CAPELLA BRANCACCI (FLORENÇA)- A "CAPELA SISTINA" DO INÍCIO DO RENASCIMENTO PINTADA POR MASACCIO.
(E na qual Michelângelo treinava a sua pintura...)
CAPELLA BRANCACCI (FLORENÇA)- A "CAPELA SISTINA" DO INÍCIO DO RENASCIMENTO PINTADA POR MASACCIO.
(E na qual Michelângelo treinava a sua pintura...)
CORREDOR VASARI: O "HELICÓPTERO" DOS MÉDICI.
Não é de hoje que banqueiros, magnatas e nem tão galardoados pela fortuna, anseiam por moverem-se de suas mansões até os seus escritórios sem tropeçarem com a plebe rude e as intempéries do trânsito. É assim, ao menos, desde que o capitalismo financeiro resplandeceu na Toscana e os mais poderosos dos capitalistas, a família Médici, que detinha tanto o poder financeiro, como o poder político em Florença, desejaram por locomoverem-se de forma célere, segura e, mais que tudo, privada.
Em 1565, com o casamento do primogênito do governante Médici, o florentino Cosimo I, com a filha de um Imperador austríaco, este anseio por demonstração de poder e gozo de privilégios através do teletransporte tornou-se uma urgência. E para a concretização desse desejo, impunha-se comissionar o mais rápido dos arquitetos na eleboração e implementação de obras superiores em engenho e arte: Giorgio Vasari.
O poderoso Médici, então, encomendou a Vasari, que já havia sido o arquiteto de seu edifício de escritórios, o Palácio dos Ofícios, posteriormente transformado na Galleria degli Uffizi, uma passagem secreta, através do qual, ele, a sua família e os seus convidados pudessem transitar de sua residência no Pallazzo Pitti , passando pelo Pallazzo Uffizi, até os seus escritórios no Pallazzo Vecchio, no centro da cidade. Nos moldes das tradicionais passagens secretas desde a Idade média, esperava-se que Vasari planejasse um longo túnel subterrâneo, mas para encantamento dos Médici, Vasari, provavelmente, já intuindo o júbilo dos poderosos em estarem suspensos sobre tudo e todos, projetou um caminho "aéreo", um corredor sobre a cidade florentina. A obra, como era costume de Vasari, foi arquitetada e implementada em tempo recorde: cinco meses. A "via aérea" tinha o seu auge de maravilha no cruzamento da Ponte Vecchio sobre o rio Arno e nas aberturas estratégicas como aquela que descortinava o rio e a que dava para a nave da Igreja de Nossa Senhora da Felicitá, propiciando que os Médici assistissem às missas sem serem incomodados pelos demais fieis, vale dizer, de um legítimo camarote.
Durante séculos, esse caminho aéreo "secreto" ficou fechado ou com acesso limitado, abrigando partes do acervo do museu da Galleria degli Uffizi. Durante a II Guerra Mundial, depois de haverem bombardeado quase todas as pontes de Florença, os alemães, a mando de Hitler, pouparam não apenas a Ponte Vecchio como o Corredor Vasari. Parece que os fascínios de Hitler pela arte, nessa circunstância, falaram mais alto do que as suas paixões pela destruição, como também pode ser que os monumentos tenham sido salvos por apenas mais uma estratégia de guerra.
Há meia década, o corredor vem passando por restaurações e reformas, sendo que estava prevista a sua entrega ao acesso público, através da aquisição de ingressos, neste de ano de 2021. Em razão da pandemia não se sabe se será possível...
Mas algo é certo, em uma data ainda longínqua ou próxima, desde o século XXI, ao adentrarmos por uma porta discreta e insuspeita no antigo edifício de escritórios dos Médici, na Galleria degli Uffizzi, poderemos alcançar o século XVI. Atravessando o Corredor Vasari, suspensos no tempo, cumprimentaremos os Médici com um sorriso.
ARACY MOEBIUS DE CARVALHO GUIMARÃES ROSA: O "ANJO DE HAMBURGO".
Em 1938, João Guimarães Rosa apostava em uma nova vereda existencial. Insatisfeito com o sofrimento experimentado no exercício da medicina e frustrado no casamento, seguiu, sozinho, sem a família, rumo a ocupar o seu primeiro posto internacional no Itamaraty: o de Cônsul-Adjunto no Consulado de Hamburgo na Alemanha. Lá conheceu a alta funcionária, Chefe do Departamento de Passaportes, Aracy de Carvalho, culta, poliglota e que, também, havia desertado do marido no Brasil em companhia de seu único filho de cinco anos de idade. Aracy deixou o marido em um tempo em que o preconceito contra mulheres separadas no Brasil atingia os píncaros. Apaixonaram-se. A beleza, inteligência, coragem e impetuosidade de Aracy fulminaram Rosa. Viveram esse romance torrencial quando a Alemanha já estava sob o poder do nazismo de Hitler e o Brasil era comandado pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas de vertente antissemita. O governo Vargas alinhava-se com o fascismo de Mussolini e tinha na Alemanha um de seus maiores parceiros no cenário internacional. Foi, então, nesse período, que Vargas fez circular uma resolução secreta na qual vedava que consulados e embaixadas brasileiras concedessem vistos de entrada aos judeus no Brasil. A resolução foi cumprida à risca pela maioria massacrante do corpo diplomático brasileiro. Mas não por Aracy que desafiou Hitler e desobedeceu Vargas e colocou-se em risco de morte ao conseguir que muitas dezenas de judeus adentrassem o Brasil através do "esquema" por ela montado. Para essa perigosa burla, teve a cumplicidade e a valiosa contribuição de seu já amante e amado, João Guimarães Rosa, cônsul-adjunto que, com ela, rumou no rastro desse risco. Muitas vezes, João, ele mesmo, ao substituir o cônsul-geral, concedeu os vistos de entrada, além de dar cobertura às práticas de sua amada destemida.
Aracy chegou a abrigar judeus perseguidos em sua própria casa, assim como a auxiliar-lhes com dinheiro e mantimentos para a jornada de fuga. Chegava a transportá-los na mala do automóvel do consulado para serem embarcados para um destino de vida e liberdade no Brasil. Para tanto, aproveitava-se do livre trânsito que lhe era possibilitado por seu passaporte diplomático.
Uma vez que o Brasil veio a declarar guerra aos países do Eixo em 1942, Aracy e Rosa ficaram sob a custódia do governo de Hitler durante quatro meses até serem, finalmente, trocados por dois diplomatas alemães. Casaram-se nesse mesmo ano de 1942, por procuração, no México, uma vez que no Brasil ainda não havia o divórcio.
Já viúva de Rosa, foi agraciada em 1982, pelo governo de Israel, com o título de "Justa entre as Nações". O nome de Aracy foi, então, incluído no Jardim dos Justos entre as Nações do Yad Vashem (Museu do Holocausto). Pelo seu heroísmo humanitário, Aracy foi, também, homenageada pelo Museu do Holocausto em Washington.
Tanto ela quanto Rosa ao serem indagados sobre o porquê de, mesmo não sendo judeus, haverem arriscado os seus postos e as suas próprias vidas ao desafiarem as ordens de Hitler e as de Vargas, tinham na língu'alma a mesma resposta: "Porque era Justo".
Fizeram a travessia da vida na mesma canoa até o ano de 1967 quando João Guimarães Rosa veio a falecer nos seus braços. Viver é mesmo muito perigoso... E não é não.
RAFAEL SANZIO: LA FORNARINA
Se os gênios na história são raros, as histórias de amor sempre se repetem. E não deixam de serem únicas e excepcionais cada uma a seu modo.
Rafael Sanzio, um dos gênios renascentistas junto a Michelângelo e a Leonardo da Vinci, longe dos amores platônicos desses dois mestres que o antecederam, além dos pincéis, tinha conhecida intimidade com a carne. Sua disposição para misturas ia para muito além das tintas. E como um assíduo frequentador de corpos femininos, estava prometido para a sobrinha de um Cardeal e o seu generoso dote. Mas não generoso o suficiente para evitar que os dotes de Marguerita Luti, a filha de um padeiro, o transtornasse para sempre. E fulgurosa e arrebatadora foi a paixão que arrastou o casal, tida como a mais ardente e luxuriosa dentre as renascentistas, capaz de fazer Dante e Beatriz atravessarem a um só tempo, paraíso e inferno.
Marguerita Luti, então, passou a ser a musa-obsessão de Rafael. É ela a modelo tanto para a Galateia como para a Fornarina. Rafael, então, afastou-se, definitivamente da sua prometida na alta cúpula do Vaticano. E se não podia ficar longe de Marguerita nos dias em que viveu, não ficou longe dela no dia em que morreu.
Eram as mãos de Marguerita que apertavam as suas em seu último suspiro no dia de seu aniversário de 37 anos de idade.
GRANDE SERTÃO: VEREDAS - UMA LEITURA QUE NÃO CESSA.
Há mais de dez anos, venho lendo o romance Grande Sertão: Veredas, e sei que não estou sozinha nessa travessia. Todo leitor dessa obra-prima "surregionalista" como a designou Antonio Candido já fez várias leituras e releituras radicais do livro. Que o diga o professor Willi Bolle, alemão que veio para o Brasil em 1966 com o único fito de estudar o romance e conhecer o seu autor e que não pára de ler o livro há mais de 50 anos!
Eu, nas minhas humildes leituras desse sertão inesgotável, posso dizer que já o li sob três vieses: por primeira vez, enredei-me no romance como quem se enovela nos impossíveis do amor, era o impossível do amor que me capturava e me tinha por abatida nas veredas dessas linhas.
Na segunda vez, fiz uma leitura jurídica e sociológica, detive-me no sertão civilizacional onde não havia instituições, mas havia a lei fundada nos princípios fundamentais do direito.
Até que finalizei uma terceira leitura na qual o livro se descortinou para mim com luzes outras. Ao invés de focar apenas em Riobaldo e o seu "monólogo", decidi por ler o livro como o que ele realmente é: um diálogo. E procurei descobrir o máximo de seu interlocutor que é mudo e cuja fala escutamos apenas através da fala do único que nos fala: Riobaldo. Esse interlocutor é um doutor pesquisador da cidade que vem visitar Riobaldo em seu jipe e para quem Riobaldo narra e procura entender a trajetória de sua vida.
Há quem diga que esse doutor ocupe o lugar do psicanalista. Deveras. Mas, tenho uma outra intuição: esse doutor ocupa o lugar da ciência, da racionalidade. Esse doutor é o racional em diálogo com o trágico personificado em Riobaldo. Eis, então, sob que tintas vejo hoje essa obra: sob as tintas de uma confrontação entre a racionalidade e a tragicidade, confrontação essa a engendrar o homem humano. No mais, sempre haverá outras novas leituras outras. Travessia.
UM JAGUNÇO CHAMADO JOÃO
João não era afeito a discussões ideológicas. Certa feita, estando ele e alguns amigos, dentre eles, Antonio Candido, em um restaurante sobre a baía de Porto Fino na Itália, Candido firmou a sua posição socialista e o apoio a todas as políticas a serem aprovadas no Congresso sob esse viés. João assegurou ser a favor de toda igualdade entre os humanos, mas que esta não era sua maior preocupação. A maior preocupação do ser humano aqui na Terra, a seu ver, era saber se Deus existia ou não.
Uma vez eleito para a Academia Brasileira de Letras, resistiu, durante quatro longos anos, a tomar posse, pois, em sendo cardíaco, asseverava que o seu coração não resistiria a tão grave emoção. Mas, não só. O que fez João reunir pessoas de sua família e passar-lhes instruções para se "algo lhe acontecesse" após a sua posse, com poucas dúvidas de que a fatalidade derradeira logo lhe bateria a porta, foram as palavras de um pai de santo, por ele consultado, no norte de Minas. Disse-lhe o pai de santo: "No dia em que o nome Guimarães Rosa ecoar na mais alta altura, o homem João irá partir". Foi ou não foi?
No dia 19 de novembro de 1967, três dias após tomar posse como imortal da Academia Brasileira de Letras, o homem João alçou o seu voo definitivo. E partiu para sempre aos 59 anos de idade.
QUEM TEM MEDO DE MACHADO DE ASSIS?
A única vez em décadas de vida que eu havia ouvido alguém dizer que não suportava Machado de Assis, eu estava nos alvores de meus dezoito anos de idade e escutei o imprevisto de um namorado que transitava em seus vinte e poucos anos. A afirmação me veio como uma rajada de vento invadindo um ar pesado, e leve não foi o meu silêncio ao escutá-la. Claro que não é obrigado a ninguém gostar de um autor, mas por detrás de tanta agressividade, um mais além se adivinhava. Não preciso dizer que, após essa acontecência, o namoro que já se arrastava por anos, duraria apenas mais quatro meses e cinco contos Machadianos; nada mais. Eu Capitulei. E penso, hoje, que detestar Machado era o seu modo de dizer que temia a traição.
Essas memórias me vêm em meio a atual problematização acerca da leitura da obra de Machado de Assis. Sobre a dificuldade de jovens da mesma idade que eu e o meu namorado apavorado de antanho se embrenharem em suas páginas. E não apenas. A rejeição à literatura machadiana reverbera e circula em meio a gente em cujos galhos estão penduradas maçãs maduras. Então, novamente, me pergunto, o que está por detrás dessa problematização e rejeição de um autor que apenas esperava "angariar as simpatias da opinião" e que ainda é o maior, mais inovador e disruptivo escritor brasileiro e para muitos críticos de todo o mundo, ainda reina como o maior da América Latina? Quem tem medo de Machado de Assis?
Não faz tanto tempo, molhei os olhos ao encontrar obras de Machado integrando uma lista de livros proibidos para as escolas públicas, em uma espécie de Index Librorum Prohibitorum. Desde então, ficou claro para mim que as palavras dos grandes autores, nelas as palavras de Machado, as suas narrativas desestabilizariam a forma de pensar e atuar na cultura que se pretende forjar pelo status quo atual, afinal, "palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução".
Para uma cultura que rejeita a reflexão, prima pela pauperização dos conceitos, pelo rechaço à erudição, à concatenação de ideias e aos raciocínios minimamente complexos, Machado nunca poderia ser tão bruxo. Nem seu "humanitismo" tão canino. Nem sua elegância tão deslocada. Nem seu gênio improvável de mulato filho de lavadeira e de um descendente de escravo, nascido no Lavradio e que à custa de diuturno e longo labor cinzelou a sua escrita, algo tão perturbador.
Sim, caro Machado, palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz uma Nação. O Brasil, por hora, capitulou. E já vão longe os tempos nos quais jovens e livros faziam a Revolução...