Aqui me tens, meu amor, precária
Diante de tudo que é grave,
Permanente e ilusório,
Restos de gestos palpitam
Eu-te-amo
Esse tríptico infinito
No meu eu provisório.
Andrea Campos
*
Photo: Nathalie Roze
Vai o tempo nos carcomendo pelas beiras,
O tempo nos exorta do vazio das trincheiras.
O tempo é a aorta
onde passeia vermelha a vida,
O tempo não suporta
quem enganou sua ferida,
Mas, quando o tempo, inclemente,
Fechar-me a porta,
Saberei ser alheia ao tempo
que me aborta,
Então nunca digas:
"Ela está morta",
Como um Prometeu que traz o fogo em sua pira,
Viva estarei se a poesia em mim respira.
Andrea Campos
*
Photo: Nathalie Roze
Com o tempo in-verso,
Tempo in-verso
É aquele no qual
Se passa o tempo
Em poema imerso,
Engolindo rimas
Junto ao pó da estrada...
Aonde esse tempo leva?
Nonada.
Mas se a vida assim vivida
A só e a pó não basta,
Tempo in-verso
De mim não se afasta,
Nonada fica o dito
Pelo não dito,
Tempo in-verso,
Esse Teu
Meu infinito.
Andrea Campos
*
Photo: Nathalie Roze.
"Uma Dança para a Música do Tempo" de Nicolas Poussin.
Ao som dos acordes do Pai Tempo que se faz acompanhar de uma criança a verter uma ampulheta, a Riqueza, a Pobreza, o Trabalho e o Ócio bailam de mãos dadas mimetizando a Roda da Fortuna.
Atento ao instante, à esquerda da tela, o deus Jano, regente do mês de Janeiro, posta as suas duas faces sobre um pilar de pedra. A sua face jovem mira o futuro; a sua face antiga contempla o passado. Os romanos rogavam a Jano pelas bênçãos para cada novo ciclo, para cada nova etapa e para cada novo Projeto.
Aos pés de Jano, distraidamente, um menino sopra bolhas que rebrilham e logo se dissolvem no ar, anunciando a brevidade da vida.
Sobrevoando a cena, desliza a carruagem do deus Apolo, tendo as bailarinas Horas em seu séquito.
Como sua Abre-Alas, Aurora, a deusa do amanhecer, vai descortinando as manhãs e varrendo dos caminhos as sombras das noites. Com mãos altivas e generosas tapeteia o destino humano com pétalas de rosa.
Por fim, o deus Apolo sustenta um círculo em seus braços, a anunciar que a humana fugacidade não é nada mais que um passo de dança a compor o balé da Eternidade.
Fotógrafa prolífica da geração "humanista" dos fotógrafos franceses, geração daqueles que capturavam os instantâneos das ruas, da vida esplendorosamente crua com maestria e, sobretudo, com sensibilidade e Poesia.
Sabine, em sua generosidade, afirmava nunca ter sofrido discriminação por ser uma mulher no mundo da fotografia. Não uma mulher diante das lentes, mas por detrás delas. Não uma mulher objeto de um olhar, mas uma mulher que é sujeito do olhar do desejo.
Esta fotografia aqui postada, de autoria de Sabine Weiss, bem que registra e revela a mulher que ela foi: Uma menina deslizando por sobre um brinquedo masculino, um carrinho de rolimã, na alegria de traçar com o próprio olhar, o seu destino...
Grata pelo que você sempre será, Sabine.
Dulcinéia
Ser quixotesca, burlesca,
bailar em moinhos de vento.
Enxergar o mundo à altura
do Cavaleiro da Triste Figura.
Desenroupar-me de pensamento,
ser só picaresca, nenhum lamento,
reinar em vendas como
em castelos,
fazer-me ouro com os meus
farelos,
Transformar delitos
em só justiça,
todos os desditos
em sagrados ritos,
os laivos do verdugo
em contra-dança,
Da terra malferida
sacar a lança
e fazer do sangue
a esperança.
Ter Sancho em mim
num só caminho.
Pois ninguém se é
se é sozinho.
Esporar a casca
de Rocinante
num destemor
de cavaleiro andante,
desvalindo torres
e qualquer
gigante.
E quando
arriasse a noite
com seu açoite
e da batalha eu só
colhesse o nada,
ser só Dulcineia
a senhora amada,
a que por só desejo
é trespassada.
Assim vou pintando
de passo em sonho
as tintas do belo
no real medonho,
remetendo ao prelo
essa tão formosa prancha
onde a carne do mundo
tem a alma sem Mancha.
Andrea Campos
O que vou contar aqui é apenas uma fábula... Uma fábula azul. Uma fábula azul carmim turquesa. Sim, carmim. Porque não há como decantar as gotas de sangue. Mas não, não te contagiarão. Elas estão lá impermeáveis no azul de mim. Então, como eu ia dizendo essa é apenas uma fábula. A fábula do pássaro e do peixe.
Uma vez era um pássaro, na mesma vez era um peixe. Eles viviam contemplando-se de espaços opostos e intangíveis. O pássaro no céu, o peixe no mar. O pássaro em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o peixe. Mas, se comesse o peixe, o peixe desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo.
Por sua vez, o peixe, em sua fome irrefreável de vida, pensava em comer o pássaro. Mas, se comesse o pássaro, o pássaro desapareceria e ele não poderia mais contemplá-lo. E assim, olhavam-se, dia após dia, o peixe e o pássaro num mar e céu de desejos.
O tempo derramava-se entre a escopia e o devoramento. Entre o olhar e a fome. Na escolha entre a distância ou o aniquilamento temperado de solidão.
Um dia, o pássaro amerrissou. O peixe, trêmulo, apavorado, escorregou por entre as brumas das ondas. O pássaro aproximou-se, o peixe arreganhou a boca e o pássaro deu um salto pra trás, pensando que iria ser, naquele momento, também devorado.
Até que se olharam mais de perto e depuseram as armas entre asas e barbatanas envergonhadas. Foram achegando-se devagarinho. "Não, não tenha medo, vou lhe ensinar a nadar", disse o peixe, ao que ouviu do pássaro "Não, também não tenha medo, vou ensiná-lo a saltar por sobre as ondas para fugir dos predadores".
Assim, o peixe e o pássaro, apreenderam o amor em suas vidas e mergulharam num voo azul no mar sem fim.
Andrea Campos