sua espetacular tumba em mármore, cuja matéria-prima já houvera, pessoalmente, adquirido em Carrara. 


Diz-se que a mudança de projetos do Papa se deveu a uma armadilha tramada pelo invejoso arquiteto Bramante que pretendia desmoralizar Michelângelo e, confiando em seu fracasso na pintura do forro, havia convencido o Papa a insistir na contratação do florentino para a  consecução da obra. 


Entre discussões, brigas e fugas do artista, enfim, o Papa e um contrariado Michelângelo chegaram a um bom termo, tendo sido assinado e registrado o Contrato de Empreitada na promessa de que, chegado ao termo de sua execução, fosse retomada a confecção da Tumba faraônica.


Dos instrumentos contratuais, foi conservado apenas o primeiro recibo como vestígio nos Ricordi:


"... Neste dia 10 de maio em mil quinhentos e oito, eu Michelângelo Buonarroti, escultor, recebi da Santidade de nosso senhor papa Júlio II quinhentos ducados di chamera...por conta da pintura da abóboda da Capela de papa Sisto, para a qual começo hoje a trabalhar nas condições e acordos estipulados em uma escritura feita por monsenhor reverendíssimo de Pavia e subscrita por mim."

Vela e Desvela na Arte





 VELA E DESVELA NA ARTE


 Ao Analisarmos cuidadosamente, as obras "O Nascimento de Vênus" de Sandro Botticelli e a "Criação de Eva" de Michelângelo, embora a primeira seja uma representação da criação de uma mulher segundo a Mitologia Grega e a segunda , de acordo com o Gênesis Bíblico, ambas consideram que a vida é gerada a partir de um sopro.


Na tela de Botticelli, o sopro de vida emanado de Zéfiro confere movimento não apenas à Vênus, mas à toda a tela.


Agora, vos pergunto: A despeito de ter sido o seu corpo engendrado em uma costela de Adão,  como Michelângelo nos diz em seu desenho que a vida em Eva foi animada, também, por um sopro Divino?


Solução do Mistério: 😀


Michelângelo era um apaixonado pela fisiologia humana, tendo feito inúmeras dissecações de cadáveres às escondidas. O corpo humano sempre foi a sua maior inspiração.

Para ilustrar que Eva também foi criada por um sopro Divino, Michelângelo desenha Deus na forma de um pulmão e a árvore que habita a cena, e sobre a qual Adão repousa, nada mais é do que a árvore brônquica...