quarta-feira, 27 de maio de 2020


PRESIDENCIALISMO LATINOAMERICANO: JOAQUIM NABUCO JÁ HAVIA "AVISADO"…






Nesses dias em meio a essa Pandemia, na qual a cada minuto constatamos que a estatura dos homens que exercem o poder em terras Tupiniquins são dignas de Lilliput, ainda bem que tenho tido a companhia de Joaquim Nabuco.
O fato é que temos um problema e um problema que atravessa não apenas o atual mandato presidencial, mas, ao menos, três deles após a redemocratização: O nosso Sistema Presidencialista. O nosso modelo de presidencialismo e a forma como nele se articulam os três poderes e a vontade popular que, por princípio, deve ser sempre soberana.
De forma exaustiva temos acompanhado a permanente digladiação entre os poderes, além de termos sofrido dois traumáticos processos de impeachment. Sim, um processo de impeachment é sempre traumático, uma vez que, necessariamente, envolve a eventual prática de crimes cometidos pelo Chefe do Executivo. A nossa cultura política é alimentada por uma espécie de sebastianismo messiânico no qual se o nosso dirigente maior não dispuser de uma concentração de poderes e de um caráter de inamovibilidade durante o seu mandato, o nosso sentimento de segurança política não se sustenta. Forjados em uma história de raiz fortemente patriarcal, é-nos difícil aceitar um chefe que não seja um pai, um salvador, um "político de estimação" ao qual, nós, seus eleitores vassalos não lhe devamos absoluta concordância, lealdade e fidelidade.
Mas, como eu ia dizendo, Nabuco já havia "avisado" e olha que não gosto muito dessa expressão, acho-a arrogante. Utilizo-me dela por ser a da moda e porque aqui não se trata de uma eventual vaidade nabuquiana de sobrepor-se sobre os demais e menoscabá-los com a sua capacidade profética, mas de uma leitura que nos faz corroborar com os estudos e as avaliações daquele que nos deixou há mais de um século.
Em seu belo livro "Minha Formação", Nabuco, afirmando a influência recebida por seu espírito pelo pensamento de Bagehot, sustenta o seu convencimento de que o modelo presidencialista, no caso, o americano, seria menos eficaz, harmonioso entre os poderes e, inclusive, democrático do que o sistema de gabinete. Nabuco era um liberal e ardoroso defensor da Monarquia, mas insistia em dizer a Dom Pedro II: O Rei reina, mas não governa. Reverberar a validade das palavras de Nabuco para os dias de hoje não significa, de modo algum, defendermos o regime monárquico, mas de interrogarmos o Presidencialismo no atual modelo latinoamericano e que tem nos causado tantos "traumas". Ouçamos a voz de Nabuco:
"O sistema inglês, diz Bagehot, não consiste na absorção do poder executivo pelo legislativo, consiste na fusão deles. O rival desse sistema é o que ele chamou de sistema presidencial. Essas designações são hoje usadas por todos, mas são todas dele. Continua Bagehot "A qualidade distintiva do governo presidencial é a independência mútua do legislativo e do executivo, ao passo que a combinação e a fusão desses poderes serve de princípio ao governo de gabinete". [...] Além do enfraquecimento causado por esse antagonismo do legislativo, o sistema presidencial enfraquece o poder executivo, diminuindo-lhe o seu valor intrínseco. [...] Todas essas vantagens (do sistema de gabinete), porém, são ainda mais preciosas em tempos difíceis do que em tempos calmos. Maior quando se está a braços com grandes questões do que quando se trata de negócios insignificantes. O governo parlamentar, em que existe um gabinete, possui, além disso, um mérito particularmente útil nos tempos tormentosos: o de ter sempre à sua disposição uma reserva de poder pronta para operar, quando circunstâncias extremas o exijam...
Há um presidente escolhido por um lapso de tempo fixo e inamovível. Não há em tudo isso nada de elástico. Aconteça o que acontecer, não se pode precipitar, nem adiar.É um governo encomendado de antemão, e, convenha ou não, ande bem ou mal, preencha ou não as condições desejadas, a lei obriga a conservá-lo.
Em tempo de guerra ou de relações diplomáticas complicadas, é que se vê o defeito desse sistema em toda luz. Esse sistema, diz Bagehot, pode-se resumir em uma palavra: governar pelo desconhecido. Ninguém tem a menor ideia do que pode ser um presidente, nem do que ele pode fazer*. Nós nem mesmo imaginamos que se possa confiar o exercício da soberania a um desconhecido.
Um governo de gabinete pode ser um governo mais direto e imediatamento do povo do que o Presidencialismo americano "Uma vez que o povo americano escolheu o seu Presidente, ele não pode mais nada". A Câmara dos Comuns, essa, porém, faz e desfaz o gabinete, de modo que o governo está sempre nas mãos da representação nacional.
Comparados os dois governos, o norte-americano ficou-me parecendo um relógio que marca as horas da opinião, o inglês, um relógio que marca até os segundos."
(Joaquim NABUCO in "Minha Formação").
Portanto, já passa da hora de discutirmos essa urgente questão de fundo: os tons de nosso modelo Presidencialista de Governo.
Afinal, Joaquim Nabuco avisou....


terça-feira, 5 de maio de 2020

MICHEL ONFRAY, A IMPORTÂNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS E O PENSAR COMO VACINA.





Fui, há cerca de dez anos, uma leitora apaixonada e indignada do livro da psicanalista Élizabeth Roudinesco "Freud: Por que tanto ódio?". À época eu estava muito enfronhada e encantada com a psicanálise, cursava um doutorado na área e pensava, inclusive, na possibilidade de vir a analisar. O livro de Roudinesco era e é uma resposta ao livro do chamado "contra-filósofo" Michel Onfray, fundador da Universidade Popular de Caen, uma espécie de dissidência do estudo da filosofia tradicional. Michel Onfray em seu livro "O Crepúsculo de um ídolo" ataca Freud impiedosamente, à época foi xingado de, "no mínimo" oportunista e, assim, eu também o enxergava.
Passados quase dez anos e muitos livros e muita vida sob o sol e sob os olhos, tenho, hoje, uma outra compreensão de Onfray. Não, necessariamente, no que diz respeito a Freud e quanto a isso, lembro aos meus colegas do Direito o que foram os ataques de Ihering a Savigny, mas quanto à importância da crítica, do questionamento, da subversão no mundo das ideias. Onfray é polêmico, mas necessário, e muito, ao nosso tempo. Em um momento em que as ciências humanas são, elas mesmas, atacadas e desvalorizadas, Onfray propõe uma outra função para a filosofia, não aquela que se restringe apenas a ler e a compreender as problematizações colocadas por Kant, Schopenhauer, Nietzsche, mas aquela de responder às nossas próprias questões, indagações e angústias cotidianas.
Aquela que responde, por exemplo, nesse exato instante à pergunta "Devo ou não sair de casa?", "É melhor voltarmos ou não ao trabalho fora de casa?", "Como enfrentar ou negar a catástrofe?", "O que sou eu nesse momento em meio a essa pandemia?", "Na falta de leitos e de instrumentos, quem deverá ser escolhido para ser salvo?", "Como nos colocar diante das perdas e do luto?", "O que, como ser humano, já estou efetivamente ganhando e efetivamente perdendo?", "Em que medida o que sou transborda diante do outro ou do silêncio?".
Todas essas e mais milhares de perguntas, ainda que algumas sejam respondidas com o esteio nas chamadas ciências "duras", nada mais são do que um exercício filosófico o qual não temos boas condições de enfrentar sem um arcabouço de ideias que atravessam as ciências humanas e a sabedoria humana e as suas fabulações. Não são as ciências exatas que as resolvem. Não são as ciências exatas que nos ajudarão a responder sobre as nossas escolhas entre as práticas que nos levam ao viver ou ao morrer, sobre o nosso espanto diante do que é precário e provisório (nós mesmos), sobre as nossas inquietações existenciais profundas.
E é como instrumento de auxílio no elaborar dessas respostas que Onfray coloca a Filosofia a serviço de todas e todos e não apenas dos acadêmicos do "establishment".

Last but not least, ele, ao fazer uma hermenêutica do livro do "Gênesis"anda dizendo que Eva foi a primeira dos filósofos...

quinta-feira, 9 de abril de 2020


SOBRE A "MAGIA" DA CLOROQUINA: UM DEBATE PÓS-ILUMINISTA.




O que eu acho quase inacreditável (se não fosse real) são pessoas leigas querendo discutir com pesquisadores e cientistas, um assunto de alta ciência, disputando com estes acerca de matéria de suas competências para o qual passaram longos anos de suas vidas estudando e ainda passam...
Por mais que tenhamos presenciado a crise dos saberes especializados, a crítica que permeia essa crise passa pela alienação do especialista, não pela desmoralização dos saberes especializados: há conquistas da modernidade que não podem ser negaceadas.
Não se contrata um engenheiro para que execute uma intervenção cirúrgica cardíaca, como não se contrata um médico para que levante uma catedral.
Tenho muitas ressalvas ao tão atual decantado "lugar de fala", mas há aqueles que são incontornáveis: posso até falar em nome dos índios e dos portadores de deficiência, mas jamais em nome de um químico ou de um físico nuclear acerca de seus objetos de estudo.
Como pode o achismo nosso, por mais qualificados que sejamos em nossas profissões, sobrepujar o entendimento dos estudiosos em um assunto para os quais as controvérsias sequer foram solucionadas? Será que seria uma forma de nos desviarmos de nossas próprias funções e responsabilidades, de tirarmos a atenção sobre aquilo que é de nossa competência e que nos cabe? Ou somado a tudo isso, um perigoso caráter egoico?
É um fenômeno que não se viu na Idade Clássica. Lembremo-nos que durante a nefasta Peste Antonina que matou milhares de pessoas no Império Romano, os papéis do Imperador Marco Aurélio e do seu, então, maior médico, o grego Galeno, eram bem delimitados e sustentados pelo respeito recíproco às funções a serem desempenhadas pelo imenso estadista e pelo não menos imenso cientista em grande cooperação.
Sequer poderíamos dizer que o atual fenômeno é puramente medieval e obscurantista, embora se irmane com ele em diversos pontos. Não é puramente medieval e obscurantista, uma vez que, pelo menos até agora, não vi ninguém propor a sobreposição de magias e feitiçarias aos tratamentos médicos, como ocorreu durante a Peste Bubônica na Baixa Idade Média.
Em outras palavras, o leigo arvorar-se de detentor de uma verdade científica de uma ciência que não conhece é um fenômeno-sintoma da crise do pensamento e da cultura na contemporaneidade. É um fenômeno pós-iluminista que merece o debate. E, mais que tudo, um fenômeno de governos populistas que merece o COMBATE.

domingo, 29 de março de 2020


"NÃO FOI DE CORONAVÍRUS QUE A VÍTIMA MORREU, ELA JÁ SOFRIA DE DOENÇA PREEXISTENTE"…

São muitas as narrativas que tentam minimizar o poder assassino do vírus coroado e desconsiderá-lo como a causa mortis de milhares de óbitos. Sinto dizer, mas o que está matando não são as chamadas comorbidades, mas o coronavírus, mesmo... Comorbidades todos nós temos, não há quem tenha uma saúde perfeita. No mínimo, temos um furúnculo, um cisto, uma enxaqueca...

Exemplifico o meu argumento com o caso de nosso imenso poeta, Manuel Bandeira.

Bandeira foi acometido pela tuberculose aos 18 anos de idade. A partir de então, toda a sua vida se deu à sombra da "Dama Branca", aquela que estava sempre à espreita, rondando os seus pulmões, ameaçando sorver o seu ar vital. Em razão da grave doença pulmonar, Bandeira viveu boa parte da sua vida em cidades serranas, banhadas pelo ar puro das estações climáticas que lhe expandisse a respiração. O poeta, na escassez do ar que lhe faltava, esperava deixar a vida precocemente... Viveu "como quem morre"...

Mas, Bandeira, contra todos os prognósticos, teve vida longa. E produziu uma obra poética de tempo mais extenso ainda. Faleceu aos 82 anos de idade. E não em razão da tuberculose, e não em razão de qualquer outra doença respiratória. Manuel Bandeira partiu desse mundo em razão de uma hemorragia gástrica.

De que teria Manuel Bandeira morrido, caso em seu tempo o poeta houvesse sido contaminado pelo devastador coronavírus?




PNEUMOTÓRAX (MANUEL BANDEIRA)
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.
……………………………………………………………………….
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.





sábado, 21 de março de 2020


O VÍRUS COROADO


As fagulhas dos fogos de artifício do Réveillon de 2020 ainda crepitavam quando o Presidente dos EUA anunciou, gloriosamente, da altura de seu faustuoso poder, haver "eliminado" o chefe militar do Irã. Este assassinato colocou o mundo em estado de alerta e a iminência de uma terceira guerra mundial assomou-se como uma ameaça assombrosa e real. A justificativa para esta "eliminação" seria não uma nova Guerra, mas uma ação inadiável rumo a um processo de construção da paz. Ao celebrar-se a morte de um ser humano, estava-se, novamente, experimentando do gozo voraz de destruição de seres humanos, cuspindo arrogância e nutrindo-se os bilhões lucrados pela indústria da mortandade. O Irã anunciou que se vingaria e mais teria feito se maior fosse, também, o seu poder de destruição. Foi quando, nas vésperas do que seria uma nova gloriosa guerra, a China anunciou a circulação de um novo vírus. Um vírus letal e de alta transmissibilidade. Esse sim, glorioso em sua vocação de paralisar a segunda maior economia do mundo e países ricos da Europa, de causar um trilhão de dólares em perdas para a economia mundial e o principal: glorioso em sua sanha de destruir, de ceifar vidas, milhares de vidas. Para que guerras se temos o vírus?
Na China, são mais de 3.000 mortos, na Itália, país acuado na imperiosa rendição perpetrada pelo vírus, já se somam mais de 4.000 mortos, no combalido Irã, mais de 1.400 mortos. Computando-se, até o momento, mais de 11.000 mortos em todo o mundo. No indefectível país do Tio Sam, no país daquele Presidente que alvoreceu o ano, praticando os prazeres da guerra, centenas de vidas já foram capituladas. As suas ilhas da fantasia como Broadway e Disneilândia, tiveram os seus portões fechados e apagaram as suas luzes.
O "guerreiro" vírus não escolhe o seu alvo por raça, cor, bandeira, etnia, partido político, religião ou preferência sexual. Alastrou-se na França em razão de um culto com milhares de evangélicos, assim como cancelou o ramadã e a peregrinação de milhares de muçulmanos a Meca no Irã. De sua altura microscópica, o vírus revela o nosso real tamanho: o de insignificantes. E junto à nossa insignificância, a inutilidade de tantas outras insignificâncias nossas.
Estamos vivendo um momento de polarização, de disputas pela hegemonia de ideias, temperadas por um ódio insano e paroxístico, potencializado pelo avanço cibernético como jamais experimentado na história da humanidade. A sanha de nos destruirmos uns aos outros moralmente e diuturnamente, a prática de assassinatos virtuais, nunca esteve tão em voga. Mas, agora, há o vírus, que nos mata democraticamente, não importa a "razão" de nosso lado.
Dizem que é originado de morcegos, poderia ter sido originado de ratos como n'A Peste de Camus. Muitos alegam que o vírus é fruto de uma conspiração. Teses conspiratórias que tão somente endossam o nosso afã de nos colocarmos sempre em um lugar de controle sobre o que nos acontece. Afinal, o vírus é um predador, mas, pelas teses conspiratórias, fomos nós, seres humanos, os deuses que o criaram. E se nas guerras, morrem os soldados, mas não os generais, do vírus, não há quem escape. Do atleta que se arvora inquebrantável do alto de sua saúde ilusoriamente invencível, ao Presidente da nação mais poderosa do mundo que, a princípio, se negou a fazer um teste para a confirmação de ter sido ou não contaminado pelo vírus, uma vez que fazer o teste já seria fornecer atestado de vulnerabilidade. Estando a sua política pública de saúde, vulnerabilizada, sob a pressão da imprensa, não houve outro caminho que não fosse se submeter ao teste e tentar tomar as rédeas do que pode vir a ser uma hecatombe em seu país.
Não adianta nos enganarmos, somos todos precários, vulneráveis, vencíveis, matáveis. Carnes perecíveis, enfim. O vírus nos grita, eloquentemente, essa nossa face no espelho. Mas, ele, também, nos desafia. Nos desafia a debelarmos as nossas diferenças e a nos unirmos nessa missão de destruí-lo. Nos desafia a revermos as nossas inúteis práticas de ódio e a pormos em ação, práticas de respeito e de solidariedade.
O vírus nos revela, sim, a nossa pequenez, menor que seu tamanho infinitesimal. Mas, também, nos conclama a nos revelarmos uns aos outros de um tamanho outro.
Para ser vencido, não bastam os milhões da ciência. Bilhões serão insuficientes para aniquilá-lo se sobre o vírus não nos agigantarmos. Se não nos agigantarmos não apenas sobre a nossa incontornável perecibilidade, mas, sobretudo, em nossa potência de nos reinventarmos em humanidade e em generosidade.








quinta-feira, 12 de março de 2020



A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA E A CAPACIDADE BRASILEIRA DE TRANSFORMAÇÃO.
(Ou sobre a ideologia da inutilidade das sublevações no Brasil)



A data Magna que passou a ser comemorada a cada dia 06 de março no Estado de Pernambuco em razão da Revolução Pernambucana nos leva a muito refletirmos sobre nós mesmos, pernambucanos, e sobre todo o povo brasileiro em sua capacidade de levar a cabo ações e práticas transmutadoras.
Primeiro, ao questionarmos a invisibilidade histórica dessa revolução de modo a incutir no povo brasileiro um sentimento eterno de constitutivos derrotismo e incompetência revolucionária. Como se em nós houvesse, intrinsecamente, uma incapacidade para a promoção de mudanças efetivas. Os livros de história se esforçaram para nos convencer desse espírito nacional de não vocacionados para as transformações estruturais e mudanças de status quo há séculos. Entendamos.
O movimento brasileiro que consta como sendo a mais significativa revolução iluminista e libertária em nossos livros de história, sendo inclusive razão de um feriado nacional, é a Inconfidência Mineira. Com todo o respeito a esse movimento e aos inconfidentes, o que ocorre é que a Inconfidência Mineira sequer foi uma revolução ou um movimento efetivo. Foi, ao invés, tão somente, uma ideia, um plano que não foi concretizado. Tendo sido os seus mártires, condenados à morte, não por terem realizado a revolução, mas, estritamente, por seus atos preparatórios. O mais homenageado deles, Tiradentes, não tem, sequer, existência certa. Ou seja, no dia 21 de abril comemoramos uma Revolução ABORTADA, sequer não vitoriosa, já que apenas uma TENTATIVA de Revolução!.
O que me indago é se o propósito dessa data é comemorar a "Inconfidência", o projeto de revolução, ou o seu abortamento. Como se fosse uma data feita para nos lembrarmos de nossa incapacidade de implementar projetos de mudança e que, ao tentamos assim fazê-lo, teremos sempre a nossa morte anunciada ainda no período gestacional. Logo, a invisibilidade da Revolução Pernambucana frente à Inconfidência Mineira não se trata, tão somente, de fazer prevalecer os fatos históricos-políticos ocorridos nas regiões Centro-Sul sobre os fatos históricos-políticos ocorridos nas regiões Norte-Nordeste. Trata-se de uma evidente mensagem de DESENCORAJAMENTO transmitida pelas instâncias máximas de poder político a TODO o povo brasileiro. Uma ideologia centenária sobre a inutilidade de nossas sublevações e tentativas de mudanças estruturais. Ainda mais em se tratando de movimentos separatistas. Afinal, no dia 21 de abril comemoramos a nossa derrota o que seria o oposto se a Revolução libertária que comemorássemos anualmente fosse, ao menos, também, a Revolução Pernambucana!
Sim, porque a Revolução Pernambucana foi VITORIOSA! Foi um movimento ILUMINISTA e LIBERAL, um braço da então recente REVOLUÇÃO FRANCESA, eclodindo na América do Sul e capitaneada por brasileiros, homens da terra. Em 1817, derrotamos o PODER CENTRAL, colocamos abaixo a MONARQUIA e proclamamos uma REPÚBLICA! É, originariamente, não do Estado de Pernambuco, mas da República de Pernambuco, a nossa bandeira! Tivemos representação diplomática no exterior. No caso, o Embaixador Cruz Cabugá nos Estados Unidos da América. Durante mais de dois meses fomos uma República independente e vencedora. Mas esse fato histórico deve ser silenciado, afinal, não diz respeito a comemorarmos a nossa derrota e o nosso destino incontornável de derrotados em nossos projetos de mudança. Diz respeito a comemorarmos a nossa VITÓRIA e a nossa potência transformadora, proclamada não por um português como ocorre na celebração da independência do país, mas, independência proclamada pelo povo brasileiro!
A Revolução Pernambucana não era comemorada em nosso próprio Estado. Passou a ser celebrada, recentemente, a partir de 2008 e só no ano de 2017 tornou-se dia feriado. Trata-se de Revolução ainda desconhecida pela maioria esmagadora de nossa população. A hipótese que ora advogo é a de que o seu total desconhecimento em âmbito local e nacional tem o condão proposital de perpetuar o sentimento de eterna pequenez e insignificância do povo brasileiro. O sentimento de inutilidade de nossas práticas de mudança. Mais ainda no que diz respeito às mudanças na estrutura do poder. Acostumamo-nos a sermos elefantes gigantes que desconhecem totalmente o próprio peso e vivem como se tivessem o peso de uma minhoca! A nossa cidade do Recife, cidade de raiz mercantil, libertária, vocacionada para a circulação de riquezas com maravilhosos portos, seria para ser, no mínimo, algo próximo à cidade de Roterdã! Assim como cada cidade brasileira e respectivas vocações! Vivem todas muito aquém do que realmente poderiam ser!
Mas, sigamos, é hora de revermos a nossa história e os seus discursos inferiorizadores; incapacitantes, despotencializadores, perversos e traumáticos.
Vamos pôr abaixo, um a um, os nossos complexos, inclusive aquele que nos coloca em total dependência e subalternização ao pai-Estado e que nos leva à eterna nostalgia de um Rei.
Sejamos o que realmente somos! Transformadores, potentes, capazes e RICOS!
O brasileiro, junto a sua história tem sido morto a cada dia. Mas, já está mais do que na hora de proclamarmos a nossa potência transformadora, a nossa força vital, que assim como o Estado de Pernambuco é IMORTAL.

domingo, 8 de março de 2020

Sempre que me perguntam: "POR QUE AVANÇA TÃO ASSOMBROSAMENTE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NO BRASIL E NO MUNDO?", a minha resposta é sempre curta e rápida: "PORQUE ESTAMOS ALCANÇANDO O PODER".






Há muito, ainda, por óbvio, a conquistar, os desafios e obstáculos são inumeráveis mas não suficientes para nos deter.
Trago aqui apenas alguns números que são sobremaneira significativos e revelam que estamos escalando o poder econômico, político e social com a força de um tsunami:
As mulheres são maioria no ensino médio em 73% dos municípios brasileiros, sendo a maioria dos estudantes em todas as capitais do país;
As mulheres progridem mais do que os homens na educação, sendo delas o maior número de concluintes em todos os seus graus;
Nos cursos de nível superior, o número de mulheres representa 62,9% do total de concluintes de todo o Brasil;
Pesquisa feita pela Faculdade de Medicina da USP aponta que o número de mulheres que entram nos cursos de medicina em todo o país é superior ao número de homens desde 2009, sendo que as médicas são a maioria dentre os profissionais com idade inferior a 29 anos;
Na faixa que vai até os 25 anos de idade, as mulheres representam a maioria (64%) dos inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB);
As mulheres também são a maioria dentre aqueles que exercem a arquitetura no Brasil (63, 10%), sendo que em apenas dois estados brasileiros, a maioria é de arquitetos;
O número de mulheres brasileiras que concluem os seus cursos de doutorado no exterior já ultrapassou o número de homens;
Atualmente, as mulheres ocupam 69% dos cargos de Liderança em Comunicação no Brasil;
Na política ainda há muito a conquistar. Em sendo o centro nevrálgico do poder, de onde partem as leis que promovem a igualdade, a luta é desafiadora e renhida. Mas as experiências além de nossas fronteiras nos mostram, sim, que os obstáculos poderão vir a ser debelados. Em países como Ruanda e Andorra, as mulheres já são a maioria no parlamento. Ainda nessa esfera da vida pública, um estudo publicado pelo Journal of Economic Behavior & Organization apontou que a corrupção é menor nos países nos quais as mulheres têm maior participação no governo. Vamos então, firmes, devagar e sempre, firmes, devagar e sempre...
Se as mulheres são maioria esmagadora em profissões relacionadas às áreas das ciências humanas, mesmo, nas ciências ditas "duras", aquelas matematizadas, o número de mulheres exercendo profissões como a de engenheira, disparou no país. Números do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), revelam que a participação das mulheres nas áreas de exatas recrudesceu, aceleradamente, de 2011 até 2016. Os dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) confirmam que o número de mulheres engenheiras registradas, por ano, no sistema passou de 13.772, em 2016, para 19.585, em 2018, um crescimento de nada menos do que 42%! Ainda, de acordo com o Confea, o número total de engenheiras ativas no Brasil, hoje, é de 196.372. Se, antes, as mulheres apareciam timidamente nas salas de aula voltadas às tecnologias, hoje, as suas presenças pululam e a cada dia é mais expressiva a ocupação de mulheres em cargos de liderança no setor.
Last but not least, mesmo nessa sanha de alguns por sermos exterminadas, existimos em maioria no país. No Brasil as mulheres são 51,7% da população, 52% do eleitorado e enquanto, hoje, a expectativa de vida dos homens é de 73 anos de idade, a das mulheres é de 80 anos.
Ou seja, a violência contra a mulher é proporcional ao incremento de nossas conquistas e é uma reação à desconstrução que temos feito aguerridamente nos núcleos de sustentação do patriarcado.
Mas sinto dizer: Não vai adiantar. Podem aqueles que não suportam dividir conosco o estatuto da igualdade e da solidariedade, continuarem como bestas-feras desatinadas, descompensadas e histéricas no desespero dos que temem conosco compartilhar o poder.
Podem continuar a xingar-nos,a detratar-nos, a nos vir com palavreados chauvinistas e risinhos nervosos, a apontar-nos facas, a nos mirar com revólveres, a lançar-nos paus e pedras, a estuprar-nos, a denegrir-nos, a difamar-nos e a injuriar-nos. A nossa gana é irrefreável e, juntas, nos multiplicamos e representamos umas as outras.
Podem continuar. É inútil. Digerimos o fel inoculado pela violência transformando-o em sangue que borbulha em vitalidade e força.
Sinto muito, estamos, sim, alcançando o PODER. E preparem-se: Isso é só o começo.