quarta-feira, 22 de abril de 2015

Vincent Van Gogh e o amor. São poucas as telas, ao menos que eu conheça, nas quais Van Gogh retrata o amor romântico. De sua vida conhece-se mais os seus dois principais amores: a sua prima Kee, viúva e mãe de um menininho e a combalida prostituta Sien. Sien já tinha uma filha e estava à espera de um outro bebê quando se conheceram. Passaram a viver maritalmente, tendo ela se afastado da "lida". Sobre Sien, Vincent escreve "para mim ela era bonita, e encontrava nela todas as coisas de que precisava; a vida foi-lhe adversa e ela ficou marcada pelo sofrimento e desgraça. Se a terra não for arada, nada lá poderá crescer. Ela foi arada - e por essa razão encontrei mais coisas nela do que num monte por arar"(Carta R8). Vincent foi feliz com Sien até serem separados por sua própria condição de miséria o que levou Sien a voltar à difícil vida fácil. Mas, nos quadros, e talvez, também em seu coração, o amor em Van Gogh é terno. Eterno.


Retrato de Sien

terça-feira, 21 de abril de 2015

18. 


Aqui te amo.
Nos obscuros pinheiros se desenlaça o vento,
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Andam dias iguais perseguindo-se.

Vincent

A névoa se desenha em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se descola do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e até minh'alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Este é um porto.

Aqui te amo.

Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou te amando ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nestes barcos graves,
que correm pelo mar até aonde não chegam.


Já me creio esquecido como essas velhas âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida,  faminta inutilmente.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepúsculos.
Mas a noite chega e canta para mim.
A lua faz girar sua roda de sonho.


Me olham com teus olhos as estrelas maiores.
E ainda porque te amo, os pinheiros, no vento
querem cantar teu nome com suas folhas de cobre.


Pablo Neruda in "20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"
En rêvant. En désirant. En demandant. En écoutant. En se souvenant. En attendant. Rien.
Édouard Manet

segunda-feira, 20 de abril de 2015

                        Néctar

Do amálgama da vida não bebi o néctar,
Cecelia Webber
De toda mistura só a parte que infecta,
Sempre soube que havia outras, as escolhas,
Mas, de toda a árvore, só fiquei com as folhas.

Os frutos não eram de meu merecimento,
De sua essência apenas sorvi a espuma
Para fenecer e esvair-me com a bruma
E em meu solo só brotar esquecimento.

Ensaiei violinos em tardes outonais,
Descobri das auroras todos os segredos,
Porém, conseguir deixar-me bem viver, jamais.

Logo, segui com as mãos esguias e tão finas,
Apesar de ter o cálice entre os meus dedos,
Espalhando gotas de néctar nas esquinas.

Andrea Campos
Um soneto inacabado de Fernando Pessoa:

"Ah, se soubesses com que magoa eu uso
este terror de amar-te, sem poder
Nem dizer-te que te amo, de confuso,
De tão senti-lo, nem o amor perder.

Se soubesses com que ódio a não saber
Falar-te do que quero, me escuso..."


O querido José Paulo Cavalcanti Filho, advogado e autor do delicioso "Fernando Pessoa - uma quase autobiografia" nos diz que, estando em Lisboa, viu o fantasma de Pessoa andando pelas ruas, seguiu-o tanto que ele saiu correndo. Ao retornar ao hotel, encontrou esse soneto inacabado de Pessoa sobre a mesa. Entendeu isso como um recado e o finalizou. No dia seguinte, ao acordar, mistério! Ao lado do texto adicionado estava escrito "Não. Não. Não. Não." Perguntou a sua esposa se havia sido ela quem havia escrito as negativas. "Claro que não!" foi a resposta de dona Maria Lectícia.

Acredito em fantasmas e concordo com Pessoa, muitas vezes o destino do inacabado é ser, para sempre, inacabável...

domingo, 19 de abril de 2015

Albert Eckhout, o grande pintor holandês que veio a Pernambuco na comitiva de Maurício de Nassau para retratar os índios, a flora e a fauna brasileiras em meados do século XVII.




Índia Arco-Verde: A Matriarca do Povo Pernambucano que os pernambucanos não conhecem e uma das Mães do Povo Brasileiro.


O que fizemos contra os índios no Brasil foi um verdadeiro genocídio. Mas, no dia de hoje, no qual comemoramos o "Dia do Ìndio", vamos lembrar das índias que possibilitaram que os portugueses e os índios estabelecessem a "paz" e o país fosse colonizado. Em São Paulo, na Capitania de São Vicente, tivemos a índia Bartira. Como pernambucana falarei sobre a índia Arco-Verde. Ambas são consideradas umas das "mães do povo brasileiro", infelizmente, pouco lembradas. Mas com a minha flecha que nunca negará meus ancestrais, lanço, aqui a sua presença.




Albert Eckhout















Quando o donatário Duarte Coelho veio para Pernambuco em inícios do séc. XVI, trouxe consigo a sua esposa e o seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque. Grande parte do território da Capitania de Pernambuco, cujo nome, inclusive é indígena e significa "cova do mar" em razão dos arrecifes,  era ocupada pelos índios Caetés. Esses índios eram guerreiros, estrategistas e, dificilmente, abririam mão de suas terras. Dominar Pernambuco significava, então, vencer os Caetés. Fez-se a luta, estando o lado português liderado por Jerônimo de Albuquerque. Os portugueses perderam, Jerônimo foi capturado e preso para ser devorado pelos Caetés, que eram canibais, no dia seguinte. Ocorre que o fato de serem canibais não os faziam menos gentis e a última gentileza feita pelos Caetés ao prisioneiro, às vésperas de ser devorado, foi oferecer-lhe uma índia da tribo para que com ele passasse a noite. Foi-lhe, então, oferecida a filha do cacique, a índia Tabira, chamada de "Arco-Verde". Mas  coração de índio quando não se enterra na curva de um rio, apaixona-se. E Arco-Verde apaixonou-se ardentemente pelo prisioneiro. Na manhã seguinte à noite de amor, pediu clemência ao seu pai cacique, para que poupasse a vida do homem branco, o que foi feito. Arco-Verde uniu-se a Jerônimo, fez-se a paz entre os portugueses e os Caetés e Duarte Coelho pôde, enfim, colonizar a capitania. Arco-Verde e Jerônimo tiveram oito filhos, todos ascendentes das atuais e numerosas famílias Cavalcanti, Albuquerque e Arcoverde. Depois Jerônimo abandonou a índia que lhe salvou a vida a fim de se casar com uma nobre portuguesa.