segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 MERGULHAR EM TEU CORPO O MAIS PROFUNDO ATÉ TOCAR A TUA ALMA


A glória para o amante não é capturar o corpo de seu amado, mas desvendar-lhe a  alma. Aquele que ama acredita que, por amar, conhece o amado mais do que qualquer outra pessoa, mais do que ele mesmo e nesse conhecer dá a maior prova de seu amor:"Eu te conheço, sei quem você é". 


O amado, também amante, pode, com isso, se sentir menos sozinho, fusionado no amor, mas também, traído em seu segredo, pois foi conhecido sem ter se dado a conhecer. É disso que trata o mito de EROS e PSIQUÊ: Eros o deus do amor, se apaixonou por Psiquê uma bela mortal, mas para poder concretizar esse amor que era proibido por sua sua mãe Afrodite, Psiquê deveria acreditar que ele era um monstro, jamais podendo ver a sua face, amando-o no escuro.


Eram muito felizes até que Psiquê, por curiosidade, ao estar Eros adormecido, iluminou o seu rosto e conheceu de sua beleza. Eros se sentiu traído, ferido de morte em seu amor e se separaram. Mas tendo Psiquê se redimido, provado seu amor, foi resgatada por Eros que nunca deixara de amá-la e se eternizaram juntos:


Deixa que as luzes se apaguem para que eu te possa ver melhor/ E perscrutar os meandros de tua pele, traçados de curvas em eterno retorno ao nosso encontro/ Deixa que as luzes se apaguem para que eu te possa ver melhor/ Mergulhar-te em meus braços para te navegar nas águas da poesia: feita carne e sangue/ oceano e fantasia.


Andrea Campos


 ODIANDO-ME, MAIS EU FUJO (MICHELÂNGELO)

Soneto para Vittoria Colonna


Odiando-me, quanto mais eu fujo de mim, 

Minha Senhora, mais em sua direção eu sou empurrado;


Minha alma então, como deve,

Treme menos para mim lá, onde espera que eu fique.

O que os paraísos fornecem, eu oro

Para perceber na sua face,


E em teu lindo olhar, onde reside toda a redenção,

Pois bem eu sei, a cada dia

Comparando-o a outros, não há vestígios

Da tua virtude, a menos que o coração se mostre nos olhos.

Tão rara essa beleza!


Ver-te é meu único desejo, puro e completo.

E ainda que sejam esses vislumbres raros, 

São como o rio Lete para a alma.


Sempre teu, Michelângelo Buonarroti.


*

Ilustração:


Retrato de Vittoria Collona por Michelângelo Buonarroti.




 PARA VITTORIA COLONNA.

Michelângelo Buonarroti.


Em mim a morte, em ti a minha vida,

Tu extingues, dás, reparte o tempo

Como queres. Breves e longos são os dias meus.


Feliz estou de tua cortesia concedida,

Bendita a alma, onde não corre o tempo,

Por ti se pôs a contemplar a Deus.


*

Ilustração: "Marquesa de Pescara (Vittoria Colonna)" por Michelângelo Buonarroti.




domingo, 30 de janeiro de 2022

 "NÃO ESTOU NO LUGAR CERTO - EU NÃO SOU UM PINTOR!" 

(MICHELÂNGELO)


Já ganhei bócio com esta tortura,

curvado aqui como um gato na Lombardia

(ou em qualquer outro lugar onde há veneno na água estagnada).


Meu estômago está esmagado sob meu queixo, 

minha barba está apontando para o céu, 

meu cérebro está esmagado em um caixão,

meu peito torce como o de uma harpa. 

Minhas pinceladas,

acima de mim, o tempo todo, pingando tinta

então meu rosto dá um bom piso para excrementos!


Minhas ancas estão apertando minhas entranhas,

minha pobre bunda se esforça para funcionar como um contrapeso,

cada gesto que faço é cego e sem objetivo.

Minha pele fica solta abaixo de mim, 

minha espinha

toda amarrada de se dobrar sobre si mesma.

Estou tenso como um arco sírio.


Porque estou preso assim, meus pensamentos

são loucas e pérfidas tripas:

qualquer um atira feio através de uma zarabatana torta.


Minha pintura está morta.

Defenda isso para mim, Giovanni, proteja minha honra!

Não estou no lugar certo - Eu não sou um pintor!


(Carta-poema desesperada de Michelangelo Buonarroti para Giovanni de Pistoia quando o artista estava pintando a abóbada da Capela Sistina em1509).


*

Ilustração: a Punição de Aman - Detalhe da Capela Sistina (Michelângelo Buonarroti)


 O PECADO ORIGINAL: A INAUGURAÇÃO DA HUMANIDADE POSSIBILITADA PELA VONTADE DE SABER DO FEMININO.


No início era o paraíso representado pela abundância, pela não necessidade de esforço, pela ociosidade e pelo não saber. A letargia e a malemolência seriam eternas às custas do não conhecer. Adão acatou o estado de ignorância com louvor, mas não Eva. Para ela, todo sacrifício valeria a pena em nome do conhecer, toda dor, precariedade e provisoriedade do ser. Em sua vontade de saber, Eva acatou o desafio da vida e fez face à morte. Assim, a possibilidade humana para o conhecer foi fruto não apenas da mordida de um fruto da árvore proibida, mas do destemor e ousadia do querer saber feminino. 


O grande Michelângelo no teto da Capela Sistina enfatiza o projeto do saber humano não apenas protagonizado por uma única figura feminina, mas por duas: a serpente também é uma mulher. A sedução de uma e a curiosidade da outra. As subversões de ambas se tocam.


Uma vez expulsos do paraíso e condenados a inaugurar a humanidade com o trabalho, a dor e o esforço pelo conhecer, na representação de Michelângelo, Adão e Eva não cobrem as suas partes, não há folhas de figueiras nem o pudor das mãos sobre os seus sexos. Afinal, não havia do que sentirem vergonha. E isso, na leitura do Mestre, ao já ter provado do fruto proibido, Eva já sabia.




terça-feira, 25 de janeiro de 2022

La La Land

 


La La Land, filme maravilhoso. O que eu acho fantástico nos musicais é que assistimos a eles sem nos lembrarmos de que são musicais, como se no fundo, muito da nossa vida se traduzisse e fosse vivenciado em dança e música. É como se estivéssemos sempre nos expressando através de um baralho de linguagens. Quem nunca se pegou cantarolando uma canção que dizia respeito àquilo que se estava sentindo naquele momento? Ao estarmos alegres, mesmo sem par, a alegria nos tira pra dançar... Quem nunca dançou com o seu amor (sem música)? As canções e músicas conectam-se a nós automaticamente, inclusive quando não as estamos ouvindo, vibram e tocam em nossos pensamentos, reverberam em nossos sonhos... E quando postamos uma música nas redes sociais, é aleatório ou se trata da trilha sonora daquele nosso instante? Quanto ao roteiro, achei que, ao final, ele evoca "Casablanca" . Durante todo o filme, o diretor nos oferece sinais de que Casablanca chegará à narrativa: O papel de parede do quarto da protagonista é um grande retrato de Ingrid Bergman, há nas ruas da cidade um imenso cartaz no qual Ingrid Bergman cintila, em frente ao Café onde a mocinha trabalha está o balcão no qual foi filmada uma cena de amor entre Rick e Ilsa, ela mesma cita Casablanca em uma de suas falas. Mas como não esperamos "Casablanca" no filme, pensando que são apenas homenagens despropositadas, nos surpreendemos quando ela acontece. Com o coração apertado só nos resta balbuciar "We will  always have Los Angeles (LA Land)". Play it again, Sam!

domingo, 23 de janeiro de 2022

 Pois é, querida Tarsila, é assim que querem a tua cidade, não uma cidade de pessoas, mas de operários, não uma cidade de cidadãos, mas de operários, não uma cidade de artistas, mas de operários. Não uma cidade, mas um pátio de fábrica com seus muros exatos. Muros que começam e terminam monocordicamente cinzas. Nessa cidade o sol não percorre o tempo, mas sobre um céu também cinza, percorre os ponteiros de um relógio. Cidade onde não se ouve o grito, mas só o barulho do apito. Uma cidade sem cor, sem sangue e sem sal, dormindo e acordando pra sua vocação industrial. E eu nem preciso lhe dizer, você sabe o quanto eu sinto... Mas a tua cidade seguirá, dadivando a sua cal a quem quer lhe fazer bem e, inopinadamente, lhe faz mal...


*

Tela "Operários" de Tarsila do Amaral.