A LEITEIRA
Ele vinha carregando uma leiteira, por uma estrada pedregosa com seus pés esburacados. As unhas tinham um preto que era a tinta das suas sombras, de seus sonhos sempre arrevesados.
Tinha aprendido a ser um real de revés e a sonhar como quem se escoava da morte. Algumas feridas denunciavam joelhos calosos e gotas de sangue estancado eram a prova de que ainda estava vivo.
Mas ele vinha, vinha, perfurando uma manhã que lhe extraía gota a gota o suor. Chegou ao alpendre da casa, abriu a porta e o chão de barro refrescou a sua alma. Sobre o colchão de palha um corpo de moça. Moça delgada com ossos que raspavam as tiras de lençol.
A sua púbis se oferecia às nesgas de luz e brilhavam-lhe alguns pentelhos ralos. Ele deixou a leiteira sobre uma mesa de madeira rachada. Aproximou-se... Ela arfava, pausadamente, vez em quando soprava-lhe pedaços de suspiro. Tinha uma pele ajambada, ressequida e o cabelo de um crespo úmido. Ele pôs a mão em seu rosto, ela deu um muxoxo e abriu-lhe os olhos de soslaio. Eram uns olhos cor de malva respingados de um amarelo-sol.
Novamente, ela o espiou por entre as persianas dos cílios e apertou-lhe a mão. Naquele instante, ele todo se refez, sabia que ela o amava e ele era um homem outro, o coração bombava-lhe o tempo infinito cicatrizando-lhe as chagas.
Ela, novamente adormeceu, mas o corpo dele só ali amanhecia. Novamente se fez silêncio. Mas nele cabiam todas as palavras, as palavras dele, as palavras dela que se traduziam na vida em expansão.
Andrea Campos
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