sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

                                    Nós e o Tempo
                                                   Andrea Campos




Procurei decifrar a linguagem do tempo e encontrei as suas pegadas por detrás de teus olhos. Persegui-as. Fazia tempo, e o tempo é inaudito, que eu caçava estrelas entre bancos de areia e consumia vento pincelando na pele, espumas. Porque fui uma com a imensidão do mar e sobre mim apenas cabia um vestido de tiras de sol. Vem, puxa essa alça de luz que se interpõe entre nós e anoite. Deixa o farfalhar de teu pelo se esfregar no meu, inaugurando o dia. Fala em mim o teu silêncio no esmorecer da tarde. E se o tempo foi em nós indecifrável é porque decifrá-lo já não nos convinha.

O que é o tempo se só existe o tempo se a tua mão se deita enlaçada à minha?




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Perdoem-me o mau poema triste...


Estou cansada
e arrasto em mim
o peso do delírio
carcomido.

Sonhos pútridos,
velas acesas
esquadrinham desejos
carpindo memória.

Estou cansada
e recolho as poças
d'água que sangram
de minh'alma.

A hora me esmaga
e me esgarço
contra a parede
do tempo.

Tertúlias mortas,
begônias esquecidas
ensaiam o acorde
final.

Estou cansada
e entre os que creem
e os que não creem
sequer os deuses me veem
no instante do golpe fatal.

Andrea Campos

Arantza Sestayo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ton Corps
             Andrea Campos

Ton corps est une ville
de mille maisons
où je cherche
mon destin perdu.

Mon passé est une rue 
interdite,
Mais s'il y a une route
vers l'avenir,
dans cette direction
c'est écrit ton nom.

Je me mouille
sous les fontaines
qui dansent
sur les jardins
de ta peau.

Elles sont de Trevi,
elles sont de Fredda,
elles sont ta langue
suçant ma langue,
ainsi je parle
le langage du monde
(dans ton corps il y a
un fleuve
où je plonge
le plus profond).

Un mélange
de paysage,
toi dans moi,
moi dans toi.

Ton corps est une ville
qui ne finit pas.


James Jean

terça-feira, 8 de dezembro de 2015






Um dos quatro poemas com os quais participo da Agenda "Erosário 2016" da Editora Silkskin de Lisboa, Portugal.






Dorso erétil,
olhos túrgidos,
pálpebras
deslizantes,
hálito que tomba
fase a fase...

Só as santas
vão ao êxtase
com lábios róseos
de gaze...

Andrea Campos



Santa Teresa D'Ávila de Bernini

Maria Madalena de Caravaggio


"sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims."


Trecho final de Ulysses de James Joyce






Kiyo Murakami





segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Enlevada em nostalgia pelo conto "Banhos de Mar" de Clarice Lispector, faço uma arqueologia de minha infância e dos veraneios que passava com a minha família nas praias nos arredores de Olinda. Tateio na minha estante o meu primeiro manuscrito com meus poemas e versos.  Num desses veraneios, apaixonei-me e, aos onze anos, escrevi o meu primeiro poema de amor. Transcrevo-o aqui, incluindo tudo, inclusive a saudade oceânica e os erros de grafia...


                                     Fascínio
                                                                           


"Embaixo dos coqueiros brandos,
pude enxergar teus olhos brilhando
e embaixo das águas do mar
pude contigo começar á sonhar."

"Ouro! Sim, assim podia enxergar teus
cabelos, dourados, dourados
como o sol á brilhar."

"Teus olhos pareciam amêndoas,
amêndoas jogadas do céu
que, quando penetravam em meus olhos,
deles caíam mel!"

"A tua voz era o encanto,
o encanto dos pássaros á cantar,
pois a tua voz com á do rouxinol
podia se comparar."

"Tua pele me fascina como as noites
de luar,
e meus olhos te rodeiam como barcos
á te navegar."

"Porém, um dia, partiste e
senti um vazio á me ocupar,
os meus olhos por ti lagrimejaram
e todos os teus sentidos me encantaram.
Mas me sinto contente por poder
por tí:

             Me encantar!
             Por tí lagrimejar,
             E por fim...
                                 "Por tí me fascinar!"


             Andrea Campos