quinta-feira, 16 de julho de 2015

As questões plásticas e formais são tão inerentes à escultura que Hegel negou-lhe a possibilidade de revelar qualquer interioridade. Talvez, Hegel não estivesse tão atento a Michelângelo: "Parla, Moises! Parla!"

Michelângelo seria um escultor intimista, dionisíaco com aspectos góticos. Não se trata de um simples retorno aos gregos. Poderíamos falar em retorno apenas no que cinge ao humanismo. Michelângelo faz a grande revolução, na qual teve, muito posteriormente, por discípulo, Rodin, ao não retirar seus modelos ao tempo psicológico, o que, absolutamente, não fazia a escultura clássica grega. E parece que Hegel limita-se aos gregos em sua análise...




O "Moisés" de Michelângelo

quarta-feira, 15 de julho de 2015

                                                            Lifetime


"Vanitas vanitatum et omnia vanitas". Eclesiastes




Caravaggio





George de La Tour




Steenwyck

Nicolas Poussin



Obra de arte é sinônimo de beleza?


Entendendo-se por beleza tudo aquilo que nos é agradável aos sentidos? Ou no sentido de beleza na arte estaria incluído tudo aquilo que nos comove, nos move e nos conduz ao humano absoluto?




Bosch


Leonardo da Vinci


Caravaggio


Goya




Caravaggio


Caravaggio

Cézanne

Picasso

Cézanne

Van Gogh

Lucian Freud
Edvard Munch

Não, ele não apenas pintava a Gioconda e as Madonnas... Leonardo da Vinci

domingo, 12 de julho de 2015

Dr. Gachet, para além do Colorido na Melancolia.

"Creio que não podemos contar com Dr. Gachet pra coisa alguma. Acho que está mais doente do que eu."

Vincent Van Gogh em "Cartas a Theo".

Essa afirmação de Van Gogh me emociona particularmente. Ela demonstra tamanha lucidez e perspicácia, beirando ao bom humor  de um paciente diante de sua enfermidade e de seu médico, que chega a ser estapafúrdio acreditar que Van Gogh se suicidaria dali a  poucas semanas...

Paul Ferdinand Gachet era um médico psiquiatra especialista em melancolia. Ele próprio um melancólico. Amante das artes, era, também, um pintor amador que assinava suas telas com o pseudônimo "Paul van Ryssel". Gachet foi médico e amigo de muitos dos pintores impressionistas, dando-lhes apoio efetivo e afetivo. Pissarro, Renoir, Manet, Cézanne e Van Gogh foram alguns dos agraciados com a sua amizade e incentivos.

Apesar de ter feito a sua formação em Paris onde mantinha a sua clínica, Gachet estabeleceu-se em Auvers-sur-Oise, para onde foram morar Cézanne a fim de ficar mais próximo do médico e amigo e Van Gogh, a fim de enfrentar o que foi o seu derradeiro tratamento médico. Os pintores, frequentemente,  utilizavam-no como modelo, assim como pintavam a sua casa, o seu jardim e a sua família. Dos pintores, Gachet fez, que eu saiba, apenas um retrato: o de Van Gogh. Morto...

Viveu 81 anos pra além das tintas e da melancolia.


"Retrato de Dr. Gachet" - Vincent Van Gogh

"Dr. Gachet" - Norbert Goeneutte

"Dr. Gachet" - Émile Bernard

"A Casa de Dr. Gachet" - Cézanne

"Gravura de Dr. Gachet" - Vincent Van Gogh

"Dr. Gachet" - Armand Gautier

"Os jardins da casa de Dr. Gachet" - Vincent Van Gogh

"Senhorita Gachet ao piano" - Vincent Van Gogh

"Marguerite Gachet no jardim" - Vincent van Gogh


http://diretodeparis.com/a-maison-do-doutor-gachet-em-auvers-sur-oise/

sábado, 11 de julho de 2015



Um diálogo imaginário entre aquela que é feliz, mesmo na infelicidade do amor e aquela que é infeliz, mesmo na felicidade do amor. Clarice Lispector e Louise Andreas-Salomé sentam-se para um chá e conversam... Eu entro no meio...




Salomé: - Não é sem razão que se diz que todo o amor dá felicidade, incluindo o amor infeliz. É preciso apreciar a validade desse princípio sem a menor concessão ao sentimentalismo, sem ter o mínimo que seja em conta o objeto amado, considerando simples e exclusivamente a felicidade de amar em si, que na sua exaltação solene, acende em nós, até ao mais secreto recanto da nossa alma, cem mil círios, cuja luz faz desaparecer por completo todas as coisas reais e exteriores.

Clarice: - Estou sofrendo de amor feliz. Só aparentemente é que isso é contraditório. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. É como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade não dure. Preciso ser livre - não aguento a escravidão do amor grande, o amor não me prende tanto. Não posso me submeter à pressão do mais forte.

Eu: -Tudo o que vocês dizem regurgita em mim. Broto de uma pedra e me quero ser flor. Mas, no máximo, sou pétala empedernida e só o que sinto é a embriaguez de um cheiro vazio. Vocês falam de felicidade e infelicidade. Ambas palavras me escapam. Ser feliz ou infeliz é um verbo inconjugável. Seus tempos são sempre imperfeitos, seus sentidos, um subjuntivo sem futuro. Só o amor me é inescapável. E eu sempre escapo...

Clarice: - Eu venho de uma loga saudade. [...] Dor? Alegria? Só é simplesmente questão de opinião.

Salomé: - Amar é conhecer alguém cuja coloração deve revestir todas as coisas antes delas  nos alcançarem, que deixam de ser estranhas e aterradoras, ou vazias e frias, e que pelo contrário, tal como animais ferozes no Paraíso, se deitam, domadas, aos pés da vida.

(Silêncios...)

Eu: - Contraio-me e dilato-me... Sou monocórdica e distônica... O amor é esse sanguíneo arrevesado. Esse encardido encarnado que me recobre. Só não sei se quando vivo, grita morto, se quando morto, grita vivo. Feliz ou infeliz, o amor é sempre vermelho...

Clarice: - Oh não quero mais me expressar por palavras: quero por "beijo-te".

E voltamos a saborear o chá.



As falas de Clarice Lispector foram retiradas do livro "Um sopro de vida" e as de Louise Andreas-Salomé, do livro "Eros".

As posições das duas escritoras fingem ser antitéticas, mas se encontram em suas finalidades. Ambas são como um zéfiro que sopram a nossa existência, nos dão a cal de nossa singularidade. Ser feliz no amor infeliz ou ser infeliz no amor feliz é o que nos faz sentir vivos e nos presenteia um lugar no mundo.
Diálogos com Camille Claudel.





"Valsa: (...) coitado de quem pôs sua esperança nas praias fora do mundo... - os ares fogem, viram-se as águas, mesmo as pedras, com o tempo, mudam". Cecília Meireles



"Eu perdi de vista o meu destino. Meu pedido nunca se esgota. Eu peço. O que peço? Isto: a possibilidade de eternamente pedir". Clarice Lispector


"As Ondas: (...)  Por isso parto, hesitante, mas altivo; sentindo uma dor intolerável, mas seguro que vou triunfar nessa aventura após tanto sofrimento, seguro - quero crer - de que no fim descobrirei o objeto de meu desejo". Virgínia Woolf





"O inimigo de um amor nunca vem de fora, não é homem ou mulher, é o que falta em nós mesmos". Anais Nin



Pour Camille (Claudel)

                     Andrea Campos


O êxtase dissecou teus olhos
maculando sonhos impermeáveis,
enquanto o branco em tua pele
mentiu o negror das noites
mal dormidas, 
a tua carne de vidro 
em repouso de espera 
sobre os cacos.

Anjo de asas multifásicas,
descortinas em teu frescor
a angústia que se desprende
e se perpetua como o teu cheiro,
perfume volátil e resistente
a desafiar o inodoro dos dias.

Acordam em teu rosto
réstias perenes de gozo
mescladas à tristeza
de uma onça
após o cio defraudado.

Fêmea, femme, feminae,
na essência, absoluta.
Nas esculturas de tua dor,
encontro as sombras
de um amor lapidado,

Curvas onde a Mulher
se reconhece e derrapa 
no princípio feminino
sem meio e sem fim.

O todo universal
no bronze inefável.


In "Olhos sobre Tela", Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2002.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Erotismo e a Arte (Trechos)

Por Louise Andreas-Salomé



Francis Bacon


Percebemos de um modo muito mais nítido o que são os estímulos fundamentais, os verdadeiros estímulos do erotismo, quando os comparamos com outros processos através dos quais a imaginação se exprime, em particular com os da criação artística. Estamos nesse caso em presença de um parentesco profundo, quase se poderia dizer de um parentesco de sangue, pois, no acto do artista, entram em acção e emergem, sob as forças individualmente adquiridas, forças arcaicas de uma apaixonada emoção. Ambos os casos integram misteriosas sínteses do passado e do presente, o que constitui a experiência fundamental, e nos dois casos existe a embriaguez da sua interacção secreta. Nestas obscuras regiões de fronteira, pouco ou quase nada ainda está sendo estudado sobre o papel que pode desempenhar, num caso como no outro, o plasma germinativo; mas como o instinto de criação estética e o instinto sexual apresentam analogias tão extensas que o êxtase estético desliza insensivelmente em êxtase erótico e este tenta voluntariamente dotar-se de adorno estético - ou talvez este tenha revestido directamente a animalidade, tendo o corpo como matéria de criação - tais factos parecem demonstrar um crescimento geminado a partir da mesma raiz.

(...)

É por isso que se pode dizer que o amor e a criação têm as mesmas raízes: em toda a criação a obra jorra viva de amor todo poderoso que o objecto provoca, das transbordantes delícias que nele são encontradas; é um acto de amor em seu sentido mais profundo; e do mesmo modo, todo o amor é acto criativo autónomo, volúpia de criar, iniciada pelo ser humano que se ama, mas empreendida por amor de quem ama e não por amor a quem se ama...

In EROS, (trechos das págs. 62 e 104), Lisboa: Relógio d'Água, 1990.