quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Sobre o filme O AGENTE SECRETO (Contém spoiler)
Importante o diretor Kleber Mendonça Filho ter lançado um olhar sobre a ditadura em uma outra perspectiva: A da promiscuidade entre o setor público e o setor privado. E o quanto esse "player" empresarial estava implicado não apenas com a dinâmica do "milagre econômico", mas com as práticas de toda sorte de violências, incluindo assassinatos, durante os anos de chumbo, a fim de fazerem valer os seus interesses econômicos e financeiros.
Nessa toada, ampliou o olhar sobre a perseguição às Universidades. Por detrás de uma "simples" caça a professores comunistas, poderia estar um projeto deliberado de colocar abaixo toda e qualquer pesquisa que comprometesse o esquema montado entre empresas públicas, no filme, a Eletrobrás, e indústrias privadas que tinham participação nessas empresas. Se a tecnologia a ser desenvolvida, e que comprometesse o grande esquema, estivesse em Universidades fora do Centro-Sul do país, a artilharia apontada para os seus departamentos seria ainda mais pesada. Afinal, ao Nordeste apenas é autorizada a exportação de paus-de-arara, o que nada mais é do que a mesma lógica praticada pelos países centrais quando o Brasil "ousa" desenvolver tecnologia.
No filme há dois Centros da UFPE que são focados: O de oceanografia e o de engenharia elétrica. Kleber mostra o quanto a Universidade é um ator presente e atuante na sociedade local. A oceanografia, na análise dos reiterados ataques de tubarões (em angulação com o realismo fantástico do anedotário local que tem a "Perna cabeluda" como síntese), e o de engenharia elétrica que, de tão avançado, está ameaçando os interesses e as fraudes da Eletrobrás e das empresas privadas ligadas a ela (uma metáfora dos tubarões). Mais adiante percebemos que, também, o Metrô de São Paulo integra essa promiscuidade entre o regime militar e o setor privado.
Uma crítica à nossa herança social contagiada por regimes autoritários, atualizando ao avesso tragédias como a de Miguelzinho e a de sua mãe, Mirtes, entrecortado com o permanente elogio do diretor às salas de cinema de rua, fazem do Agente Secreto aquele filme que, mais do que estar em cartaz no Cine São Luís durante a exibição da narrativa, espiona-nos sem cessar enquanto se desenrola a nossa trama escatológica e críptica , cheia de sem respostas, portanto, ainda mal-dita.
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