domingo, 3 de abril de 2022

 AS PIETÀS DE MICHELÂNGELO, OU MELHOR DIZENDO, "AS MÃES DE MICHELÂNGELO".

(Não ter mãe, também é uma forma de tê-la)


Certa feita, um crítico de arte, muito versado em seu ofício, aduziu que Michelângelo pouco sabia representar o feminino maternal em sua arte, uma vez que não tivera mãe. Ora, não ter mãe, também é uma forma de tê-la. A ausência tem carne e tem cheiro, e no desejo do sujeito será corporificada. E que não se diga que Michelângelo não teve carnal presença de mãe. Teve-a, ainda que por tempo pouco.


E o nosso escultor "divino", tão cantado e decantado por suas belas e contorcidas e viris e vigorosas representações masculinas, conhecia do lugar central que o feminino ocupava em sua arte.

Melhor dizendo, concebia-o como pressuposto de todos os demais. 


Não foram poucas as vezes que, reincidentemente, no decorrer de  sua vida, Michelângelo disse e redisse que a razão de ter se tornado um escultor  e de sentir profunda paixão pelo mármore, devia-se ao fato de que fora amamentado por uma senhora que vinha a ser esposa de um marmoeiro. Nas mamadas, o leite viria misturado e condimentado pelo pó do mármore, semente do seu amor ad eternum por essa pedra. 


Pois bem, quatro séculos antes que sobre o mundo houvesse Freud, havia Michelângelo e o determinismo que esse prestava ao seio materno para o que lhe constituiu enquanto ser na vida.


Mas, voltemos ao escultor Michelângelo e às aludidas críticas de que esse havia mal representado o materno em sua arte pela sua falta de mãe e, por consequência, por pouco ter sido filho. Já rebati essa crítica com o argumento de que mesmo os que não têm mãe, tem-na em sua forma ausente. 


E vou além, há uma presença incontornável e irrecorrível da maternidadce na constituição do sujeito: O pó do qual viemos e para o qual voltamos, nada mais é do que o pó da terrra, da Terra Mãe. Essa Terra-Mãe para os humanos tem o desenho de um útero e uma vez dele brotados serão regados e vingados em suas singularidades por seus seios-fontes. A morte, então, seria um retorno ao ventre dessa terra, à sua carne esférica. A morte seria a volta à unidade com a mãe. Na morte, o filho funde-se com a sua mãe, é dado de volta à terra, e o ser singularizado  é inaugurado na sua universalidade existencial. 


E esse ciclo existencial é belamente representado por Michelângelo em suas Pietàs: pela Pietà Vaticano, pela Pietà Bandini e pela Pietà Rondanini, às quais eu diria serem suas representações maternas em três momentos fulcrais de sua vida. E o que é ainda melhor: Representações esculpidas pelo pó da Terra.


Tendo sido amamentado por uma ama de leite, mulher de um marmoeiro, Michelângelo, de fato, teve pouco convívio com a  mãe que lhe gerara, mãe que padecia de fraquezas e enfermidades. Ao retornar à casa familiar aos três anos de idade, conviveria com a sua mãe por tão somente mais três anos, quando ela então faleceria contando com menos de trinta anos, uma mulher bem jovem, portanto. 


A imagem que uma criança de três a seis anos de idade tem de sua mãe, não importa a sua estatura, é o de uma mulher imensa e poderosa, no colo da qual a criança encontra o máximo abrigo, amparo e proteção. Para a criança em sua primeira infância, a mãe é um colosso, um gigante em todos os sentidos, físicos e afetivos e no alto de sua potência, hasteia-se a sua face jovem, de máxima ternura e amor. Foi durante a sua primeira infância que a mãe de Michelângelo partiu sem volta. 


E não seria essa mãe da primeira infância, imensa, poderosa e jovial, a recolher o seu filho vulnerável e diminuto entre as suas vestes que estaria representada na Pietà Vaticano? Ás críticas que desde então recaíram sobre a jovialidade das feições da Pietà- Nossa Senhora, Michelângelo respondera que a razão seria a de que uma santa não envelheceria e a de que ali estaria representada a filha do seu Filho. Ao argumento de Michelângelo, eu gostaria de somar algo novo: Não poderíamos dizer que a mãe-Pietà é ali representada como uma mulher jovem, principalmente, por jovem ter sido a mãe que Michelângelo conhecera? E sim, essa mãe-Pietà, de fato,  era filha de seu filho, era uma mãe esculpida por seu filho-pai Michelãngelo. E sobre o seu colo, o escultor-menino naufragava morto. Morto e desacudido o filho por lhe ter morrido a mãe.


A forma piramidal na qual todo o conjunto escultórico, mãe e filho, foram esculpidos também tem as suas razões. Com a morte de sua mãe,  morto ele também estará em sua condição de filho. E não é a pirâmide o símbolo dos grandes túmulos? A Pietà-Vaticano foi esculpida quando o jovem Michelângelo tinha 23 anos de idade. Quando ele ainda se sentiria pequeno e frágil diante da vida, e a sua mãe, que ainda que morta o amparava, de um tamanho maior que o mundo.


Passemos agora para a segunda grande Pietà esculpida por Michelângelo, a Pietá Bandini e a compreendamos também como uma representação materna feita pelo escultor-filho.


Quando de sua execução, Michelângelo passara dos seus setenta anos de idade e acreditava estar próximo à sua morte. Era já um escultor renomado, festejado em toda a Europa. A nova Pietà teria por destinação a sua própria tumba. que ficaria na Basílica de Santa Maria Maior em Roma. Trata-se de um conjunto com quatro personagens: Nossa Senhora, o Cristo morto, Maria Madalena e pairando sobre os três, observando tudo, Nicodemos.


Nessa Pietà, diversamente da Pietà-Vaticano, mãe e filho estão concebidos nas mesmas proporções e na mesma altura. O filho Michelângelo parece ter atingido a mesma envergadura de sua representação materna e mais: Está fundindo-se com ela. Se a escultura estava sendo concebida para adornar a sua própria sepultura, não estaria nesse gesto uma metáfora perfeita da morte enquanto retorno à mãe? Enquanto volta à terra? Enquanto fusão e dissolução no todo universal representado pelo corpo materno? Pois é assim e desse modo que mãe e filho estão representados na Pietà Bandini. A mãe, não mais é uma gigante de feições plácidas e joviais, nem o filho uma criança desprotegida como na Pietà Vaticano. Ambos são adultos e maduros, tatuados pelas angústias e glórias da existência. Estão em um mesmo patamar participando dessa derradeira fusão, engravidando-se um do outro em um mesmo pó, em uma mesma pedra, em uma mesma terra. Não sem motivo, o conjunto também foi esculpido em forma piramidal, recorrendo, novamente, às formas dos túmulos egípcios.


Curiosamente, na Pietà Bandini, Michelângelo esculpiu a sua face no semblante de Nicodemos. Como se assim ele pudesse assistir à sua propria morte e à sua "refusão" com a sua mãe... Conta-se que antes de dar essa escultura por concluída, Michelãngelo teria  tentado destruí-la. Um arroubo de recusa à morte, de recusa ao retorno à Mãe-Terra? 


Terminada a escultura que por fim nem foi postada por sobre a sua sepultura, muito menos repousa  em Roma, estando hoje no Museu da Catedral de Santa Maria del Fiori em Florença, Michelângelo que já se tinha por um número dentre o número de mortos, ainda viveria por mais de dez anos... E por mais outras  esculturas...


Chegamos, então, à última Pietá esculpida por Michelângelo, a Pietà Rondanini. Iniciada ainda ao tempo da Pietà Bandini, a execução dessa escultura o acompanhou até o último de seus dias e de suas horas, tendo ficado para alguns críticos como "inacabada". Digamos que não se trata de uma escultura inacabada, mas uma escultura de execução continuada e permanente. 


Estava, então, o nosso Michelângelo entre os 80 e os 90 anos de idade quando a esculpia. Se o artista acreditara que a Pietà anterior, a Pietà Bandini, na qual o filho se funde com a sua mãe, decretando a morte do próprio Michelângelo, seria a sua derradeira escultura a adornar a sua sepultura, agora, o escultor já viveria em um momento post-mortem: a sua morte já havia ficado para trás. O instante de sua morte como um momento passado. 


E foi como quem já sobrevivera à propria morte, como quem já era morto e enveredava-se em um tempo existencial outro que Michelângelo esculpiu a Pietà Rondanini. 


Na linha de interpretação que tecemos aqui, uma nova representação do Michelângelo-filho com a sua Pietà-mãe.


Uma vez, já tendo o escultor vencido o instante de sua própria morte, de seu retorno à terra-Mãe, Michelângelo nessa Pietà ainda que em estado de fusão com a sua mãe - O Cristo morto está misturado ao corpo da Nossa Senhora - não mais está em um patamar terreno, inferior sobre o qual recaem os altos olhos de Nicodemo. Nessa escultura, mãe e filho alteiam-se, como se houvessem vencido a morte. Não mais a forma piramidal dos grandes túmulos. Apontam para o mais alto, ainda que amalgamados. E mais! Não estão em um mesmo nível. Agora, é o filho quem suspende e sustenta a sua mãe, que a traz em seus ombros, que a carrega. 


Se na primeira Pietà, o Cristo-filho-Michelângelo estava inerme, vencido nos braços de uma poderoa mãe-Nossa Senhora, se na segunda Pietà, prevendo a sua morte, o filho-Cristo-Michelângelo com a sua mãe-Nossa Senhora fundia-se, na última Pietà, a mãe, finalmente, é, em tudo e por tudo, a filha de seu Filho. 


Na sua derradeira Pietà, na Pietà Rondanini, Michelângelo no Cristo representado, não mais está morto, mas quites com a sua própria existência. Está de pé, com  forças para suportá-la e sozinho carregá-la. Conduzir e ser apoio à sua existência-mãe.


Atravessada a morte, descido o Cristo da Cruz de sua existência, a maternidade é superada. De volta à  unidade universal, o Cristo e o filho voltam a ser o Pai. O Pai de sua mãe. E a mãe? A Mãe é a carne e o Mistério  que fazem nascer  o pai e o filho e tudo o mais que existe e se espalha por todo o Céu e brota do profundo de si mesma, que é  a Terra.






quinta-feira, 31 de março de 2022

 Esbarro no teu corpo e o revolvo num arado de dedos. Brotam-me teus pêlos de minha plant(ação). E é dos canais de tua terra que jorra o gêiser que se espraia por meus pântanos, escorre em minhas curvas, regurgita por meus becos e me fertiliza. É só da tua seiva e do teu barro que é colhido o meu dia.

Amanheço. O meu corpo retesa, arrepia, se põe em ondas e é preciso te beijar. Te beijar é derrapar e cair, vertiginosamente, na boca do mundo.



segunda-feira, 28 de março de 2022

 "Meu alimento é só o que queima e incendeia, e no que traz morte aos demais, eu devo encontrar a vida".


Michelângelo BUONARROTI.



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Detalhe da abóboda da Capela Sistina: um dos quatro "ignudi" em torno do Profeta Jeremias.

 "Mas, se quando próxima, a infinita beleza que deslumbra os meus olhos, não permitir que meu coração se aguente em si, e de longe não me ofereça segurança e confiança, o que será de mim?"


Michelângelo BUONARROTI (Nascido Michel Agnolo).



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Detalhe do Juízo Final na parede da Capela Sistina (Eva junto a santas e sibilas,  sobe ao Paraíso)

quarta-feira, 23 de março de 2022

 DORÍFERO de POLICLETO.


"Dorífero" de Policleto, uma das esculturas da estatutária grega que inspirou Michelângelo na confecção do seu Davi. A original era em bronze, esta é uma cópia em mármore, romana. Observem a semelhança do contrapposto!


Em sua obra "Cânone", o escultor Policleto (420 a.C) estabeleceu as regras de harmonia e proporção do corpo humano. Do corpo humano perfeito. Ele é reconhecido como o "Pai da Teoria da Arte".




 DIADUMENO de POLICLETO e o DAVI de MICHELÂNGELO.


Verificar as fontes e referências de gênios como Michelângelo é um belo exercício em todos os sentidos. Primeiro porque nos coloca em face do árduo trabalho e diuturno esforço do artista que é tudo menos o inaugurador de uma arte que preexiste a si mesmo. Ele mergulha ou retoma uma tradição a fim de alterá-la ou superá-la. No Davi, Michelângelo, já um arguto anatomista, tendo já feito dissecação de cadáveres, supera claramente Policleto no cinzelamento dos ossos e músculos das costas.


Segundo,  nos auxilia a situar o tempo de cada artista. Ficando claro, por exemplo, que Michelângelo, mesmo tendo emulado os clássicos, é sobretudo um artista Moderno. 


E em meio a muito mais, a evidência do paganismo na arte grega. Mas um paganismo de pureza quase higiênica e, nele, a  ausência de tensão. O que não ocorre com o Davi de Michelângelo. Nessa estátua, o sagrado e o profano estão em estado de tensão permanente. Transbordando da arte sacra e alvejando os nossos olhos, o delírio da carne.





sábado, 19 de março de 2022

 Um grito túrgido  rolou abaixo pelo despenhadeiro. Faíscas roucas cortavam as pedras molhadas pelo fogo. Um vento ofegante suspirava entre as fendas de penhascos e pernas. De matiz gutural, silenciou, como se adentrasse as cavernas das bocas e dos templos. Até que adormeceu entrincheirado no lago escorrido de tua pele.


Andrea Campos


Ilustrações de Étienne Gros