quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

 Há uns sete anos, coloquei na cabeça, não um cocar, mas a convicção de que apenas atingiria o núcleo da alma genética mater de nossa cultura e de nossa língua, se aprendesse tupi guarani. Comprei um livro de Tupi antigo e fui autodidata. Devido aos compromissos plúrimos não pude mais dedicar-me a essa boa causa rs. Mas sobrou alguns poemas que fiz sentindo em tupi e aqui vai um,...rs Já que, se não enterrei meu coração na curva de um rio, sei que ele pulsa e flutua nas veias tupis, florão do mar...


Xe peró r-emiaûsuba

y apenunga resé oma'ê

gûyrá-'î-etá ybak-ype o-bebé

ybaka pyrang

o-'ar pytuna-ne

xe suí nd''eresyryki

nde resé nhõ gûitekóbo

xe reté, xe 'anga abé oryb

ko'yr aûîeramanhê.

Andrea Campos 




Tradução:


O homem que eu amo

olha para as ondas,

muitos passarinhos no céu voam

céu encarnado

cairá a noite.

Com ele, somente estando eu,

o meu corpo e a minha alma feliz,

agora e para sempre.


Andrea  Campos

domingo, 4 de dezembro de 2022

Para hoje, trago esta bela representação etíope, em tecido, da Virgem com o Menino junto aos arcanjos Miguel e Gabriel.


Durante o renascimento, artistas italianos faziam incursões às Cortes etíopes, levando consigo imagens de Maria e o menino de modo que os mais reconhecidos pintores locais adotavam as convenções de composição artística europeia para a realização de suas obras.


A Virgem Maria é de importância central para a Igreja Ortodoxa Etíope que foi fundada no quarto século Anno Domini. Manuscritos litúrgicos medievais recebiam tratamento têxtil de acordo com a valoração conferida ao seu tema o que atesta a alta estatura da figura Mariana para os etíopes, uma vez que se trata da única representação texturizada neste Manuscrito, um Gospel Book de inícios do século XVI.




quinta-feira, 8 de setembro de 2022

 AMIZADE: A MAIS ÉTICA DAS RELAÇÕES


Assim como nos inebria conhecer os grandes amantes na história, delicia-nos descobrir quais foram os grandes amigos através dos tempos. Não apenas delicia-nos como nos comove.


A amizade não apenas é a mais ética das relações como nos diz Francesco Alberoni em seu indispensável livro "A Amizade", mas deve ser a base para a continuidade de toda e qualquer relação, inclusive as de amor-paixão, além de ser a mais desinteressada (se for por interesse não é amizade).


Os amigos estão juntos por um único e só motivo, não porque vão a festas juntos, ou trabalham juntos, ou são de um mesmo partido ou agremiação: Mas porque se gostam. E se respeitam. 


Há amigos cujos nomes até se misturam como é o caso de Marx e Engels, ou se transformam em um só nome como o do "escritor" Ellery Queen que nada mais é do que o heterônimo dos dois primos Nathan e Manior. Mas, encanta-nos, mais ainda, quando descobrimos grandes amizades entre grandes escritores e grandes pintores. 


Os escritores os citam, de alguma forma, em seus livros, já os pintores são mais explícitos e os retratam.


Eis aqui uma pequena galeria de grandes amigos pintores e escritores: Édouard Manet e Émile Zola. Eugéne Delacroix e George Sand, Giotto e Dante Alighieri, Honoré Daumier e Victor Hugo e Claude Monet e Guy de Maupassant. 


No mais, resta-nos citar Montaigne ao ser indagado sobre o porquê de sua grande amizade com o então já falecido filósofo La Boétie. O autor dos "Ensaios" assim respondeu: "Porque era ele". Foi quando ao cabo de anos, aditou: "Porque era ele, porque era eu".










O diálogo como espaço privilegiado não apenas para a busca da verdade, mas para o encontro da PAZ. 


O ATEU, OS TRÊS SÁBIOS E A DAMA


O belíssimo texto apologético "O Livro do Gentio e dos Três Sábios" escrito em 1274 na Baixa Idade Média por Raimundo Lúlio, um europeu que apenas escrevia em árabe, narra um belo diálogo/debate imaginário entre três sábios e um ateu. 


O desolado e melancólico ateu encontra-se próximo à  morte e deseja saber a verdade sobre Deus e os seus caminhos. Dirige-se, então, ao bosque do conhecimento onde mora a bela e formosa Dama. Esta Dama era a "Inteligência". Antes de o ateu chegar ao Bosque, para lá já haviam se aproximado os três sábios religiosos, cada um com seus respectivos credos: O primeiro era Judeu, o segundo era Cristão e o terceiro era Islâmico. A Dama, ciente dos conflitos e das guerras entre as religiões, explica aos sábios a metafísica da natureza e o significado de cada letra que sopra o aroma da justiça e da tolerância nas belas flores daquele jardim. Dirige-se à fonte e em suas vestes diáfanas ensina aos sábios o mistério que é guardado em cada árvore: Elas não são imóveis, apenas caminham para o alto e nesse caminho, oferecem a todos, sem distinção, os seus frutos e as suas sombras. Após a sua amorosa e assertiva preleção, a Dama parte, deixando sozinhos os três sábios.


É quando chega o ateu moribundo, coxeante e de olhos baixos em sua angústia existencial. Os sábios, antes de iniciarem o debate diante do ateu, pactuam que serão regidos e iluminados em seus diálogos pelos ensinamentos da Dama. Cada um deles, então, passa a expor a sua religião pela ordem de aparecimento de cada uma delas por sobre o Planeta: Primeiro o Judeu, depois o Cristão e por fim o Islâmico. Dialogam sobre a Trindade e sobre a Salvação. Debatem sobre as Cruzadas e as Guerras. Os ânimos ficam acirrados, mas nesse momento, param e por instantes, antes de se agredirem, silenciam. O ateu a tudo assiste e estremece e chora na desesperança de conhecer a Verdade. Entrementes que o debate se encerra e os três sábios se dão as mãos, a Dama aparece ao ateu e o toma em seus braços. Os olhos do ateu brilham e resplandecem. Fulgurantes, a Dama e o ateu desaparecem para além do bosque em forma de Luz. 


Diante do corpo morto do ateu, os sábios abraçam-se e pedem perdão um ao outro para se acaso se tiverem dito alguma palavra vil que tenha ferido a Lei de cada uma de suas religiões. E voltam para os seus templos em Paz.


No outro dia, no Bosque, entre as fontes e sob as árvores, cavalga a formosa Dama. Seus ensinamentos serão sempre revelados. Mas, nunca o seu Mistério.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

 O AMOR DE DANTE ALIGHIERI POR BEATRIZ PORTINARI



Se Sandro Botticelli amou para sempre Simonetta Vespúcio, morta precocemente, aos 23 anos de idade e a quem pintou e repintou, Dante Alighieri amou para sempre Beatriz Portinari, morta precocemente aos 24 anos de idade e com quem nunca, jamais, trocou, sequer, uma palavra. 


Venturas romanescas, típicas de amores medievais que avançaram sobre o renascimento? Ou, amor, simplesmente, amor, que fez em sua irrefreável pulsão e transbordamento infindo germinar umas das mais belas obras-primas da arte ocidental? Pois se o amor de Botticelli por Simonetta deu à luz obras como "O Nascimento de Vênus" e a soberba "Alegoria da Primavera", o amor de Dante por Beatriz ilumina obras como "A Divina Comédia", originariamente batizada, tão apenas de "A Comédia" e a magnífica "Vita Nuova".


Mas, se já falamos sobre Sandro e Simonetta, conheçamos um pouco mais sobre Dante e Beatriz.


Beatriz teria sido uma bela moça nascida em Portico di Romagna, filha do banqueiro Folco Portinari (seria o nosso Candinho aparentado com tão divina e alta figura?rs). Na obra "Vita Nuova", inferimos que Dante a teria conhecido (sem trocarem palavra) quando ele tinha nove anos de idade e ela, oito, quando o senhor Portinari teria se transferido a Florença e vindo a morar em casa vizinha ao do futuro imenso escritor.


Apesar da proximidade física, as paredes dos refreios e impedimentos morais eram grossíssimas e Dante veio a encontrar Beatriz, apenas mais uma única vez, ao atravessarem o Arno, quando então, teriam se saudado, não sem dizerem, novamente, uma única palavra.


No entanto, se para Dante e Beatriz o que restou foi o perene silêncio e o amor irrealizado, Beatriz na obra de Dante o fez transbordar nas mais belas palavras de amor poético realizado em todos os tempos. É Beatriz quem conduz Dante ao Paraíso na sua Divina Comédia, é ela que para ele abre as portas do Paraíso Celeste e é sob o seu olhar de amor que ele contempla Deus e a eternidade.


Tenhamos, então, o prazer de lermos os trechos da "Divina Comédia" nos quais Dante encontra Beatriz no Paraíso Terrestre e ela o conduz aos céus do Paraíso:


(Dante encontra, finalmente, Beatriz no Paraíso Terrestre)


CANTO XXX (trecho)


assim, em meio a uma nuvem de flores

que, de angélicas mãos, subia festiva

e retombava espargindo candores,


sobre um véu níveo cingida de oliva,

dama me pareceu num verde manto

sobre as vestes da cor de chama viva;


e o espírito meu que, desde tanto

tempo, não fora mais por sua presença

arrebatado, já a tremer de espanto,


sem ter pela visão sua conhecença,

mas, por efeito que dela partiu,

de antigo amor senti a força imensa.

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(Beatriz conduz Dante por entre os céus do Paraíso e lança-lhe olhares de amor)


Beatriz volveu-me o seu divino olhar

de centelhas de amor tão incendido,

que o não pôde o meu ânimo enfrentar;


e os olhos abaixei quase perdido.


"Se a ti eu flamejo na força do amor,

além do modo que na terra vê-se,

tão que dos olhos teus venço o valor,


não te surpreendas, pois isso acontece

da perfeita visão que, como apreende,

faz pro apreendido bem que inda se apresse.


Bem vejo como agora já resplende

no intelecto teu a eterna luz

que, vista, só e sempre amor acende;


e, se outra coisa o vosso amor seduz,

nada mais é que daquele um sinal

mal entendido, que nesta transluz.

(...)


* Os quatro primeiro versos finalizam o CANTO IV, os seguintes iniciam o CANTO V.


Dante ALIGHIERI in "A Divina Comédia" (Paraíso)

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 ERÓTICA DA MELANCIA 


A melancia

vermelha nas partes pudendas

despeja sementes e o resto

é carne branca chupada a cuspe.


A melancia é devorada,

é mastigada,

sorvida a espuma.


Só a pele verde

se regurgita

e se descasca,

alheia

ao cio...


Andrea Campos


segunda-feira, 25 de julho de 2022

 DIA 25 DE JULHO: DIA INTERNACIONAL DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA. DIA NACIONAL DA MULHER NEGRA. DIA DE TEREZA DE BENGUELA!


O próprio Joaquim Nabuco afirmou em seu livro "Minha Formação" de que houve uma miríade de movimentos abolicionistas no Brasil. O que ele integrou, o movimento parlamentar abolicionista, foi apenas um deles que por ser institucionalizado e capitaneado por uma elite branca e masculina estava em melhores condições de ser bem sucedido.


Falemos, então, de movimentos abolicionistas e de resistência dos quilombos, mas não apenas daqueles liderados por homens negros, mas de um mais específico, aquele liderado por TEREZA DE BENGUELA. 


Tereza, escrava negra fugida, nascida no século XVIII, vivia no maior quilombo do Mato Grosso em fronteira com a Bolívia, o Quilombo do Quariterêre. Este quilombo tinha por chefe, José do Piolho, a quem Tereza viria a desposar.


Uma vez tendo sido Piolho assassinado por soldados do Estado, Tereza assumiu a chefia do Quilombo. Instituiu o modelo parlamentarista de governo, sendo ela a Presidente do Congresso negral que se reunia uma vez por semana. Mas não era apenas de negros o quilombo gerido por Tereza, mas também, de índios.


Com economia autônoma e autossuficiente, no quilombo plantava-se, colhia-se, tecia-se e fazia-se a forja, processo através do qual transforma-se o ferro em utensílios. O quilombo comercializava com as vilas adjacentes mantendo boas relações com as mesmas. E assim o foi por mais de vinte anos, até ser invadido e dizimado por bandeirantes por volta de 1770, a mando do governo do Mato Grosso. Tereza teria sido, então, assassinada e, após ser decapitada, exposta a sua cabeça no centro do Quilombo. Há uma outra versão para a sua morte, afirmando que a mesma teria se suicidado após ter sido capturada pelos bandeirantes. 


Não importa. Basta irmos ao Mato Grosso para presenciarmos a bela cena: A Rainha negra Tereza, em seus suntuosos barcos a singrar as águas do Pantanal - e do nosso sangue.