quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

 O TRIUNFO DE GALATEIA de RAFAEL SANZIO.




A fim de livrar-se das investidas de Polifemo, Galateia foge em uma carruagem puxada por delfins rumo aos braços de seu amante, Acis.


Os delfins (golfinhos) são, em verdade, o deus Apolo.


Conta Homero em seu Hino a Apolo na Ilíada que, uma vez decidido a erguer um Templo em seu nome e ali instalar um oráculo, Apolo transformou-se em um delfim a fim de angariar os seus primeiros sacerdotes. Dispôs, então, que o chamassem de Apolo Delfínio e o seu Templo seria nomeado como o Oráculo de Delfos, ou seja, o Oráculo do Delfim. Os delfins, golfinhos, são, então, a representação de Apolo e o traduzem em sabedoria e luz.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

 O AUTORRETRATO DE MICHELÂNGELO BUONARROTI.





A despeito do fascínio que o corpo humano e a sua beleza lhe despertavam, Michelângelo era destituído de quaisquer vaidades físicas. Muito pela contrário, vivia como um maltrapilho e pouco frequentava o banho. Dizia ele que era esse o seu modo de emular o "Cristo". Não fez retratos nem de Nobres, nem de plebeus, todas as suas pinturas são relatos de cenas bíblicas ou mitológicas. Mas, nessas cenas retratava as personagens com as imagens das pessoas de seu tempo e, finalmente, na pintura do afresco do Juízo Final para o altar da Capela Sistina, pintou o seu autorretrato. Ele aparece na pele supliciada de São Bartolomeu que a teve  recortada por esfolamento como último martírio. E nessa pele fustigada e estendida pelas mãos do próprio Santo, está a sua efígie.


Se Michelângelo não era belo fisicamente, não era tenebroso como se fez parecer. No entanto, o artista fez um autorretrato fiel, não de sua aparência, mas de seu espírito: atormentado, depauperado e angustiado. 


Em um mundo de valores binários e excludentes,  assim é o retrato daquele que tem o corpo e a alma universais.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

 ETERNO É QUEM CONTINUA A DAR À LUZ 500 ANOS DEPOIS DE MORTO.


Você aprova a "NOVA" fachada para a Basílica de San Lorenzo,  projetada por Michelângelo há mais de 500 anos?


Trata-se, atualmente, de uma das pautas da prefeitura de Florença: A execução de uma "nova" obra de arte de Michelângelo Buonarroti...






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 ARTE, RELIGIÃO, SEXUALIDADE E HOMOEROTISMO. A CAPELA SISTINA.





Em tempos de acirrada discussão sobre sexualidade e homoerotismo na arte e açodamento dos defensores da moral e dos bons costumes, por que não começarmos por uma análise honesta do erotismo e do homoerotismo representados nos próprios recintos da Igreja Católica? Por que não começarmos pela residência dos Papas no Palácio Apostólico, onde está a Capela Sistina, locus sagrado para a escolha do representante de Deus na Terra? Por que não começarmos por interrogar Michelângelo e os seus afrescos obscenos compostos para a Capela Santa? 

É certo que o complexo projeto de Michelângelo suscitou paixões que se digladiaram: De um lado, aqueles que se encantaram com o divino transfigurado em carne, pulsões e sangue. De um outro lado, aqueles que protestaram bramindo que os nus dos afrescos, incluindo o de Jesus, eram imorais e antidogmáticos e que as pinturas na Capela seriam muito mais apropriadas às profanas termas e tabernas. Uma  forte onda de puritanismo levou, inclusive, o Papa Paulo IV a chamar um dos assistentes de Michelângelo,  Daniele de Volterra, para cobrir as partes pudendas das imagens.

 Apenas em 1980, a pura pintura de Michelângelo voltou a ser revelada ao mundo, após um árduo e longo trabalho de restauração.  E assim, os afrescos da Capela Sistina voltaram a ser os afrescos da Capela Sistina: carne, sangue, erotismo, homoerotismo, sublimação, imanência, transcendência e santidade. Compreensíveis apenas para os que têm Fé.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

 DESTINO DE MICHELÂNGELO: SER PIETÀ NA VIDA...




O vigor, o brilho renascentista da poetisa Vittoria Colonna, companheira, confidente e interlocutora de Michelângelo não o livrou de, mais uma vez na vida, após a precoce perda de sua mãe, ser o Pietà de uma mulher... 


Além de ter velado a amada intermitentemente em seu leito de morte, foi em seus braços e sob as suas lágrimas aflitas que ela deu o seu último suspiro... 


LAMENTO pela MORTE de Donna VITTORIA COLONNA

Marquesa de Pescara. 


Como é doce para mim dormir o sonho da pedra

O sono  profundo é aquele que as estátuas embalam

Quando o século é infame para fechar as pálpebras

Não ver e não sentir tornam-se virtudes

Cale a boca! Não me acorde! Fale baixo...


Quem fala na sala onde a morte cala

Não, não é o escultor imóvel e sonhador

Nem pelo  fim de Florença eu sofri tanto

Mulher, eu havia que te ver primeiro, antes

De Michelangelo antes de mim antes do Deus vivo,


Eu tenho ciúmes Dele como tenho ciúmes das flores claras

Que você às vezes  misturava ao seu cabelo dourado

Eu chorei muitas vezes na Roma estrangeira

Escola de exílio para o amor separado

O infortúnio pelo qual chorarei amanhã,

Minha Vittoria de olhos fechados que o eterno embeleza,


Você que meus braços nunca irão segurar

Toquei sua mão fria e a tenho em meu coração para sempre,

O arrependimento de não ter ousado tocar na sua testa

0 desejo terrível que nada mais interrompe,

Mulher Colonna na cama em coluna,

Você muda de rosto neste dia angustiante

E a noite das tumbas finais dá a você

As características que dei à capela de San Lorenzo

Para aquela noite que sonha com um mundo diferente.


Amor, você não terá piedade dos meus anos cinzentos

Amor, você não me odeia por muito tempo,

O amor no caixão é amado talvez mais

Nada pode acalmar este pobre velho coração

Ter perdido Vittoria foi ter perdido a minha pátria.


Michelângelo Buonarroti

 FRÁGIL CORPO FEMININO COMO FONTE DE DESAMPARO.


Em razão não apenas dos costumes da época, mas  de uma enfermidade de sua mãe, Michelângelo ficou até os três anos de idade, apartado de sua família e sob os cuidados de uma babá. 


Uma vez retornando ao lar familiar, o menino se viu órfão de mãe muito cedo, aos seis anos de idade. Quatro anos depois, seu pai contrai novas núpcias com aquela que ocuparia o lugar de mãe de seus filhos, mas essa também vem a falecer pouco mais de dez anos depois. A saúde sempre frágil de sua mãe e a vida breve de sua madrasta foram, provavelmente, sinônimos de inexplicável desamparo e abandono maternos para a criança e, posteriormente, para o adolescente. A fugacidade do corpo feminino como uma tragédia afetiva anunciada.


Isso, a meu ver, contribuiu não apenas para a sua tendência ao isolamento, como também, para a  sua preferência por pintar e esculpir corpos masculinos e mesmo masculinizados, ainda que se tratassem de corpos de mulheres. O vigor e a potência masculina à imagem e semelhança da força divina inoculados tanto a corpos de homens como ao de mulheres, através de sua própria arte, apaziguariam a sua angústia de abandono e desamparo...


*

Ilustrações:


Sibila Délfica e Sibila Líbica (Profetisas pagãs). detalhes da Capela Sistina. (Michelângelo Buonarroti)



 "MEU PAI E OS IRMÃOS DE MEU PAI ME BATIAM SEMPRE E FORTE, CONSIDERANDO UMA VERGONHA QUE A ARTE TENHA ENTRADO NA FAMÍLIA". 

(Michelângelo Buonarroti)


Inobstante as resistências de seu pai, um nobre falido que pretendia que Michelângelo seguisse uma carreira de magistrado  a fim de resgatar a honra da família e não fosse um "reles pedreiro e pintador de paredes", Michelângelo insistiu em sua vocação. 


Em razão da não permissão paterna para o aprendizado das artes, o que seria uma franca degradação para a família, acompanhada de surras e arremesso de seus desenhos a fogueiras, Michelângelo iniciou as suas atividades de aprendiz em idade além da desejável para um artista plástico, já havendo completado os 13 anos de idade. Mas, uma vez aprendiz, como aprendiz encantou o Mecenas, Lourenço de Médicis, passando a ser, por ele, remunerado. E em passando a ser remunerado, passou a sustentar toda a sua família formada por seus quatro irmãos e o seu pai, sendo desse último um grande protetor e defensor.


Na carta abaixo, enviada por Michelângelo a seu irmão mais novo, Giovanni, quando estava  em uma de suas temporadas de trabalho em Roma, podemos testemunhar o quanto o artista já ocupava o lugar de arrimo da família e repreendia o irmão por causar dissabores ao seu pai:


"Giovanni Simone, 


Diz-se que fazer bem aos bons torna-os melhores, e aos maus, piores. Venho tentando já há alguns anos, através de bons atos e palavras, reconduzir-te a viver corretamente e em paz com teu pai e conosco, mas tu continuas piorando. Não te digo que sejas ruim, mas comportas-te de uma maneira que não me agrada, nem a mim nem aos demais. Poderia fazer-te um longo discurso acerca do teu comportamento, mas seriam palavras, iguais às que já te dirigi.


 Eu, para resumir, digo-te que uma coisa é certa: nada possuis no mundo, tuas despesas e tua hospedagem sou eu quem fornece, e venho fornecendo há algum tempo pelo amor de Deus, acreditando que fosses meu irmão, como os outros. Agora, tenho certeza de que não és meu irmão, pois, se o fosses, não ameaçarias meu pai; és, antes, um animal, e eu como animal irei tratar-te. 


Saibas que quem vê seu pai ameaçado ou agredido é impelido a defendê-lo com sua própria vida. E basta. Digo-te que nada possuis no mundo; e, caso eu ouça a menor coisa sobre as tuas atividades, irei imediatamente até aí a mostrar-te o teu erro e ensinar-te a destruir os teus próprios pertences e incendiar casas e fazendas que tenhas ganhado tu. Não estás onde acreditas estar. 


Se eu for até aí, contar-te-ei coisas que te deixarão banhado em lágrimas, e verás sobre o que fundas a tua soberbia. Hei de repetir-te que, se quiseres comportar-te bem e honrar e respeitar teu pai, ajudar-te-ei como aos demais, possibilitando que dentro em breve monteis um bom estabelecimento; caso contrário, irei até aí e resolverei os teus assuntos de maneira a que compreendas o que és melhor do que jamais o fizeste, e saberás o que tens no mundo, e o verás por onde quer que vás. Nada mais. Suprirei com feitos o que me falta em palavras. 


Michelangelo em Roma. 


PS: Não posso evitar escrever-te ainda um par de linhas: há doze anos venho levando uma vida miserável por toda a Itália, suportando todas as humilhações, sofrendo todas as privações, lacerando meu corpo em todos os labores, pondo a minha própria vida em mil perigos, somente para ajudar a minha família; e agora que começava a reerguê-la um pouco, tu sozinho queres ser quem desordene e destrua em uma hora o que eu havia realizado em tantos anos e com tantas penas. Pelo corpo de Cristo, não será verdade! Estou pronto a destruir dez mil dos teus semelhantes, caso seja necessário. Agora sê esperto, e não provoques quem padece outras tribulações."


*

Ilustração: Davi e Golias (Detalhe da Capela Sistina). Michelângelo 

Buonarrotti.